ARTIGO: Com que salto eu vou? – Jornal A Gazeta

ARTIGO: Com que salto eu vou?

Enquanto me vestia para trabalhar, percebi o quanto o feminismo contribuiu para a minha libertação social. Quando meus hormônios entram em ebulição tudo muda, meu paladar, meu olfato, tato, todos os sentidos, mas algo fica mais aguçado: os sentimentos. Esses ficam à flor da pele. Então desenvolvi a técnica de me arrumar para mim, de me sentir bonita a ponto de olhar no espelho e esboçar, naturalmente: “que gata!”.

Selecionei uma peça pouco usada, que me deixaria elegante e confortável, e quem sabe mais confiante, já que a TPM (tensão pré-menstrual) muito me fragiliza. Foi então que surgiu a seguinte dúvida: mas que salto devo usar? Pernas cansadas, pés doloridos por conta da retenção de líquido, que é natural nesse período, e mesmo assim eu me questionava sobre a cor e a altura do salto alto que combinaria com o meu “look do dia”.

Em outras épocas, eu optaria pelo salto mais confortável possível e, provavelmente, passaria o dia reclamando de dor. Mas hoje, ah, hoje eu decidi calçar um tênis.

Mas você pode estar se perguntando: afinal o que o look do dia tem a ver com feminismo? Parece bobo, mas toda mulher sabe o que significa desafiar convenções. Quando optei por um tênis e não um salto, mesmo apostando em roupa elegante e nada despojada, sim, eu rompi padrões estabelecidos há séculos no universo feminino.

Cresci e vivo em uma sociedade machista, em que mulheres são cobradas por seus comportamentos, “devem” estar sempre alinhadas, adotando hábitos e vestimentas “decentes”, afinal de contas, um em cada três brasileiros acredita que, em caso de estupro, a culpa é da mulher (Datafolha/2016).

Em tempos de desemprego, se quisermos disputar vagas com homens, também precisamos nutrir “boa aparência”, ficar de olho na balança – afinal o “padrão Barbie” ainda é o mais esperado –, usar cremes antirrugas, pois a velhice é coisa de mulher “desleixada” e ser inteligentes o suficiente para ocupar o mesmo cargo que um homem, ainda que ganhando menos.

Apesar de termos, em geral, escolaridade mais elevada que eles, somos a minoria no comando de empresas, é o que aponta uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira, 7, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de mulheres ocupando cargos de chefia caiu de 39%, em 2015, para 37,8% em 2016. Enquanto eles subiram de 61% para 62,2%. Mas mesmo assim, resolvi sair com o meu tênis.

Atenta a fatos dessa natureza, despertei para a pertinência do feminismo. E a minha feminilidade, vai, agora, muito além de um salto, um batom, uma roupa… Vem de dentro. E esse é um processo de revolução íntimo extraordinário. O que eu projeto para o mundo, aos poucos, já não é mais o que ele quer ver, mas o que eu quero mostrar. E foi o tênis que me despertou para essa quebra de paradigma.

A história mostra como a sociedade impõe padrões comportamentais às mulheres, até na concepção da moda, mesmo que para isso percam sua identidade e tenham utilizado peças desconfortáveis, como os espartilhos, chapéus espalhafatosos e vestidos volumosos. Para a nossa sorte, ícones feministas, como Coco Chanel, revolucionaram esse universo. Em 1910, ela criou peças confortáveis e leves (calças e saias curtas), sem comprometer a elegância da mulher.

Vestir uma calça hoje parece normal, mas naquela época foi ato de coragem e revolução. Apesar disso e de tantos outros movimentos feministas, que nos proporcionaram mais autonomia, ainda nos deparamos com a dúvida: com que salto eu vou?

*Maria Meirelles é jornalista e ativista do Movimento de Mulheres do Acre

 

 

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