Dilema – Jornal A Gazeta

Dilema

Há alguns dias uma amiga veio me procurar chorando. Estava aflita porque o filho menor de idade havia fugido de casa. Ela explicou que o caso aconteceu após ela bater no menino para não deixá-lo sair à rua.

Acontece que ela mora em um bairro muito perigoso. Um lugar onde é comum crianças e adolescentes se drogarem nas ruas, em plena luz do dia. São jovens sem perspectiva de futuro, que passam horas entorpecidos sem preocupações de voltarem para casa. Os pais já lavaram as mãos e, alguns deles, estão presos por delitos semelhantes.

Ela nunca quis um destino assim para os filhos. Criou três crianças sem a presença do pai delas. Para o homem, pagar a pensão é o suficiente. Ele jamais compareceu a reuniões na escola dos filhos. Nunca procurou dar conselhos. Jamais a ajudou a corrigi-los, mesmo quando ela implorou por ajuda.

Muito pobre, ela comprou um videogame parcelado para que seus filhos ficassem brincando, depois da escola, enquanto ela trabalha como empregada doméstica. Sempre se esforçou muito para que nunca faltasse nada em casa.

Daí, certo dia, ela recebe a ligação do filho mais velho dizendo que o menino estava na rua com outros garotos de má influência. Sem pensar ela vai até lá e o tira da rua. Para repreendê-lo, ela deu-lhe umas palmadas.

No dia seguinte, o garoto fugiu para a casa do pai. Lá, o grande “pai”, super atencioso (só que não), demonizou a imagem da mãe da criança. Levou o menino ao conselho tutelar e prestou queixa.

A mãe corre o risco de perder a guarda da criança. Se ela errou? Sim. Claro que há outras formas de educar um filho. Mas ela estava desesperada. Já havia tentado de tudo para manter a criança segura de um meio perigoso, do qual não tem condições de sair.

Ela ama muito o filho e nunca escondeu isso. Diz que preferiu corrigi-lo com umas palmadas a vê-lo se drogar nas ruas e depois ficar perdido para sempre na criminalidade.

Será que é justo que um pai ausente, que nunca cumpriu com os deveres, agora apareça como salvador da pátria?

Quantas mães nesse mundo se desdobram para dar o possível aos filhos e ainda são presenteadas com rebeldia e palavras duras? Quem será por elas?

* Brenna Amâncio é jornalista.
E-mail: brenna.amancio@gmail.com

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