A leitura é uma atividade construtiva – Jornal A Gazeta

A leitura é uma atividade construtiva

Muito se fala a cerca da leitura como atividade prioritária na vida estudantil. Todavia, ninguém pensa em incluí-la como uma disciplina curricular, onde os estudantes possam exercitar as capacidades interpretativas, recreativas, criativas, reflexivas, fonológicas, prazerosas, sociointerativas, dentre outras. O MEC não visualiza a leitura como uma prioridade acima de todas as outras. Da leitura que se faz da vida, do mundo, induz o modo de viver e de se relacionar uns com os outros, compreender a vida e tudo que nela existe.

E muita embora a leitura seja uma atividade que se realiza individualmente, ela se insere no contexto social, envolvendo capacidades que vão desde a decodificação do sistema de escrita até a compreensão e a produção de sentido para o texto lido. Abrange, “desde capacidades desenvolvidas no processo de alfabetização stricto sensu até capacidades que habilitam o aluno à participação ativa nas práticas sociais letradas. Sempre será por meio da linguagem que o ser humano cria e recria um mundo que é resultado de práticas sócio interativas. Por isso, a língua é uma atividade constitutiva e criativa, que implica ação conjunta dos sujeitos falantes.

Portanto, a oralidade e a escrita são práticas que devem se complementar. Essas práticas encontram-se baseadas no letramento, considerado um processo complexo, mas quase sempre associado à alfabetização. Sabe-se, no entanto, “que ele abrange a capacidade de o sujeito se colocar como autor (sujeito) do próprio discurso, no que se refere não só à relação com o texto escrito, mas também com o texto oral” (Carvalho, 2005).

Então, o desenvolvimento de práticas que proporcionem o letramento, no sentido mais amplo da palavra, envolve a leitura como eixo principal, pois, como afirma Carvalho (2005), “a formação de leitores na escola é deficiente, na medida em que não se promovem práticas sociais significativas com a linguagem”.

Então, essa preocupação com a precariedade na formação de leitores proficientes é constatada pelas Matrizes de Referência para a Avaliação em Língua Portuguesa, Matrizes Curriculares ou Parâmetros Curriculares, que são uma espécie de “mapas cognitivos”, que orientam os processos de ensino e  levam professores a questionarem os conteúdos que podem favorecer o desenvolvimento das habilidades descritas na elaboração dos planos disciplinares e testes.

Ainda, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, a dificuldade com leitura proficiente é acentuada no fim do primeiro ano e no sexto ano do Ensino Fundamental. No primeiro ano, devido à dificuldade encontrada para alfabetizar; no segundo, “por não garantir o uso eficaz da linguagem, condição para que os alunos possam continuar a progredir até, pelo menos, o fim do nono ano”. (PCN‟s 1998, p.19). E ainda:

Por outro lado, a dificuldade dos alunos universitários em compreender textos propostos para leitura e organizar ideias por escrito de forma legível levou universidades a trocar os testes de múltipla escolha dos exames vestibulares por questões dissertativas e a não só aumentar o peso da prova de redação na nota final como também a dar-lhe um tratamento  praticamente eliminatório”. (PCN‟s 1997, p.19).

Essas considerações deixam claro que o trabalho com a leitura deve ser revisto, para que leitores considerados críticos e articuladores sejam formados, ajudando assim a melhorar a Educação Básica e, consequentemente a Educação Superior.

Como tornar exitosa essa formação leitora? A resposta a essa pergunta norteia a preocupação de muitos educadores, que questionam a formação de um leitor ideal, principalmente ao que diz respeito ao desenvolvimento da  leitura de crianças oriundas de meios iletrados, com uma história de pouca  exposição à prática no período pré-escolar. Sabe-se que o fato de uma criança estar inserida numa cultura letrada tem influência positiva significativa em seu progresso em leitura nas primeiras séries escolares.

É possível encontrar, ainda hoje, pessoas que passaram pela escola, aprenderam técnicas de decifração do código escrito e são capazes de ler palavras e textos simples, curtos, mas que não são capazes de se valerem da língua em situações sociais que requeiram habilidades mais complexas. Essas pessoas são alfabetizadas, mas não letradas.

Para Cagliari (1994, p. 25), “o objetivo fundamental da escola é desenvolver a leitura para que o aluno se saia bem em todas as disciplinas, pois se ele for um bom leitor, a escola cumpriu em grande parte a sua tarefa”. O autor define que a leitura deve ser a extensão da escola na vida das pessoas para que elas sejam capazes de entender a sociedade em que vivem e transformá-la num mundo melhor.

Todas as pesquisas desenvolvidas, ao longo dos últimos tempos, sobre como tornar os alunos leitores competentes, têm sido unânimes em afirmar que o ato de ler está alicerçado na capacidade humana de compreender e interpretar o mundo. Assim, é hora de a escola inserir a Leitura como disciplina obrigatória na sua grade curricular.

Ensinar a aprender a ler e a escrever é tarefa complexa, mas essencial e gratificante se se  considerar o envolvimento de professores e alunos para que ocorra a aquisição da aprendizagem da leitura. Essa é uma prática que irá melhorar o mundo político e social. A leitura é um importante instrumento para o processo de reconstrução da sociedade. E ler não é somente ler letras, nomes, mas ler a vida em toda sua complexidade e nela trilhar o melhor dos caminhos, fazer as melhores escolhas, pensar numa sociedade mais humana e melhor para a vida de todos. Assim, a leitura e a escrita são as chaves para um mundo harmônico e feliz.

DICAS DE GRAMÁTICA

 

Uso de “A PRINCÍPIO” ou “EM PRINCÍPIO”, como empregar uma e outra forma?

– EM PRINCÍPIO é o mesmo que “em tese”, “de um modo geral”, como na frase “Em princípio, achei você uma pessoa muito legal”

– A PRINCÍPIO – Significa “começo”, “início”, como na frase “A princípio, achei você uma pessoa arrogante. Mas, depois, percebi que você é doce e meiga.”

Uso de “EM FACE DE” ou “FACE A”?

– Não existe a expressão “FACE A” na língua portuguesa. Dessa forma, apenas é permitido utilizar a expressão EM FACE A. Exemplo: “Em face da crise política, vou sair do Brasil.

Luísa Galvão Lessa Karlberg, IWA – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Presidente da Academia Acreana de Letras; Membro perene da IWA.

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