Interiorizando a violência – Jornal A Gazeta

Interiorizando a violência

Outro dia parei para ouvir e ver, no vídeo, uma das poucas entrevistas dada pelo filósofo existencialista Jean Paul Sartre (l905-l980). Ele que participou da 2ª guerra mundial, diz nessa entrevista que a juventude europeia da época, especialmente a da França, interiorizou a violência, ou melhor, aceitou no seu espírito o horror advindo daquela guerra.
Seis décadas depois, por tudo que temos presenciado nestes dias, para não dizer nas últimas horas, e por tudo o que já vivemos de mal, neste mundo, notadamente no campo da violência, parece que o mundo atual interiorizou a violência, incorporou ao seu mundo interior as desgraças exteriores. Assim sendo, morrem as esperanças, de que com o alvorecer do próximo ano, os homens assumam atitudes mais civilizadas, no que concernem aos direitos humanos.
Neste ano que ora finda, a violência se apresentou em suas formas mais insidiosas, mais cínicas, num grau de refinamento que provavelmente supera em muito os períodos mais cruéis da história da humanidade. Genocídios e torturas “cientificamente” organizados; perseguições de todos os matizes, depurações raciais e “limpezas étnicas”; êxodo forçado de populações inteiras e grupos sociais indefesos; terrorismo em formas inumanas; segregação e/ou exclusão econômica, racial e religiosa, todos são comportamentos individuais e coletivos que traduzem nada mais, nada menos, do que o simples e cruel desejo de destruir o outro. O “outro” de Lévinas ou o “ama ao teu próximo como a ti mesmo” de Jesus Cristo, deu lugar ao “EU” violento, violentador e violentado.
O que se pode constatar, é que a violência tornou-se um fato massivo nas sociedades hodiernas, uma situação irreversível, a ponto de constituir um verdadeiro desafio para a consciência moral do nosso tempo. A multiplicação da violência se apresenta como um contra-senso no momento em que nossa compreensão dos fenômenos naturais e sociais está mais aguçada; em que o avanço do saber cientifico e das conquistas da razão atingiram patamares extraordinários; em que a consciência do valor e do respeito à vida pareciam afirmar-se definitivamente de modo indiscutível.
Destarte, o fenômeno da violência sai do campo das teorias das ciências humanas para alcançar e preocupar o humilde cidadão que, de conhecimento, só possui o sensitivo. É clamor para todo lado! Há uma eterna preocupação com os altos índices de violência no lar; no transito; nos campos de futebol; nos plenários legislativos, com seus eternos bate-bocas; nos eventos de entretenimento; na escola e, pasmem, no seio das polícias instituídas para agir em defesa do cidadão. Só a desfaçatez de algumas autoridades pode esconder o desânimo em que estamos afogados. Exemplo crasso disso é a impotência dos governos de São Paulo e do Rio de janeiro diante dos constantes assassinatos de policiais, promovidos pela bandidagem, que já viraram rotinas.
A pluralidade de “ideias” ou “saídas” para a realidade violenta, emana de todos os segmentos da sociedade em busca de soluções para a má notícia. Nesses “debates” a pergunta é a mesma: Onde está a resposta para o problema da violência? Estará em mais ação da polícia? Numa punição mais rigorosa (a pena de morte)? Em mais elevada educação? Em atitudes governamentais mais rígidas? Estas e outras interrogações são feitas por todos nós, todos os dias e em todas as horas de aflições porque passamos. Ninguém parece ter respostas para estas perguntas. As respostas, quando muito ficam no campo dos debates simplórios. Fala-se, e muito, na criação de programas de inclusão social, educação, etc. Do combate ao desemprego, a miséria, às drogas, má distribuição de renda. Mas, tudo isso é clichê mil vezes repisado sem que se tenha, contudo, soluções concretas.
Se não bastasse ao cidadão o convívio com toda essa brutalidade, tem, além disso, que se moldar à ferocidade: do determinismo legal de certos governos, que vivem a favorecer uns poucos em detrimento de muitos; do partido político demagogo; da lei do mais forte contra o mais fraco; do sistema financeiro que leva o homem a ser explorador do próprio homem; dos arruinados sistemas de saúde, educacional e carcerário.
Confesso a minha descrença e o meu pessimismo quando o assunto é debelar a violência. Estou no patamar da desilusão, e não estou só: há miríades, dezenas de milhares de brasileiros desiludidos. É uma situação endêmica, um câncer progressivo e degenerativo, que nos afeta a todos. Um caminho sem volta.

 

* Francisco Assis dos Santos é humanista. E-mail: assisprof@yahoo.com.br

Assuntos desta notícia