Mais polêmica à toponímia do Acre – Jornal A Gazeta

Mais polêmica à toponímia do Acre

A Toponímia do termo “Acre” já fez brotar debates acalorados. Faz parte e faz bem! Debates são sempre salutares e necessários!

A peleja acadêmica parece querer posicionar, com alguma inclinação de divergência, dois grupos de compreensão envolvendo os sentidos filosóficos da “identidade acreana”. Ambos os lados trazem bons argumentos.

Antes de qualquer coisa, como forma de homenagear a produção científica, recomendo que visitem dois autores, o Dr. Eduardo Carneiro – notório contestador do “mito da fundação do Acre” – e o Dr. Gerson Albuquerque.

Quanto ao segundo autor, recomendo a leitura do belíssimo ensaio “Uwa’kürü” – Dicionário Analítico, trabalho produzido em parceria com outros autores, todos historiadores dignos de grande respeito.

“Acreanismo” ou “acreanidade” à parte, eu prefiro não percorrer a velha rinha conceitual filosófica que faz emergir essa ou aquela compreensão. Tentarei passar a largo, se é que tal distanciamento pode ser tido como algo possível ou até mesmo recomendável.

Antes, façamos uma leve descrição conceitual para que possamos alcançar um nível satisfatório de navegação pelo tema.

Toponímia é uma subdivisão da Onomástica. A Onomástica pode ser compreendida como o estudo dos “nomes próprios”.

O objetivo da Onomástica é reunir informações aptas à compreensão do processo de formação dos nomes próprios. Envolve a origem e o processo que afeta a denominação desse ou daquele nome.

Tem como objeto a busca dos  fatores históricos, geográficos e linguísticos  de influência que afetaram a  determinação,  popularização e aceitação do nome que veio a impor-se ao longo do tempo.

Dentro da Onomástica, como uma das suas subdivisões,  temos a Toponímia, que busca compreender a origem dos “nomes dos lugares”.

A Toponímia, por sua vez, também comporta subdivisões. Existem várias, mas a que merece ser lembrada aqui é aquela que estuda a origem dos nomes dos rios, o “Hidrônimo”.

É fato que a utilização do termo “Acre” como expressão que define o espaço territorial do “lugar” que hoje chamamos de Estado do Acre possui vínculos com a expressão “Rio Acre”, eis que os anúncios toponímicos deste são anteriores.

Ou seja: o batismo do rio precedeu ao batismo do espaço territorial como um todo. Fato incontestável!

A questão efetivamente mal resolvida diz respeito ao hidrônimo do “Rio Acre”. Isto é, a origem linguística e o momento exato do início da sua popularização como nome próprio.

Visando restringir o espaço efetivo e real da polêmica. Vejamos o que é e o que não é fato nessa cruzada Onomástica.

É fato que o “Rio Acre” já foi chamado de “Rio Aquiry”. O acervo probatório chega a ser oceânico.

Também é fato que o Rio Aquiry – em algum instante histórico – foi convertido em Rio Acre. Descobri a roda ou o fogo?

Não! Estou apenas restringindo o espaço da polêmica para em seguida lançar mais polêmica.

Vamos ao último fato. A origem do termo “Aquiry” é indígena? Muito provavelmente sim. É incontestável? 99,9% incontestável!

Pois bem! Apertem os cintos. De agora em diante navegaremos no mar revolto da polêmica.

Comecemos pelo terceiro e último fato. Sendo o termo “Aquiry” 99,9% de origem indígena, de qual tronco linguístico o mesmo deriva?

Agora complicou de vez. Em nível de precisão científica não é possível afirmar de modo absoluto e categórico.

É Aruaque? É Pano? Tupi/Guarani? Não se sabe de modo absoluto, até porque o termo “Aquiry” não integra o vocabulário de nenhuma delas, ao menos de modo conclusivo, o que, claro, não revoga a tese da origem indígena do termo.

E por que não? Primeiro porque os verdadeiros pioneiros dessas terras e águas foram os indígenas e, segundo, porque existem indícios da ocorrência de alterações históricas do termo.

