Alguma vaidade; orgulho comedido – Jornal A Gazeta

Alguma vaidade; orgulho comedido

Escorreguei o corpo suado doído e dormi por sobre as raízes da vaidade. É árvore frondosa e bela, travesseiro muito duro, posto que exige de todos e de cada um sempre e muitos dispêndios materiais, além daqueles que se relacionam à alma. Passaram-se horas a fio. Anos foram engolidos pela poeira do tempo. Não lembro sequer de haver despertado ainda hoje. Como nas palavras do poeta, deitei e hibernei em berço tosco esplêndido elaborado a partir da madeira rústica.

Adianto que não sou orgulhoso. Sou simples até demais na minha vaidade pequeno burguesa. Um humano bem trivial, leve, solidário, às vezes bem magnânimo, com algum sal e uma pitada de pimenta do reino ou malagueta bem ao gosto da freguesa.

Estou entre o macho alfa e o metrossexual, posto que não faço limpeza de pele e muito menos lipoaspiração, como o segundo. Da mesma forma que o primeiro, compreendo as vicissitudes femininas e cedo-lhes carinho a bom preço ou quase de graça. Elas são veneráveis, todas.

Viajei em sonhos de criança, como os demais. Fui por mundos nunca dantes viajados. Vivi a ternura dos tempos juvenis. Tornei-me um louco com prazo determinado e vencido antes da data de validade. Senti nuvens de fumaça invadirem o nariz e o meu mundo entranhado dentro de mim. Avancei um tanto nos anos de vida. Hoje, penso melhor e afirmo que a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas enquanto sinônimas. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. A Jane Austen deixou registrado, em algum lugar, algo parecido com um aforismo segundo o qual o orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós. Sou assim. Você também é, minha querida Maria Divina.

Foi daí que a moça da janela fez crítica velada em frase simples, modelar e moderninha:

– Ele se acha!

Um dia, então, ganhei músculos que se foram avolumando. Entrara para a academia de musculação com a finalidade de ficar bonito. Não demorou muito e, enfim, consegui. Depois, só bem depois, os objetivos se fizeram outros e um tanto diferenciados. Hoje, já não quero ter beleza apenas. Quero sobreviver. Desejo ir escapando, de mansinho e como quem não quer nada, pelo menos por alguns anos além da cota que me permitirá a natureza viver.

Dia desses, lá, fiz uma observação bem à minha moda. É que eu passo toda a semana malhando o corpo com o intuito de perder a barriga. Sexta, à noite, já penso diferente. Sábado, então, me dá uma saudade aguda da dita cuja pança que ficou nas sombras da academia às escuras. Penso em recuperá-la. Vou à luta, mas nunca a recupero por completo. Ingiro dúzias da bebida retirada da cevada. Esta se faz aliada de petiscos e acepipes de toda ordem. Mesmo assim, o tanquinho também não aparece, o que dá na mesma. O bendito calo andrógino libertino devasso sexual libidinoso nem vai, nem fica. Veja como são as coisas!

Disse-me a Isadora que, para ela, a academia é uma igreja onde o culto é celebrado em louvação ao corpo. Penso quase assim. Um tantão mais pra mais, que pra menos, posto que, lá, corpos esbeltos de belas representantes do belo sexo desfilam e me fazem lembrar do quão magnífica é a natureza cuja obra maior é ter feito mulheres tão perfeitas. Sim, elas são dignas dos melhores renoirs oupicassos desta vida repleta de mais traços e mais rabiscos de eterna sensualidade. Coisa de Deus!

Um hábito puxa um outro. Uma mania simples beija a face de um costume e todos saem de mãos dadas por aí afora.

Daí que já me brotavam alguns fios brancos a me desenfeitar a cabeça. Não os tolerei. Nem os tolero. Então, cometi o primeiro pecado e acrescentei ao culto do corpo a obrigação de passar uma tinta nos cabelos a cada quinzena. Passei a andar de cabelos tingidos com a finalidade de dizer a idade que não tenho. Então, algo me disse que a cabeleira estava tão negra como a aza da graúna, numa alusão ao Alencar. Por isto, hoje uso uma espécie de tintura e shampoo chique que me deixa o cabelo entre o azul escuro, o cinza e o prata perolado. Te mete!

Fui por aí meio folgazão por esta vida afora. Agora, então, acrescentei mais um pequeno crime contra a mãe natureza. Passei a adotar os miraculosos cremes faciais que dizem retardar as rugas. Nada. Uso apenas protetor solar porque a pele do rosto é fina demais. Trata-se, verdadeiramente, do grande remédio contra os danos que a idade nos prega mesmo no meio do semblante físico já um tanto castigado.

Com relação às unhas, o cuidado das tais fica por conta dessa partner e namorada que me acompanha por estes ditosos dias.

Entre uma coisa e outra, passei a adotar um vestuário bem em conformidade com os ditames da tal moda. Entendo pouco de boutiques e tudo o que compro segue os conselhos de algumas itinerantes muito cheias de ideias, palavras, sotaques e trejeitos – tagarelas mesmo! – que vão dizendo coisas do tipo:

– Aquela camisa de malha e mangas longas veste muito bem. Acho que essa calça de pernas estreitas tem um caimento perfeito. O modelo está sendo muito usado em Milão. Camisas de tecido, também de mangas longas e dobradas até acima de cotovelo dão um toque bem despojado, isto, se forem aliadas a tênis brancos sempre bem limpos.

Tenho, sim, aprendido a arte de ser vaidoso quase por completo.

Certo é que todo este conjunto de atitudes e manias acima descritas me fazem jovial, dão à minha fisionomia e ao conjunto geral da obra algumas características que levam muitos a dizerem que ainda não passo das quarenta voltas. É mole?!

Mas daí é que vem um único fator negativo no ser vaidoso. Percebo que, no trabalho, algumas pessoas simplesmente dizem que, pela cara sem rugas, a silhueta do corpo um tanto esbelto e pelos cabelos tingidos, eu não tenho a idade que digo, não estou cansado de trabalhar e que sou mais ou menos um desocupado a mais a contar as estrelas de um céu inexistente. Só que poucos são aqueles que observam que as rotinas diárias já me levam à exaustão e, à noite, o físico pede uma atitude relax e a alma fica sorridente, meio sem querer e já querendo ir por aí dar um giro por estas praças e bares da vida divertida e cheia de prazeres inomináveis.

Não sou adepto da clara de ovo e muito menos da batata doce. Já nem gosto de músculos protuberantes. Não preciso deles. Aprecio bem mais a tapioca. Os suplementos alimentares têm um quê de fantasiosos ou, quem sabe, venenosos. O tempo o dirá.

Voltaire, um pensador francês do século dezoito, uma vez me disse alguma coisa segundo a qual Deus concedeu-nos o dom de viver; compete-nos apenas buscar viver bem.

É o que tenho feito.

 

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO  Escritor. Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, à venda nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero; ou pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro >

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