É preciso acreditar – Jornal A Gazeta

É preciso acreditar

Este mês, visitei em Tarauacá, cidade onde vivi parte de minha infância, a escola João Ribeiro. Difícil dizer em palavras a emoção que senti ao entrar na mesma sala de aula onde estudei quando garoto. Foram tantas lembranças! Dizem que quando estamos morrendo, a gente relembra a vida toda em um rápido filme. Não tenho como afirmar se isso é ou não verdade, mas posso dizer que ao entrar em minha antiga escola caminhei por escolhas que acredito dizer do que sou hoje.
O momento me trouxe à mente o importante papel do professor, em lembrança exata da minha professora. Que papel importante, que compromisso faz a missão se concretizar em gestos tão fortes e fazer gente se sentir gente e se comportar como. Deixo aqui, pela minha história, uma homenagem a todos os profissionais que atuam nesta área e agradeço à professora Francisca Aragão por ter me ajudado a voltar nos meus bons tempos de menino.
Lembrei-me, também, da mudança que meus pais fizeram para a capital e, depois, do enorme desejo que eu alimentava de conseguir estudar no antigo Colégio dos Padres. Um sonho que minha família não tinha condições financeiras de arcar, mas que acabei realizando graças à generosidade do bispo D. Giocondo. Procurei-o na época que estava para ingressar no Ginásio e dele recebi a proposta de trabalhar na serraria dos padres (onde hoje funciona a Galeria Meta) em troca dos estudos.
Trato feito, eu saía de casa às 5h30 da manhã em direção ao trabalho. Tinha 14 anos e minha função consistia em juntar, com a ajuda de uma pá, todo o pó de serra em carrinho de mão, que eu empurrava, depois, até uma pilha. Em seguida, começava a atender os clientes que chegavam à serraria para comprar madeira ou encomendar portas, janelas.
Uns meses depois, consegui com Dom Giocondo mudar de emprego: fui transferido da serraria para o próprio colégio. Pela manhã, eu carimbava as cadernetas dos alunos; e, à tarde, após minhas aulas, era eu quem batia a campa e recolhia novamente as cadernetas – ao mesmo tempo em que me dedicava aos estudos no lugar que tanto sonhava.
Naquela época, busquei pela necessidade e de forma intuitiva a desenvolver a formação integrada entre escola e trabalho, pela necessidade e pela opção de aprender a vida em todos os seus momentos. O Sacerdócio daquele religioso se cumpriu em fazer meus sonhos e se antecipou na história em me fazer aprendiz e sonhador de novos tempos.
Na visita que fiz à Escola João Ribeiro, tive vontade de contar à professora Francisca Aragão, e à diretora Raimunda Ilca, essas lembranças. Mas desisti. O motivo? Achei que não o faria sem correr o risco de marejar os olhos o que, para alguém tímido como eu, é uma vergonha danada!
Mas agora, passado o calor da emoção, e escrevendo essas linhas, posso dizer que relembrar minha experiência serviu não somente para evocar o passado – tão importante para explicar o presente e escrever o futuro –, mas para reforçar a crença que carrego na solidariedade humana e, mais ainda, no papel que a sociedade e os poderes públicos têm na criação de oportunidades aos jovens.
Transformo esta experiência de vida em compromisso pessoal: de continuar sonhando que viver vale sempre a pena e que quanto mais solidários e comprometidos formos, mais sonhos se realizarão. Isto vale uma vida.
Oportunidades de educação, cultura, esporte, lazer, trabalho. Oportunidades que possam ajudar a reescrever o difícil momento que nós, brasileiros, atravessamos.

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