Coronavírus e o ocaso dos políticos fanfarrões – Jornal A Gazeta

Coronavírus e o ocaso dos políticos fanfarrões

Você atacou a ciência nos últimos quatro anos, cortou verbas, chamou os cientistas de mentirosos e agora quer velocidade? Ciência não se faz da noite para o dia, precisa de investimento e, sobretudo para uma vacina, precisa-se de tempo e investimento. Você não pode atacar os cientistas quando não gosta da ciência e cobra-los quando resolve que gosta e precisa deles”.

Essa foi a resposta que Herbert Holden Thorp, pesquisador químico e editor da conceituadíssima e centenária revista científica “Science”, deu – em editorial publicado em 13/03 – ao presidente americano Donald Trump que relatou ter pedido em 02/03 aos representantes das maiores companhias farmacêuticas do país (Pfizer, Johnson & Johnson e outras) o seguinte: “Faça-me um favor, acelere, acelere”. Ele se referia à pressa para ter disponível uma vacina capaz de deter a epidemia de coronavírus em solo americano.

A razão do embate é que, na visão de parte da comunidade científica americana, o governo Trump está cometendo os mesmos erros da China quando tentou censurar e punir um médico que havia alertar sobre a real extensão do perigo que o coronavírus representava para a população daquele país.

Segundo o editor da revista Science, o governo americano está tentando fazer o mesmo com pesquisadores ligados a instituições e agências federais de pesquisa do país, dizendo que eles só poderão comentar publicamente sobre a crise de coronavírus depois de consultar o vice-presidente americano Mike Pence.

O governo Trump está tentando “aplacar” um possível pânico popular quando ficar claro que o prazo necessário para o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus é de mais ou menos 18 meses. Isso já foi dito por Anthony Fauci, veterano diretor do “Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas” dos Estados Unidos e por Francis Collins, diretor do “Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos”. Trump também ouviu a mesma mensagem dos representantes das indústrias farmacêuticas com quem se reuniu.

As críticas ao presidente americano não têm como pano de fundo apenas a crise atual do coronavírus e o desenvolvimento rápido de uma vacina. Acontece que ele, conhecido por seu deboche e desprezo sobre alguns temas caros à comunidade científica americana e mundial, não tem, como se diz no Brasil, “moral” para exigir que a ciência atenda aos seus caprichos na velocidade que ele deseja.

A questão não é nem a impossibilidade técnica e científica de produzir uma vacina em poucos meses. Nem a “birra” que a comunidade científica tem com o fato de Trump não acreditar na teoria da evolução, dizer que o aquecimento global é uma ficção e que fumar não causa problemas de saúde.

A principal razão do descrédito do presidente americano junto à comunidade científica decorre do fato de que três anos atrás, no início de seu governo, ele ter declarado publicamente seu ceticismo e desconfiança em relação às vacinas. Até tentou lançar uma força-tarefa antivacina nos Estados Unidos. Como explicar essa súbita mudança que o levou, de uma hora para outra a “amar” as vacinas?

Em momentos de crise como a causada pelo coronavírus, as principais lideranças políticas dos países afetados – presidentes, primeiros ministros – tem que ter sapiência, visão e um bom grupo de conselheiros para traçar estratégias eficientes que permitam enfrentar e sair da crise com a menor quantidade de danos possíveis para a saúde da população e a economia do país.

Trump é, definitivamente, um ponto fora da curva nesse aspecto, pois até poucas semanas atrás desdenhou da gravidade da situação e sugeriu que seus rivais políticos estavam exagerando a gravidade da crise para impedir sua reeleição em novembro.

Por conta disso, o governo americano demorou semanas cruciais para iniciar os testes dos casos suspeitos da doença de maneira mais ampla. Para piorar a situação, como a maioria do setor de saúde no país é privado e descentralizado, existem dificuldades para se universalizar e acelerar os diagnósticos.

Apesar da empáfia, na sexta (13/03) o presidente Trump decretou estado de emergência nacional. Com isso, aproximadamente 50 bilhões de dólares deverão ser liberados para a assistência contra a epidemia a ser prestada por governos estaduais e municipais.

E parece que o desespero agora domina o presidente americano.  Ontem (16/03) o governo alemão criticou a ofensiva financeira de Trump para adquirir uma potencial vacina contra o coronavírus em desenvolvimento pela empresa alemã CureVac. Segundo fonte anônima citada pelo jornal alemão Welt am Sonntag, Trump teria oferecido “1 bilhão de dólares” para garantir que a vacina seja “apenas para os Estados Unidos”.

E no Brasil? Como andam as coisas?

Ruins. Muito ruins. Estamos sem liderança nacional, sem um comitê nacional para enfrentar a crise. Apenas prefeitos, governadores e chefes dos poderes judiciário e legislativo estão agindo de forma racional para amenizar os efeitos do agravamento da crise esperado para as próximas semanas.

Nosso presidente, assim como Trump, também considera que o problema é menos grave do que aparenta. Que estão exagerando. Que tudo pé fantasia. E contrariando conselhos médicos, ofereceu um espetáculo grotesco neste domingo incentivando e participando de concentrações públicas de protestos em seu favor, colocando em risco a saúde de milhares de pessoas.

Mesmo sendo liderados por dois políticos fanfarrões, tudo indica que Brasil e Estados Unidos deverão sair da crise do coronavírus em condições bem distintas. Nosso vizinho do Norte, como se sabe, tem recursos financeiros e humanos para enfrentar e sair da crise com menos sequelas do que nós. Mesmo tendo Trump como presidente.

Nós, por outro lado, temos um presidente que aparenta estar fora da realidade a maior parte do tempo e incapaz de compreender o papel que deveria estar desempenhando, caminhamos, tudo indica, para um desastre de grandes proporções. Tanto no aspecto da saúde – milhares de infectados e numerosas mortes ocorrerão –, como no campo econômico. Digo isso porque nosso ministro da economia, quando questionado sobre medidas para enfrentar a crise, apenas insistiu na continuidade das privatizações e no corte de despesas do orçamento.

Tudo indica que o coronavírus tem grande potencial de representar o ocaso das carreiras políticas de Trump e Bolsonaro.

Assuntos desta notícia