Como se ele fosse sogra de alguém – Jornal A Gazeta

Como se ele fosse sogra de alguém

            O papel da filosofia é ensinar a viver e conviver. É preciso respeitar as diferenças entre todos e dar oportunidades a quem quer que seja. Mas o aprendiz de tudo não é filósofo, porque ainda não chegou à oitava década, numa referência aos escritos de Platão. Dele dizem ser apenas um homem sexy – de sexagenário – com cara de vinte e cinco anos. Ora, pois-pois.

Segundo o anotador de tudo, alguma vez na vida alguém já detestou aquela matrona poderosa, criatura irrequieta, prepotente, esnobe e mimada nos seus setenta anos. A heroína aqui falsamente festejada lembra muito bem a Jane Fonda em A Sogra, visto sempre querer ser a última tapioca do bornal.

Para ela, o filho bastardo, inglório e único é um quindim. Não foi mimado, muito pelo contrário. Viveu vida de cachorrinho vira-lata, enquanto a mãe troteava e atravessava a fase do sexo a três por vinte e quatro. O moço cresceu, estudou, se fez médico muito conceituado, às expensas do pai, e casou rapidamente para sair de debaixo das asas da perua doida.

Ela – bonita nas primeiras épocas na zona – herdou de um amante um apartamento razoável que logo transformou num ninho de pulgas. Se fez cartomante e quiromante. Hoje vive sozinha feito uma hiena. Bota carta, joga búzio, benze contra mal olhado e reza braba e, ainda, devolve o marido de qualquer candidato ou candidata na base do feitiço. O filho é o arrimo principal. Carrega na cabeça o infortúnio de não haver conseguido enganar homem qualquer, ou levá-lo para o cadafalso. (Leia-se altar-mor.) Segundo a dita cuja, até um borra botas lhe serviria, ou um violento porteiro de cabaré, como o que lhe brindava todas as noites com um uísque tão falso quanto ela própria, estilo rebenta goela, lavareda ou mata serpente.

O bom menino casou aos vinte e três, ainda quando concluía os estudos. Foi morar distante da mãe, na Rua das Anêmonas, a pedido da esposinha também médica. Como é natural e em vista da perda total de clientes, a velha passou a viver a vida do casal, apesar da distância. Pense numa criatura intrometida.

Na primeira semana depois de nascido o neto, ela quis se aboletar nos domínios da nora, no que foi prontamente repelida pelo casal. Mas não se deu por vencida e entrava e saía da vivenda quando bem entendia. Não telefonava antes. Em completo desrespeito ao filho e à criança, fazia ligações antes das oito e depois das vinte e duas, o que é um tremendo inconveniente em casa com recém-nascidos. Não havia freio.

 A todas as sogras é preciso observar a preferência para as visitas no período do dia, pois a noite é a hora do jantar, do banho e do sono e, com certeza, uma intrusa balofa e desordeira, neste horário, irá atrapalhar toda a rotina do bebê.

Realmente, a perua em tela não tinha o mínimo traquejo para ser mãe, em vista de todas as nuances que pontuaram uma vida levada entre gemidos, fungados, suspiros e soluços.

Na boa. Qualquer sogra, por mais perna de pau que seja, percebe, imediatamente, que é muito conveniente ligar antes da visita, para ver se estão precisando de algo como fraldas, comidinhas ou qualquer outra coisa do gênero. É de bom alvitre visitar a casa do filho não apenas, exclusivamente, para ver o neto. Um pouquinho de sensibilidade leva a perceber que ir com as mãos abanando é abundantemente ridículo.

O aprendiz de feiticeiro ainda hoje lembra com saudades o tempo em que a mãe – dele – arrumava, carinhosamente, a residência para receber a visita dos netinhos. Era no tempo do encerar a casa. Fora os quitutes, os brinquedos novos de madeira, feitos pelo vovô, e o balanço no quintal varrido ou atapetado com flores de jambeiro.

Ela dizia quase aos gritos, para ser ouvida pelas crianças:

– Quanto mais aconchegante a casa da vovó estiver, maior será a vontade das crianças de lhe fazerem uma visita. Tenho brinquedos, berço, comidinhas para os pimpolhos, dentre outros mimos. Toda mãe gosta de ver os seus filhos bem recebidos e é papel dos avós tornar os netos mimados. Afinal, são eles os tais filhos com açúcar.

E o vovô ajudava com mais ponderações:

– Quando temos a oportunidade de tomar conta dos nossos netos, fazemos questão de dar cem por cento de atenção para eles. As mamães – principalmente as de primeira viagem – ficam bem inseguras em deixar os filhos sob os cuidados de outras pessoas. Então transmita segurança. Deixe que ela perceba que pode contar com você. Devolva o neto limpinho, preocupe-se com os horários corretos da rotina dele, tenha atenção absoluta quando ele estiver brincando. Dedique-se integralmente aos pequenos, enquanto estiverem sob a sua responsabilidade.

Diocleide é o nome da vovó cara de pau. É mais conhecida como Dió, simplesmente. Ela não respeita a rotina e os hábitos do neto. E vai além, muito além, ao interferir na educação que a nora quer transmitir. Sem qualquer base mais consistente, ela dá pitaco na forma de criação levada a efeito por um casal de pediatras. Não respeita os horários estipulados e, principalmente, a alimentação. Em vinte minutos, no parquinho, a sós com o neto, ela empanturrou a criança com picolés, chocolates e bananas fritas, apesar das recomendações dos pais. Além de insistir, a velha ainda julga.

Pior foi que, sorrateiramente, como que pra prejudicar mesmo, a Dió arrancou informações da baby sitter que tem folga aos domingos. É costumeiro algumas sogras fazerem isso. Elas não percebem que, independentemente do assunto, a babá contará tudo para a nora, por mais discreta que tenha sido a pergunta.

Em conversa de pé de orelha com uma especialista no assunto, a aqui denominada bonequinha de porcelana, psicóloga infantil e passista de escolas de samba, o aprendiz de feiticeiro obteve informações bem arrazoadas, se bem que na informalidade:

– É conveniente dar um tempo para que a família do filho possa sentir falta da avó. Por mais legal que seja a relação entre sogras, noras e netos, ninguém gosta de visitas constantes. É necessário usar o bom senso, esse artigo tão raro para muitas. É preciso dar espaço para não se tornar uma intrusa no dia a dia da família. Toda mãe já foi mãe de primeira viagem e, com certeza, cometeu erros. Deixe a sua nora errar e aprender com os erros dela. É inconveniente a interferência da sogra em todos os assuntos. É cortês estar pronta para prestar uma ajuda sempre que for solicitado. Caso contrário, contenha-se. Fique na sua. Não meta o focinho na toca dos outros. Cuidado com os dentes e as unhas da onça com ciúmes dos filhotes. Não enfie a colher num angu que não é seu. Pronto. Falei.

Que Deus vos perdoe por esses toscos arrotos filosóficos. Vós não sabeis exatamente o que falais. Coração dos outros é terra em que jabuti não anda. Nenhum de vós jamais podereis saber a quantas jardas salta o coração de uma velha senhora, principalmente, quando esta está a desempenhar, no teatro desta vida, o difícil papel de sogra.

 

*Escritor. Membro da Academia Acreana de Letras, Cadeira 27. Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, disponível pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro 

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