A questão do Acre no The New York Times (Parte 14) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 14)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus pelo controle do Acre foram noticiadas pelo prestigiosojornal “The New York Times”. Sendo tão antigas e publicadas em inglês, resolvemos selecionar algumas delas, traduzir e publica-las em uma série de artigos em ‘A Gazeta’. Para ajudar no entendimento do contexto histórico, textos explicativos são colocados entre colchetes.

BRASIL INVADIU O ACRE

Tropas capturaram Puerto Alonso e fizeram 300 bolivianos prisioneiros.

RIO DE JANEIRO, 06 de Fevereiro 1903 – A disputa entre o Brasil e a Bolívia pelo Acre está ficando mais séria. Despachos recebidos aqui desde Manaus, no Rio Negro, um afluente do Amazonas, informam que tropas brasileiras sob o comando do Coronel Ibañez capturaram Puerto Alonso, no Acre, onde a Bolívia mantinha um posto de aduana. Os brasileiros tomaram 300 bolivianos prisioneiros, que foram enviados para Manaus onde foram liberados pelo Governador daquele Estado.

[Na verdade o Coronel Ibañez era boliviano. Segundo telegrama datado de 08 de fevereiro de 1903 enviado ao diplomata Assis Brasil, em Petrópolis, RJ, o Coronel Ibañez, o Coronel Conseco, o governador boliviano do Acre, Sr.Romero, e mais de 300 soldados foram enviados para Manaus. Os coroneis Conseco e Ibañez estavam feridos e receberam tratamento médico. Nas anotações de Assis Brasil, os prisioneiros bolivianos elogiaram o tratamento dado a eles por Plácido de Castro, que lhes prestou honras de guerrra e os tratou com humanidade].

A correspondência sobre o tema do Acre publicada aqui, consistindo de carta trocadas entre o Ministro do Exterior do Brasil para a Bolívia, indica que um oferta de mediação foi feita pelo Brasil para a Bolívia, mas o presidente boliviano, Juan Manuel Pando, declarou que a única forma de arbitragem para resolver a questão era marchando suas tropas para o Acre.

[O presidente Pando havia deixado La Paz no final de janeiro de 1903 liderando numerosa tropa de soldados com o objetivo de derrotar de uma vez por todas a revolta militar dos brasileiros residentes no Acre. Ele levou um mês para percorrer o trajeto La Paz-Riberalta e desta cidade ao povoado de Puerto Rico, localizado a cerca de 50 km da atual cidade de Capixaba. Especula-se que sua dura resposta aos diplomatas brasileiro foi enviada nasua passagem por Riberalta, a maior cidade da região na época].

Dados do artigo original: “Brazil Invades Acre”, publicada noThe New York Times em 07 de fevereiro de 1903.

ENTREVISTA COM ASSIS BRASIL, EMBAIXADOR BRASILEIRO NOS EUA

WHASINGTON, 08 de Fevereiro 1903 – A disputa pelo Acre causou grande interesse aqui e as notícias de que existe possibilidade de resolver a questão sem a ncessidade de uma guerra é extraordinariamente gratificante para todos os interessados.

Os bolivianos alegam que a posse do território nunca esteve em disputa e que sua soberania sobre o Acre foi reconhecida pelo Brasil pelo Tratado de 1867 (“Tratado de Ayacucho”), pela indicação de representação consular e outros atos. A concessão pela Bolívia para um sindicato anglo-americano explorar borracha no Acre foi o fato que transformou a posse do Acre em um problema. Por essa razão a Bolívia expressou interesse em levar a resolução para uma arbitragem.

Assis Brasil, o embaixador brasileiro para os EUA, que está nesta cidade, recebeu hoje um cabograma de seu governo confirmando um despacho anterior do Rio de Janeiro para a Associated Press relacionado com a disputa pelo território acreano na América do Sul.

[Joaquim Francisco de Assis Brasil (29/07/1857 – 24/12/1938) era gaucho de São Gabriel, a mesma cidade de nascimento de Plácido de Castro. Foi advogado, político, escritor e diplomata. Por sua experiência internacional foi designado como assessor especial do Barão do Rio Branco durante as negociações sobre o Acre. Em homenagem a sua atuação, um município acreano foi designado com o seu nome].

O ministro brasileiro disse ontem a noite: “Eu recebi hoje uma mensagem com orientações de meu governo relativa a questão do Acre. O governo brasileiro mandou um ultimato para a Bolívia em fevereiro informando que se a Bolívia tentar tomar posse do Acre, o Brasil irá ocupar o mesmo até que uma solução razoável para a questão seja alcançada”.

“Eu fui informado pelo cabograma recebido hoje do Ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio Branco, que, em resposta ao ultimato, a Bolívia concordou com a ocupação e a administração militar pelo Brasil do território disputado localizado a oeste do rio Iaco”.

[Assis Brasil deve ter se confundido – ou o repórter não o entendeu, pois se o Brasil tivesse concordado em ocupar apenas as terras localizadas a oeste do rio Iaco, estaria abdicando de todo o leste do Acre, a parte mais desenvolvida e urbanizada do território].

“O governo boliviano nos informou que está enviando ao Rio de Janeiro um representante com a missão especial de chegar a uma solução satisfatória via acordo bilateral ou submissão da disputa a uma arbitragem, como o Brasil já havia proposto alguns dias antes”.

“Porto Acre, o último ponto em território acreano em poder de tropas bolivianas foi capturada pelo revolucionários comandados por Plácido de Castro em 24 de janeiro. Fui informado que Castro foi proclamado Governador pelos revolucionários vitoriosos e está disposto a se submeter às autoridades brasileiras.Com a queda de Porto Acre não existem mais bolivianos no Acre e os 300 prisioneiros, incluindo o Governador Romero e os Coronéis Canseco e Ibañez, esses dois últimos feridos, foram enviados para a cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas. Eles chegaram lá bem e foram unânimes em reconhecer que foram tratados com bondade e humanidade. Este é o conteúdo do meu cabograma de hoje”.

“Eu diria que é quase certo que a Bolívia irá declarar nulo seu contrato com o sindicato anglo-americano relativo à cessão do território Acreano. A ocupação do território pelo Brasil e a anulação do contrato significa o fim da disputa que ameaçou resultar em sérias consequências.”

Assis Brasil foi questionado se o Brasil iria pagar indenização ao sindicato anglo-americano: “Isto não é uma questão que cabe ao Brasil” ele respondeu, “porque o contrato com este sindicato foi feito pela Bolívia e não pelo Brasil. Está claro que se for comprovado que o território não pertence à Bolívia, ela vendeu uma pele de urso antes de comprar uma. Sob nenhuma cirscunstância o Brasil tem qualquer coisa a ver com o sindicato, pois não negociou com o mesmo em qualquer forma”.

Dados do artigo original: “Entrevista com Assis Brasil”, publicada pelo jornal The New York Times em 09 de fevereiro de 1903.

Evandro Ferreira é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazönia (Inpa)-Acre e do Parque Zoobotânico  (PZ) da Universidade Federal do Acre (Ufac).

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