Quanto a tal passagem toponímica, existem sugestões, ainda que não conclusivas, da ocorrência de “aportuguesamento e erros de grafia e/ou pronúncia”, de vocábulos efetivamente reconhecidos como de origem indígena, em “Aquiry”.

Para complicar, existe ainda a enorme diversidade linguística da Amazônia, a tornar ainda mais espinhosa a conclusão definitiva da referida origem.

Desejando sorte àqueles que possuem méritos e condições científicas para lançar luzes na direção do esclarecimento definitivo dessa questão, peço-lhes licença para adentrar na segunda parte da polêmica.

A segunda parte versa sobre o momento exato em que o Rio Aquiry começou a ser chamado de Rio Acre.

Tenho estudado as expedições realizadas pelo inglês William Chandless e Manuel Urbano para um  ensaio que almejo produzir sobre tais eventos.

Nesse percurso, ao realizar as pesquisas, acabei me deparando com algumas informações que talvez ainda não tenham sido objeto de atenção por parte dos estudiosos e que diz respeito exatamente à conversão do termo Rio Aquiry em Rio Acre.

Vejamos. Entre 1904 e 1909, circulou no Brasil uma Revista Científica, Artística e Literária chamada “Kosmos”.

Na edição primeira da referida revista apareceu um ensaio produzido por Eduardo Lisboa, que foi embaixador do Brasil em La Paz e atuou nas negociações do Tratado de Petrópolis, as quais tenho como muito curiosas.

O Embaixador em questão, ao tratar das  origens do termo fez referência a um documento manuscrito do naturalista Domingos Soares Ferreira Penna, fundador do Museu Emílio Goeldi.

Segundo Lisboa, Chandless teria trocado informações com Domingos Soares Ferreira Penna sobre as expedições que havia realizado entre 1864 e 1865 pelos Rios Purus e Aquiry (Acre) e que tais informações teriam sido registradas.

Nas conversas, Chandless teria explicado a Penna as dificuldades que havia encontrado para pronunciar o termo Aquiry.

Chandless teria dito que o pronunciava como se fosse escrita como “A’cri ou Acre” em razão do fato da língua inglesa (Chandless era inglês) só admitir uma sílaba longa em cada palavra.

Ainda segundo Eduardo Lisboa, um auxiliar de Chandless, cujo nome não foi mencionado, de tanto ouvir o desbravador inglês pronunciar o termo Rio Aquiry com a sonoridade de “Acri”, ao construir em seguida um vapor, o teria batizado com o nome de “Vapor Rio Acre”.

O texto de Lisboa é de 1904 e a informação que fez referência teria sido escrita pelo naturalista Domingos Penna 24 anos antes. Ou seja: em 1880.

Não sei ao certo se a referida informação goza de algum prestígio acadêmico ou se de algum modo merece ao menos ser considerada como nova, o fato é que visitando as “Notas sobre o rio Purús”, apresentadas por W. Chandless perante a Real Sociedade Geographica de Londres, em 26 de fevereiro de 1868, verifica-se que o mesmo chegou a citar expressamente o referido “aportuguesamento” do termo.

E quanto ao suposto Vapor Rio Acre? Não o encontrei navegando pelo Rio Aquiry nos registros.

No entanto, inclinando para a tese ventilada por Eduardo Lisboa, constata-se que o historiador Eduardo Carneiro o teria encontrado, já que disse, no blog do Altino Machado, que o viu navegando na região por volta de 1876.

Quanto à nota manuscrita atribuída ao naturalista Domingos Soares Ferreira Penna, não a encontrei. Mas estou procurando.

Será ela a certidão de batismo do Rio Acre, que depois seria usado para definir o “lugar” da República Independente do Acre, por Galvez; depois Estado Independente do Acre, por Plácido de Castro; Território do Acre e finalmente Estado do Acre?

Pesquisas! Mais pesquisas!

 

*Edinei Muniz

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