ARTIGO: O sim para a doação é o renascer de outra vida – Jornal A Gazeta

ARTIGO: O sim para a doação é o renascer de outra vida

É comum ouvir por aí que o Acre é pequeno, mas enjoado. Na verdade, creio que o Acre e seu povo – e isso inclui quem escolheu essas terras como seu lar – são mais que enjoados, são aguerridos e determinados.

Há no povo das terras de Galvez muito orgulho por cada conquista que se alcança.

Porque quem vive aqui sabe das dificuldades que se enfrenta por este ser um dos menores Estados da federação, por estar geograficamente longe das metrópoles e ter as dificuldades típicas de uma região localizada em plena floresta Amazônica.

Mas, nada impede esse povo de trabalhar, seguir em frente, vencer desafios e ter o empenho reconhecido como ocorreu nesta semana, no qual números divulgados pela Associação Brasileira de Transplantes (ABTO) apontam o Acre como o 5º Estado que mais fez transplantes de fígado no Brasil e o único da Região Norte a realizar esse tipo de procedimento, ficando a frente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, regiões com PIB maior e que recebem mais repasses do Sistema Único de Saúde (SUS).

Sim, o Acre é um dos estados com maior índice de transplantes de fígado e temos que celebrar isso. E vale registrar que isso parte sim de uma decisão política, da ousadia e vontade de realizar, e até por ser médico, nessa política pública Tião Viana pensou grande e junto a toda essa equipe, conseguiu realizar esse feito. Mas, além de um dado positivo de saúde pública, esse é um indicador que fala de amor, humanismo e vida!

Para cada órgão que a equipe da Central de Transplante capta, conseguindo fazer chegar a tempo ao centro cirúrgico com suporte da equipe de excelência do Hospital das Clínicas e realizar a cirurgia, reacende a esperança de famílias e amigos de um paciente que estava numa fila na luta pela vida. É uma corrida contra o tempo, onde cada segundo vale ouro e representa um novo pulsar de corações.

Já experimentei essa angústia de ter um familiar aguardando transplante, há uns 15 anos. Naquela época, ainda não tínhamos avançando nessa área. Os índices de pacientes com Hepatite B eram altos na região e esse parente era um deles.

A pessoa precisou viajar para São Paulo e o transplante seria entre vivos. Ou seja, ela era compatível com outro familiar que doaria parte do fígado, tendo em vista que trata-se de um órgão que se regenera. Foram semanas de angústia. Infelizmente, ela não pode esperar pelo transplante e faleceu antes.

Estar longe, naquele momento, foi uma dos maiores sofrimentos enfrentados pela família. Não pudemos nos despedir de alguém que era tão amada por seus familiares e amigos.

Já como jornalista, também ouvi relatos da dificuldade de quem conseguiu o transplante, mas precisou passar anos indo para São Paulo nos retornos de acompanhamento, como foi o caso do ex-jogador de futebol, Álvaro Ithamar de Melo, o Curu.

Curu inclusive é um dos pacientes mais antigos de Tércio Genzini, médico do Grupo Hepático em São Paulo, e um dos responsáveis pelo sucesso e eficácia dos transplantes de fígado realizados no Acre.

Mesmo sem passar pelo procedimento no Acre, Curu recebe assistência do Serviço de Atendimento Especializado (SAE) que repassa ao transplantado a medicação da qual ele faz uso após a cirurgia e a negativação da Hepatite C.

Além do transplante de fígado, o Estado também realiza transplantes de rim e córnea. Até o momento, a Secretaria de Saúde informa que já tivemos 88 de rim e 200 de córnea.

Com os avanços conquistados na melhoria da estruturação física e investimentos na qualificação do corpo clínico da saúde pública, os pacientes não precisam passar pela angústia de estar longe dos familiares ao buscar um transplante de fígado, córneas ou rim.

O processo todo é realizado na rede pública, com suporte necessário para garantir a integridade do paciente.

É evidente que passar por uma recuperação cirúrgica perto de quem se ama torna o processo menos tortuoso, ajudando na recuperação. Tanto para quem está com o órgão transplantado, quanto para seus familiares.

Há ainda que se ressaltar e, acima de tudo, elogiar e agradecer pelo trabalho que a equipe da Central de Transplantes realiza ao captar órgãos para doação.

Não é fácil lidar com o luto de quem está sofrendo a dor pela perda de um ente querido. Mas é de extremo humanismo lutar para salvar outras vidas e, por isso, é fundamental que esse trabalho seja feito.

A equipe respeita toda dor de quem perdeu seu ente querido. Leva conforto e também esperanças. Doar é um ato de amor extremo para com seu semelhante.

O sim para a doação é o renascer de outra vida.

É certo que quando se fala em serviços de saúde sempre há o que avançar e melhorar. Mas, o Acre tem que se orgulhar por ser o único Estado na Região Norte a fazer transplantes de fígado e, por conquistar o quinto lugar no ranking da Associação Brasileira de Transplantes.

* Nayanne Santana é jornalista.

 

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