A questão do Acre no The New York Times (Parte 15) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 15)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus pelo controle do Acre foram noticiadas pelo prestigiosojornal “The New York Times”. Sendo tão antigas e publicadas em inglês, resolvemos selecionar algumas delas, traduzir e publica-las em uma série de artigos em ‘A Gazeta’. Para ajudar no entendimento do contexto histórico, textos explicativos são colocados entre colchetes.

BOLÍVIA DESISTE DO ACRE

Brazil ficará com o território até a solução da disputa.

Ministro Assis Brasil disse que a cessão para o sindicado de exploração de borracha anglo-americano será provavelmente anulado.

RIO DE JANEIRO,08de Fevereiro 1903 – O governo boliviano respondeu ao governo brasileiro concordando com a ocupação e a administração do território acreano até a resolução da disputae ofereceu enviar um ministro pleniponteciário ao Brasil investido de amplos poderes para negociar um acordo.

[Essa notícia obviamente não refletia o que acontecia no “campo de batalha” no Acre. O repórter provavelmente ouviu essa informação de diplomatas brasileiros – que haviam feito tal proposição ao governo boliviano, que rechacou de forma veemente por intermédio de seu presidente José Manuel Pando, que já estava a caminho do Acre para resolver a questão no campo de batalha. Pando tinha saído de La Paz no dia 28 de janeiro e iria estacionar suas tropas para ficar frente a frente com as tropas brasileiras lideradas por Plácido de Castro. Este havia adentrado o território boliviano e a batalha, se tivesse acontecido, teria se dado nas cercanias da vila boliviana de Puerto Rico, localizada a cerca de 60 km ao sul da atual cidade de Capixaba].

 [Enquanto os preparativos para a batalha eram feitos, as negociações diplomáticas seguiam em rítmo frenético. O Barão do Rio Branco havia optado em negociar uma saída diplomática, mas ao mesmo tempo, se preparava para uma eventual guerra em larga escala, tendo ordenado a mobilização de efetivos e equipamentos do exército e da marinha do Brasil para as fronteiras da Bolívia com o Mato Grosso e o Amazonas. No campo diplomático, sabedores que a autorização que o Bolivian Syndicate tinha para “tomar posse” do Acre iria caducar em 6 de março de 1903, e que até lá ele não teria condições de se organizar para tal, os diplomatas brasileiros passaram a negociar diretamente com os investidores do Bolivian Syndicateo pagamento de uma espécie de indenização para que desistissem de continuar com a empreitada. O pedido inicial dos investidores americanos e ingleses era de 1 milhão de libras, mas no fim o acordo foi firmado pela quantia de 100 mil libras. Embora pouco comentada, alguns diplomatas brasileiros foram críticos da decisão do Barão do Rio Branco de pagar 100 mil libras aos investidores do Bolivian Syndicate para desistirem de uma concessão que estava virtualmente caduca].

Dados do artigo original: “Bolivia gives up Acre”, publicada noThe New York Times em 09 de fevereiro de 1903.

PAZ NA DISPUTA PELO ACRE

Bolivia aceita sob protesto todas as demandas feitas pelo Brasil.

LA PAZ, BOLIVIA, 13de Fevereiro 1903 – Ontem a tarde o governo boliviano entregou sua resposta ao ultimato feito pelo ministro brasileiro, Senhor Santos Lisboa. A Bolívia aceitou incondicionalmente, mas sob protesto, todas as demandas feitas pelo governo brasileiro.

[Santos Lisboa referido na nota do New York Times era na verdade Eudardo Lisboa, o embaixador brasileiro na Bolívia por ocasião da disputa pelo Acre. Esse foi apenas um acordo inicial para evitar uma conflagração militar em maior escala. O acordo definitivo pelo qual a Bolívia concordou com a ocupação e administração militar do Acre por tropas brasileiras só foi firmado em 21 de março].

A expedição militar boliviana comandada pelo General Pando não irá cruzar a latitude de 10°20’, o limite sul do território em disputa. Portanto, é improvável que qualquer colisão entre tropas bolivianas e brasileiras venha a acontecer.

[Esse acordo preliminar impediu a escalada do conflito e muito provavelmente evitou uma derrota de Plácido de Castro e sua tropa de seringueiros armadas apenas com rifles frente a cerca de 700 soldados bolivianos muito melhor equipados e comandados].

Se especula por aqui que os revoltosos brasileiros provavelmente irão depor as armas imediatamente para os integrantes do exército brasileiro.

[Isso aconteceu tão logo as tropas do exército brasileiro chegaram ao Acre. O exército de Plácido de Castro depôs as armas e foi desmobilizado].

Dados do artigo original: “Paz na Disputa pelo Acre”, publicada pelo jornal The New York Times em 14 de fevereiro de 1903.

 

Evandro Ferreira é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazönia (Inpa)-Acre e do Parque Zoobotânico  (PZ) da Universidade Federal do Acre (Ufac).

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