Catástrofe e Solidariedade – Jornal A Gazeta

Catástrofe e Solidariedade

“Saltou aos olhos a solidariedade espontânea e comovente, numa união quase associativa, dos que foram diretamente afetados pela tragédia.”

A recente catástrofe, ocorrida no Morro da Boa Esperança, em Piratininga/ Niterói, com mais de uma dezena de vítimas fatais e famílias desabrigadas, mostrou que a solidariedade, na forma de relação social unida por interesses comuns, ainda se faz presente nos corações de muitas pessoas. A catástrofe despertou a solidariedade de todos, sobremodo dos que estavam mais perto, presenciando  in loco as agruras do próximo.

 Saltou aos olhos  a solidariedade espontânea e comovente, numa união quase associativa, dos que foram diretamente afetados pela tragédia. Foi uma comoção geral de solidariedade física, espiritual e psicológica de uns para com os outros, alguns sepultaram seus próprios mortos. Solidariedade que sobrepujou a  fraternidade universal e se particularizou na “ternura parentesca” como se todos fossem da mesma família, do mesmo sangue.

Admirável igualmente, num mundo de homens extremamentes egoístas, foi constatar que em meio a tanta desgraça, sobejou entre os inditosos grande benevolência; tanta bondade contrastando com tão pouca justiça. Provavelmente porque a bondade é resultado dum altruísmo expontaneo, e a justiça depende de raciocínio e julgamento. Essa surpreendente boa ação, em detrimento da justiça, se assemelha a doçura do coração de uma mãe por seu próprio filho, na maioria das vezes, é universal, as mulheres mães são, em relação a seus filhos infelizes,  menos justas e abundam em boas ações.

O sofrimento foi  grande, mas a oportuna solidariedade suscita esperança, nos filhos do Morro da Esperança,  de que nem tudo está  acabado. Mesmo com a repentina perda, principalmente de forma trágica como foi o caso dessas famílias que viram anos de trabalho ser arrastados em poucos minutos pela violência das águas em grande volume e velocidade levando tudo e a todos de roldão, trazendo destruição e morte. Mesmo com tamanha dor de se verem tolhidos e privados da casa e do lugar ou qualquer outro bem de consumo; até mesmo dos animais de estimação; e; sobretudo da pessoa amada que se foi de forma repentina e trágica.

Dentre as muitas lições, que essa desgraça pública deixou posso pontuar, além das impressões acima, uma outra de igual valor: A constatação de que a maior força na face terra, ainda é a força de vontade de homens e mulheres de bem. Essa força, quando vem à tona, nos  remete para o plano da comunidade universal, para a perspectiva de uma cidadania cosmopolita. É o agir considerando a humanidade em si mesmo e na pessoa dos demais, nunca como meio, mas sempre como fim em si mesmo, implica estabelecer outra forma de relação com os seres humanos e com a natureza. Aí não pode haver espaço para a instrumentalização. Este ideal de uma civilização cosmopolita permite que os seres humanos possam se sentir e se tratar como membros de uma só comunidade, não apenas pelo estreitamento das relações interpessoais, quanto pelo fato de compartilharem uma causa comum. Compartilhar a mesma condição, reconhecer em si e nos demais a mesma dignidade, enfim, sentir-se no mundo como co-habitantes da mesma possibilidade e neceessidade.

Francisco Assis dos Santos é humanista.

E-mail: assisprof@yahoo.com.br

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