A questão do Acre no The New York Times (Parte 11) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 11)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus pelo controle do Acre resultaram em numerosas notas jornalísticas no diário americano “The New York Times”. Sendo tão antigas e publicadas originalmente em inglês, resolvemos selecionar algumas delas, traduzir e publica-lasem uma série de artigos em ‘A GAZETA’. Para ajudar no entendimento do contexto histórico, textos explicativos são colocados entre colchetes.

BOLÍVIA APELA AO
SECRETÁRIO DE
ESTADO HAY
Deseja que ele intervenha em sua disputa com o Peru e o Brasil

WASHINGTON, 10 de julho – O governo boliviano, através do ministro Guachallas, apelou ao secretário Hay para intervir em seu favor na disputa triangular entre Bolívia, Peru e Brasil pela posse do território de Acre, localizado no ponto em que a fronteira dos três países coincide.
[John Milton Hay (08/10/1838-01/07/1905) foi assistente e secretário particular de Abraham Lincoln e Secretário de Estado dos EUA entre 30/09/1898 e 0107/1905 durante os governos dos presidentes William McKinley (1898-1901) e Theodore Roosevelt (1901-1905)].

A questão é complicada, pois envolve os direitos de um poderoso sindicato composto por ricos investidores americanos e influentes empresários alemães e ingleses, e anteriormente o Departamento de Estado já havia se recusado a interferir. No entanto, o secretário Hay ouviu hoje as declarações do ministro boliviano e prometeu apresentar o assunto ao presidente.

[Isso mostra que o governo boliviano, diantedos problemas enfrentadosno Acre, estava apelando ao governo americano no sentido de intervir em seu favor. É possível que esse encontro com o Secretário de Estado Americano tenha sido arranjado com a assistência dos investidores integrantes do Bolivian Syndicate tendo em vista que um mês antes o governo brasileiro informou oficialmente aos bolivianos sua discordância com a concessão do Acre – ver a parte 7 dessa série de artigos].

COMBATES NO
TERRITÓRIO ACREANO
Invasores brasileiros e tropas bolivianas entraram em choque

London Times-The New York Times/Cabograma especial
[Cabograma era uma mensagem telegráfica transmitida através de cabos submarinos, que existiam entre a Europa e os EUA desde meados de 1860]

Londres, 30 de outubro de 1902 – O correspondente do The New York Times no Rio de Janeiro afirma que alguns combates ocorreram na região do Acre entre os invasores brasileiros e as forças bolivianas.
[Em pesquisa nos arquivos do The New York Times, essa parece ter sido a primeira nota relativa aos combates em curso no Acre, iniciados em 06 de agosto, quando Plácido de Castro, comandando uma tropa formada por apenas 23 homens, tomou a cidade de Xapuri].

O correspondente diz que a razão para o forte sentimento no Brasil contra a concessão boliviana do Acre a um sindicato americano é que o Acre possase transformar na chave para o controle americano do comércio mundial de borracha, levando subsequentemente à dominação americana dos territórios da Amazônia.

[Quando essa nota do The New York Times foi publicada, no final de outubro de 1902, a situação bélica no Acre era a seguinte:
(a) Depois da tomada de Xapuri, Plácido de Castro estabeleceu seu quartel general no seringal Caquetá, localizada há poucos quilômetros de Volta da Empresa (atual Rio Branco), fazendo preparativos para atacar Puerto Alonso (atual cidade de Porto Acre), onde um batalhão cerca de 250 soldados bolivianos estava estacionado;

(b) Entretanto, em meados de setembro uma força boliviana de cerca de 180 homens sob o comando do Coronel Rosendo Rojastinha adentrado o Acre por varadourose seguia em direção a Puerto Alonso. Plácido de Castro então planejou atacar os bolivianos nas cercanias de Volta da Empresa, mas foi surpreendido e seu batalhão composto por cerca de 70 homens foi derrotado com pesadas baixas (cerca de 30 homens entre feridos e mortos). Derrotado, elefoi forçado a descer o rio Acre, tendo se reagrupado no Seringal Bagaço, algumas horas abaixo de Volta da Empresa, que foi ocupada pelas tropas bolivianas;

(c) Apesar da derrota inicial, Plácido de Castro, com o apoio de seringalistas brasileiros, conseguiu reagrupar suas forças e formou um novo exército com cerca de mil homens. Parte deles foi enviada para tomar Puerto Alonso, que foi sitiada em meados de outubro de 1902, com as tropas acreanas capturando algumas fortificações do entorno de Puerto Alonso, mas incapazes de derrotar os bolivianos fortemente armados e bem entrincheirados. A resistência boliviana em Puerto Alonso foi heroica, repeliu várias investidas dos brasileiros, e se estendeu até o início de 1903. Mais acima no rio Acre, a outra parte da tropa, sob o comando de Plácido de Castro, tinha sitiado Volta da Empresa (Rio Branco). Após 10 dias de feroz batalha as tropas bolivianas do Coronel Rosendo Rojasse renderam em 15 de outubro.

Dados dos artigos originais: “Bolivia appeal to Mr. Hay”, publicada pelo jornal The New York Times em 11 de julho de 1902; “Fighting in Acre Territory”, publicada pelo jornal The New York Times em 30 de outubro de 1902.

*Evandro Ferreira é pesquisador do Inpa-Acre e do Parque Zoobotânico da Ufac

 

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