A questão do Acre no The New York Times (Parte 13) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 13)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus pelo controle do Acre foram noticiadas pelo prestigiosojornal “The New York Times”. Sendo tão antigas e publicadas em inglês, resolvemos selecionar algumas delas, traduzir e publica-las em uma série de artigos em ‘A Gazeta’. Para ajudar no entendimento do contexto histórico, textos explicativos são colocados entre colchetes.

A REBELIÃO NO ACRE

Presidente Pando da Bolívia lidera uma segunda expedição à região em conflito.

RIO DE JANEIRO, 24de Janeiro 1903–Um documento oficial recebido aqui enviado de La Paz, Bolívia, confirma as informações de que o presidente Pando estava para deixar La Paz em direção ao Acre hoje, comandando uma segunda força militar expedicionária. O despacho informa ainda que o presidente Pando mandou prender o primeiro Vice-Presidente, Coronel Velasco, que se opunha à concessão do Acre feita ao Sindicato de investidores americanos, e delegou as responsabilidades da presidência, em sua ausência, ao segundo Vice-Presidente, Dr. Capriles.

[A decisão do presidente Juan Manuel Pando de comandar pessoalmente esta força expedicionária se devia às sucessivas derrotas militares das tropas bolivianas no conflito acreano. Depois da derrota em ‘Volta da Empresa (atual região onde se situa a cidade de Rio Branco), o último território em posse dos bolivianos era a cidade de Puerto Alonso (atual Plácido de Castro), que estava isolada de contatos com a Bolívia desde outubro de 1902. Um renovado ataque brasileiros iniciado em 15 de janeiro de 1903 resultou na captura de algumas posições bolivianas do entorno de Puerto Alonso. A rendição das tropas bolivianas em Puerto Alonso aconteceu no dia 24 de janeiro, o mesmo dia em que o presidente Pando marchou de La Paz em direção ao Acre.

É importante ressaltar que a decisão do presidente boliviano de assumir pessoalmente o comando das operações foi possivelmente incensada pelo representante diplimático americano em La Paz, que havia qualificado o levante dos brasileiros comandados por Plácido de Castro com um “ato de pirataria”, dirigido pelos políticos e especuladores de Manaus e executado pela “mais vil espécie de aventureiros e facínoras, com a assistência do governo do Brasil”].

Dados do artigo original: “A rebelião no Acre”, publicada pelo jornal The New York Times em 25 de janeiro de 1903.

O BRASIL TEM UM OLHO NO ACRE

Decidiu concentrar tropas em Estados adjacentes ao Acre – Uma declaração de sua posição.

PARIS, 25de Janeiro de 1903 – A delegação brasileira daqui emitiu uma declaração oficial do governo brasileiro em relação à disputa do Acre e a planejada expedição militar do presidente boliviano Juan Manuel Pando ao território acreano.

A declaração afirma que o contrato de cessão do Acre ao Bolivian Syndicate é, sob o ponto de vista legal, uma mostruosidade tendo em vista que permite a alienação parcial da soberania sobre o território para uma companhia estrangeira e que esta concessão é nula tendo em vista que envolve um território que no presente é objeto de disputa com o Peru.

A declaração afirma ainda que o Brasil deu uma interpretação liberal ao Tratado de 1867, buscando favorecer a Bolívia em seus anseios de comunicações facilitadas nos rios Amazonas e Paraguai. Entrentanto, considerando que a Bolívia alienou os direitos concedidos a ela sobre o território do Acre para um Sindicato estrangeiro, o Brasil passará a interpretar o tratado de forma mais estrita.

Depois de relembrar as várias propostas feitas para encerrar a disputa, a declaração oficial brasileira conclui: “Como a Bolívia recusou todas as propostas, e tendo o presidente Pando decidido marchar contra os brasileiros estabelecidos no Acre, o presidente do Brasil decidiu concentrar tropas nos estados vizinhos do Amazonas e Mato Grosso”.

[A razão desta forte declaração do governo brasileiro era intimidar os investidores do Bolivian Syndicate e governos nacionais que pensassem em dar apoio militar aos mesmosna questão do Acre. A ordem de mobilização de tropas federais em direção ao entorno do Acre foi real.

O presidente Rodrigues Alves ordenou aos ministros da Guerra e da Marinha a ocupação militar do Acre. Os militares, sob o comando do general Olímpio da Silveira, vindo pelo norte, e do general João César de Sampaio, vindo pelo sul, tinham como objetivo ocupar a região em litígio até o paralelo de 10° 20′, defender os brasileiros e manter a ordem. Simultaneamente, tropas vindas da Bahia e do Rio Grande do Sul foram despachadas para reforçar a fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Para Manaus se ordenou o movimento de tropas de Pernambuco, Alagoas e do Rio Grande do Sul.

Em 5 de fevereiro de 1903, sem saber que Plácido de Castro havia vencido o último bastião de resistência boliviana no Acre (Puerto Alonso) em 24 de janeiro, o governo brasileiroordenou o envio dos navios de guerra até Puerto Alonso – o encouraçado Floriano, o cruzador-torpedeiro Tupi e o caça-torpedeiro Gustavo Sampaio.

Sob o ponto de vista estratégico, a decisão do presidente boliviano de se dirigir ao Acre enquanto negociações para a solução do problema ainda estavam em curso era extremamente vantajosa para a Bolívia que, em teoria, estaria pronta para reocupar rapidamente o Acre com uma grande quantidade de tropas caso não concordasse com as proposições brasileiras.

A decisão do Brasil de mobilizar suas tropas foi a forma encontrada para anular essa vantagem boliviana e reforçar sua “bandeira” de que a solução para a questão do Acre deveria ser via negociação e não guerra aberta com a Bolívia].

Dados do artigo original: “Brazil has an eye on Acre”, publicada pelo jornal The New York Times em 26 de janeiro de 1903.

*Evandro Ferreira é pesquisador do
INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC

Assuntos desta notícia