Guetos existenciais – Jornal A Gazeta

Guetos existenciais

Num destes finais de semana, para fugir da overdose do futebol, voltei a assistir o filme O PIANISTA, que retrata a cruel ocupação Nazista (1940) em Varsóvia, na Polônia.   Nesta cidade, os judeus foram isolados da população não judia, num gueto, onde são forçados a atividades humilhantes e, por fim, executados.

O jovem Szpelman, o PIANISTA, no ápice da opressão física e psicológica, certo dia, diz a um amigo de infortúnio: Preciso sair daqui…!  O amigo, responde: Sair é fácil, o difícil é sobreviver lá fora!

Guetos, fora desse contexto do filme, pode ser um lugar qualquer de uma cidade onde vivem os membros de uma etnia ou outro grupo minoritário, devido a injunções, pressões ou circunstâncias econômicas e sociais.

Em minha breve estada, no passado mês de agosto, na cidade Manaus, notei que parte dos milhões de pessoas, venezuelanos, crianças, jovens e adultos, que migraram para países adjacentes, num verdadeiro êxodo da fome, está acampada em barracas improvisadas nas adjacências da Rodoviária Estadual. O que eles buscam? No primeiro momento, pão para sobreviverem! Mas, também, eles estão atrás de conhecimento, de ajuda e de esperança. Uma vez que, a pobreza não consiste somente na necessidade ou falta de recursos. Afinal, além da pobreza literal da falta de alimentos eles fogem da angústia da opressão dum sistema governamental arcaico e opressor. Do mesmo modo, em outro contexto de gueto existencial, estão os que sobrevivem na “terra do crack” ou “Cracolândia”, em São Paulo, e outras grandes cidades brasileiras. Portanto, aqueles ou estes, independente das suas circunstâncias, mesmo que queiram sair do gueto, não sobrevivem fora dele.

A propósito, famoso filósofo existencialista, do passado, dizia que na vivência humana há três opções de estilos de vida que as pessoas podem seguir: o homem estético, busca de prazer, que conduz ao tédio existencial; o homem ético, cumpridor de deveres, mas perdido na massa e; o homem religioso, isto é vida de fé em algo ou alguém, mas experimentando angústia e desespero, que o levam a individualizar-se. Para este pensador, a pessoa que vive no estágio estético, optou por viver na periferia da vida; só que no contorno da vida o homem não encontra o sentido verdadeiro para sua existência. A se ver envolvido com todas as suas atrações fatais, o homem se debate, na esperança de sair do caos em que está metido. Massa com tendências suicidas: idolatria pela tecnologia; proliferação das drogas alucinógenas; conflitos urbanos violentíssimos e consumismo exagerado. Assim, excessivamente, a maioria da população está entregue a uma vida desregrada de prazeres. Opta por viver à beira do abismo das paixões, isto é: catarse, sentimento ou emoção levado a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão.

Que saíamos desse “gueto existencial” vicioso de tão somente assumir compromissos históricos, através de discursos politicamente correto, uma vez que há, na prática, uma distância entre o sonho de uma sociedade perfeita e sua ilusória concretização. Contudo, fiquei a pensar, como alguns de nós, cansados dos nossos guetos existenciais, cogitamos fugir, sem saber que é difícil sobreviver lá fora!

 

*HUMANISTA. E-mail: [email protected]

“…em outro contexto de gueto existencial estão os que sobrevivem na “terra do crack” ou “Cracolândia” em São Paulo”

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