A questão do Acre no The New York Times (Parte 16) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 16)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus pelo controle do Acre foram noticiadas pelo prestigioso jornal “The New York Times”. Sendo antigas e publicadas em inglês, resolvemos selecionar algumas delas, traduzir e publica-las em uma série de artigos em ‘A Gazeta’. Para ajudar no entendimento do contexto histórico, textos explicativos são colocados entre colchetes.

NOVAS DEMANDAS DO BRASIL

Bolívia informou que a força vai ser empregada se parte do território acreano não for cedido.

WASHINGTON, 28 de Fevereiro 1903 – Um jornal local publicará amanhã informação recebida via telégrafo de fonte confiável que o Brasil fez novas demandas à Bolívia para a cessão do território acreano.

Não satisfeito com a concordância da Bolívia para a ocupação militar temporária de parte do território acreano até a determinação de sua posse pela Corte Internacional de Haia, o jornal informará que o Brasil demandou a posse de uma nova faixa de terra edquivalente a uma área de 34.440 milhas quadradas.

[A Bolívia tinha concordado incondicionalmente, no dia 12 de fevereiro, com uma proposta inicial feita pelo governo brasileiro – na verdade um ultimato entregue pelo embaixador brasileiro em La Paz – para permitir que o Brasil ocupasse militarmente e administrasse o Acre até a resolução definitiva da disputa. Por esse acordo tropas bolivianas não poderia ultrapassar a latitude 10°20’S. Na prática restava aos bolivianos administrar uma estreita faixa de terra acreana que incluía as cidades de Xapuri, Brasileia e a vila que deu origem a Assis Brasil. Essa fronteira provisória era uma linha reta que partia desde a atual cidade de Plácido de Castro e seguindo em direção Oeste, cortando o trecho onde hoje existe a rodovia BR-317 na altura do km 15 km após o posto policial do entroncamento da BR-317 e da rodovia AC-40 (para Plácido de Castro). A reivindicação brasileira de 34.440 milhas quadradas do território acreano equivale a 89.200 km², ou seja, à parte do Acre situada acima do paralelo 10°20’S].

O governo boliviano foi informado de que se a ocupação não for permitida, uma força militar brasileira será enviada para assegurar a posse do território. Em apoio às suas demandas o governo brasileiro estacionou um grupo de 15 soldados no rio Acre.

O que a Bolívia fará com relação a essa nova demanda ainda não se sabe. Não apenas a Bolívia e o Brasil estarão envolvidos, mas o Peru, que revelou interesse sobre parte do território acreano, provavelmente insistirá para que seus direitos sejam assegurados.

[O Peru, na verdade, não tinha interesse legítimo no território acreano visto que a fronteira entre o Acre e o território peruano – mesmo durante o domínio boliviano – eram áreas de divisores de água, com exceção das regiões do alto rio Purus e Juruá, onde ainda havia algumas dúvidas (a do alto Purus foi sanada com a expedição de Euclides da Cunha, realizada entre 1904 e 1905). Vendo a fragilidade da Bolívia na disputa com o Brasil e sabendo da ocupação modesta do Brasil na parte oeste do Acre, o governo peruano passou a reivindicar e ocupar militarmente vastas áreas do alto Purus e Juruá. Essa ação resultou, anos mais tarde, em um breve e pouco intenso conflito armado entre o Brasil e o Peru pela posse dessas terras].

Dados do artigo original: “Fresh demand from Brazil”, publicada no The New York Times em 01 de março de 1903.

BATALHAS IMINENTES NO ACRE

Tropas bolivianas estão marchando em direção ao território disputado para enfrentar os brasileiros

RIO DE JANEIRO, 18 de abril 1903 – O General Pando, presidente da Bolívia, deixou recentemente a cidade de Riberalta, na fronteira com o Acre, liderando um contingente de 500 homens e marchou em direção ao território acreano, cuja posse é disputada entre o Brasil e a Bolívia.

[Essa notícia era intempestiva tendo em vista que o acordo definitivo pelo qual a Bolívia concordou que o Brasil ocupasse e administrasse o Acre até a resolução do conflito havia sido assinado em 21 de março. Obviamente que em razão das dificuldades de comunicação da época, erros desse tipo poderiam acontecer].

Um emissário brasileiro deixou Riberalta para alertar os brasileiros. Os bolivianos, cujas tropas avançadas encontram-se em Empresa, foram notificados pelo comandante brasileiro para não avançar além da margem direita do rio Abunã.

[Também aqui existe equívoco na reportagem visto que Empresa – atual cidade de Rio Branco – estava sob controle das tropas de Plácido de Castro desde o final de 1902].

O Coronel Montes, Ministro Boliviano da Guerra, com 500 soldados bolivianos, está nas cercanias do vilarejo de Porvir, ao norte da cidade de Riberalta, marchando em direção ao rio Orton, que está situado em território acreano.

[O equívoco aqui se refere ao nome e à localização do vilarejo onde as tropas bolivianas ficaram estacionadas. A reportagem cita Porvir, localizado ao norte de Riberalta. Na verdade, o nome do vilarejo boliviano onde as tropas desse país estacionaram prontas para atacar os brasileiros, era Puerto Rico, localizado na junção dos rios Manuripe e Tahuamanu, a cerca de 50 km ao sul da atual cidade de Capixaba].

O Coronel Plácido de Castro, comandando uma tropa de aproximadamente 1.500 homens, inciou ações para prevenir a entrada do Coronel Montes no território disputado. É possível que brasileiros e bolivianos já tenham entrado em contato. [Este confronto, felizmente, nunca aconteceu].

Dados do artigo original: “Battles imminent in Acre”, publicada pelo jornal The New York Times em 14 de fevereiro de 1903.

 

Evandro Ferreira é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazönia (Inpa)-Acre e do Parque Zoobotânico  (PZ) da Universidade Federal do Acre (Ufac).

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