A questão do Acre no The New York Times (Parte 10) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 10)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores americanos e europeus pelo controle do Acre resultaram em numerosas notas jornalísticas no diário americano “The New York Times”. Hoje publicamos a tradução de uma carta enviada ao editor do NY Times pelo leitor A. J. Lamoureux, da cidade de Hyattsville, nas cercanias de Washington, que critica ferozmente o NY Times pela publicação recorrente de erros absurdos nas diversas matérias cobrindo a questão do Acre. Ao aceitar publicar a carta, o editor do NY Times aceitou os equívocos e mostrou aos leitores que o jornal tinha o compromisso com a verdade dos fatos.

O RIO ACRE E
SEU “STATUS”

Seção “Cartas ao editor do The New York Times”

 

New York (22 de julho de 1902) – Não é de surpreender, talvez porque a região do Rio Acre,objeto de uma controversa disputa fronteiriça entre a Bolívia e o Brasil, seja tão pouco conhecida, mas isso nãopoderá ser utilizado como desculpa para todas as descrições e deduções errôneas que foram publicadas recentemente por este jornal.
Um ex-Consul Americano, que afirma ter visitado o território, disse que sua única saída é sobre as cachoeiras dos rios Madeira e Mamoré. Este é um equívoco. O território em disputa é acessado pelo rio Purus, que não é obstruído por qualquer cachoeira. E tem comunicação regular via barcos a vapor com Manaus e o Estado do Pará.
Outro escritor descreve a romântica história do “Rei do Acre” e seus feitos, parcialmente baseado na criação em 1899 do “Estado Independente do Acre” por um aventureiro espanhol de nome Luiz Galvez, com o apoio do estado brasileiro do Amazonas, que deu a ele 400 mil réis, até ser finalmente removido do Acre por uma expedição naval brasileira.
E agora um dos nossos mais sérios jornais descobre que a concessão do território boliviano para um Sindicado de investidores anglo-americano dará ao Kaiser Wilhelm [imperador alemão] uma desculpa para fortalecer os laços entre as colônias alemãs no Brasil e sua mãe pátria na Europa, que poderá, eventualmente, resultar na criação de uma série de Estados Alemães quase independentes dentro do território brasileiro.
A ideia é tão absurda que se não fosse não fosse a “Doutrina Monroe” [Que reafirmava a posição americana contra o colonialismo europeu, reservando as Américas para os “Americanos”] ninguém pensaria duas vezes queo Kaiser Wilhelmestá atrás de cada arbusto na América do Sul. As colônias alemãs no Brasil estão estabelecidas e organizadas, e não existe desculpa para terem governos independentes. Além disso, os brasileiros jamais entregariam o privilégio de fornecer funcionários para colônias estrangeiras: eles amam muito os cargos públicos para se permitirtal generosidade. Seria impossível localizar uma colônia independente em qualquer parte do Brasil, e pouquíssimos colonos alemães concordariam em continuar sob o regime militar do Kaiser alemão.
O real status da disputa do Acre é a seguinte: a Bolívia é incapaz de governar e desenvolver o território que abarca as cabeceiras dos rios Purus e Juruá, especialmente em razão de dificuldades de comunicação. Esta condição ficou comprovada pelas recentes revoluções que aconteceram no Acre, promovidos pelos próprios brasileiros que habitam o território. Os bolivianos temem que o Brasil extraia toda a riqueza natural ou se apropriem dela para eles. Isso explica o interesse dos bolivianos de conceder o território acreano para uma companhia estrangeira em condições extremamente favoráveis ao tesouro boliviano. É tudo ou nada.
A parte contestada do Acre pelo Brasil forma apenas uma pequena parte da área que foi concedida ao Sindicato de investidores anglo-americanos. É uma estreita cunha de território que inicia na junção do rio Beni com o rio Madeira e termina nas cabeceiras do rio Javary, onde forma a fronteira com o Peru.O interesse do Peru é insignificante. A controvérsia surgiu em relação à posição das cabeceiras do rio Javary. Uma comissão mista de fronteira Brasil-Peru a tinha localizado na posição 7 graus, 1minuto e 14,5 segundos Sul, o que foi aceito por ambos os países. Posteriormente um militar brasileiro questionou essa posição e o governo brasileiro mandou outra comissão por sua própria conta – a Bolívia se recusou a fazer parte – que concluiu que a posição correta deveria ser 7 graus, 11 minutos e 48,10 segundos latitude Sul.
Esta proposta aumentou em cerca de 10% de minutos a porção de território ao qual o Brasil deveria ter direito ao longo da faixa fronteiriça, que agora mede 1.031,24 km de comprimento. Está claro que a área em disputa é realmente muito pequena se comparado com o território dos dois países.
Como a Bolívia havia abrido mão de um território muito maior sob o tratado de Santo Idelfonso [firmado entre a Espanha e Portugal em 1777],o Brasil não deveria ter feito questão de um território tão pequeno depois que a linha de fronteira tinha sido estabelecida pelo referido tratado [Na verdade o estabelecimento definitivo da fronteira Brasil-Bolívia foi regulamentado pelo Tratado de Ayacucho, de 1867. Nele o Brasil finalmente reconheceu que o Acre pertencia à Bolívia]. Mas os brasileiros tem paixão por problemas e vão continuar assim o máximo que puderem. Alguns deles estão advogando pela rejeição da linha fronteiriça estabelecida no tratado entre os dois países, e reclamam que a linha deveria correr em direção Oeste, a partir da boca do rio Beni, na latitude de 10 graus e 20 minutos Sul.

Dados do artigo original: “Letters to the Editor of the Times, by A. J. Lamoureux”, publicada pelo jornal The New York Times em22 de julho de 1902.

*Evandro Ferreira é pesquisador do Inpa-Acre e do Parque Zoobotânico da Ufac

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