Equidade de gênero, que bicho é esse? – Jornal A Gazeta

Equidade de gênero, que bicho é esse?

Por machismo, ignorância e má fé, inúmeros brasileiros encabeçaram uma campanha leviana de desconstrução do Movimento Feminista nas redes sociais. São montagens toscas com distorções de fatos e do tempo, que tentam a todo custo minimizar nossas lutas e conquistas.

Os bombardeios partem de todos os lados e, infelizmente, muitas mulheres também alimentam esse sistema patriarcal que nos coloca numa posição de submissão. Diante disso, vale a reflexão sobre uma pauta debatida e mal interpretada: equidade de gênero. Afinal de contas, que bicho é esse?

Basta “dar um google” para sacar que equidade de gênero é o tratamento igual entre homens e mulheres, ou seja, justiça de oportunidades iguais independente do gênero. Equidade é uma questão essencial para o desenvolvimento sustentável de uma sociedade.

Equidade não tem a ver com privilégios, mas com direitos. Assim como direito e biologia são coisas distintas também. É comum ouvir a expressão machista: “vocês querem ter direitos iguais, mas não querem carregar uma saca de cimento”. Nessas horas, me questiono se o homo sapiens realmente saiu das savanas.

Entretanto, não é de se estranhar que no país onde os habitantes desconheçam a história e negam e existência de uma ditadura militar, que assassinou milhares de pessoas, o feminismo – movimento pautado na luta pela emancipação social das mulheres – seja tratado como privilégio.

E já que ninguém estuda mais, vamos à aula de desenho. Pegue um lápis ou caneta de sua preferência e numa folha em branco desenhe o trajeto que você, homem, percorre a pé depois das 21 horas.

Aproveita que a mente está em exercício e me responda rápido: você já foi estuprado por ser homem ou estar bêbado? Já foi assediado por estar de roupa curta ou colada? Sentiu medo de fazer esse mesmo trajeto e ser ultrajado por uma mulher? Provavelmente todas as suas repostas foram não!Não ser violentado por ser homem é privilégio ou direito?

Vamos para segunda parte da nossa “brincadeira” e desenha, por favor, uma réplica sua no trabalho. Feito? Agora vamos ao quiz! Você ganha menos que uma mulher por ser homem? Foi assediado pelo seu chefe porque é homem? Convive com “piadas” que lhe diminuam na condição de homem? Já teve as suas competências de aptidão reduzidas ao seu corpo?

Pelo visto, tivemos outra leva de nãos! E aí, ter um salário à altura do seu trabalho e ser respeitado pelos colegas é privilégio ou direito?

São exatamente esses direitos que nós, mulheres, também queremos ter. O Movimento Feminista não luta por privilégios, mas por equidade de gênero. Lutamos para deixarmos de sermosmortas e estupradas – no Brasil, uma mulher éassassinada a cada duas horas.

Em 2017, o índice de feminicídio subiu 65% se comparado ao ano anterior. Somos o quinto país do mundo com maior percentual de crimes de ódio baseado no gênero, amplamente definido como o assassinato de mulheres. Portanto, não é privilégio querer continuar viva, É DIREITO!

Segundo pesquisa divulgada no ano passado pela Catho (site brasileiro de classificados de empregos), as mulheres brasileiras ganham menos do que os homens em todos os cargos. A pesquisa avaliou oito funções, de estagiários a gerentes. A maior diferença é no cargo de consultor, no qual os homens ganham 62,5% a mais do que as mulheres.

Ganhamos menos que homens por sermos mulheres. Qual a lógica disso? Afinal de contas, quem se privilegia em um sistema machista?

Uma sociedade com equidade de gênero garante que sejamos tratados e tratadas com justiça social. Os direitos femininos não ameaçam os masculinos, a não ser que o que lhe incomode seja a perda de privilégios. E se for isso, então se prepare, pois como bem disse Fernanda Lima, “essa revolução não tem volta!”

Maria Meirelles é jornalista e feminista

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