Memórias do tempo do ir adiante – Jornal A Gazeta

Memórias do tempo do ir adiante

Primeiro, fizeram de mim um menino tímido, como hoje ainda sou, embora ninguém acredite, ninguém veja. Viajei, é certo, por mares nunca d’antes navegados e, em viagem, depois dos dez dias fora de casa, sentia saudades da mãe e, à noite, de olhos fechados, a via passar as mãos na cama de modo a fazê-la mais confortável para o meu deleite. Era a emoção viva e pulsante da velha alma infanto-juvenil.

Depois, em palavras bem estudadas, disse poesias que não escrevi, aos ouvidos do belo sexo, ainda que nem estivesse apaixonado. Penso que, a partir de meados da segunda década, fazia esse exercício ilusionista muito mais enquanto ensaio para quando as coisas se fizessem realmente difíceis, como nem sempre foram. Casei de verdade aos trinta ponto cinco, como vovó planejara. Bem feito! Quem mandou se meter a malabarista?

Não. As características  donjuanescas jamais fizeram parte do rol das manias da minha alma sacana. Não iludi, não menti, não trapaceei. Apenas omiti detalhes às vezes um tanto sórdidos, escabrosos, o que quase sempre dá no mesmo, é a mesma coisa. O pecado é grave da mesma forma. Os versos eram abstratos, mas as segundas intenções estavam sempre à flor da pele ou ao redor de uma despercebida vírgula recheada de duplo sentido. Se escorregar, é melhor cair…

E fui por aí, vivendo a vida leve e folgazã, uma vez que o soldo republicano o permitia. Ganhava realmente muito bem para um moço de vinte e pouquinhos anos. Inspirava-me, e muito e sempre e tanto, no Vinícius de Moraes, o poetinha da fidelidade.

Ademais, o que fiz além de sonhar com as divas do meu tempo  –  Caroline de Mônaco, Sônia Braga, Brooke Shields, Lucília Parra…  –  foi a compra de um carro um tanto luxuoso para a minha província e para aqueles tempos de devaneio. Como dizia de mim mesmo à época, fui levando uma vida de pequenos deslizes, crimes mínimos, pecados hediondos, furtos insidiosos em que corações foram arrancados de peitos arfantes e juvenis, aos pulos. No mais, nada demais. Julguei a mim mesmo sempre um inocente que deixava um olho acordado enquanto o outro dormia a sono solto.

Passei então a viver pensando que os que têm alma não têm calma. Aí foi que me iniciei no mundo das emoções. Cheio de raça e fímbria desde a medula, matei a pau. Estudei o suficiente para tornar-me, um dia,  um homem feliz, um sujeito realizado, em que pese as minhas limitações marcadamente humanas. Fui aprovado em tudo quanto me meti, só não em concurso de beleza, posto que a minha maré nunca esteve pra tanto peixe assim, e Deus achara demais da conta me ofertar além do merecido quinhão. O Divino acertou quando me deu de presente o amplo tirocínio.

Certo é que, a ferro e a fogo, gravaram em mim a tatuagem indelével e fria da impetuosidade. Quase me tornei uma máquina programada para ir sempre em frente. Só mais tarde é que deixei de correr atrás, porque já havia alcançado tudo, ou quase tudo. Hoje, de carro, ando a sessenta quilômetros horários no máximo, porque aprecio a paisagem enquanto dirijo e, de quebra, ainda olho para quem me olha da beira da calçada. Nunca se sabe. É ela aos trinta. Vai que cola!

Num dos meus dias de adolescente, ainda imberbe, começaram a brotar as primeiras paixões avassaladoras, cáusticas, lacrimejantes, fúteis, como é tão natural entre a maioria dos que têm idade reduzida e pouco aprendizado, muito embora as lágrimas não tenham caído dos olhos, mas molhado quase por completo a alma medonha.

Namorei uma mocinha que nunca soube ter sido eu um dia namorado dela. Se soubesse, daria por concluído o namoro. Isso tudo só para dizer a um tio meu que era um principiante cheio de qualidades. Tudo mentira tosca. Só macaquice. Coisa de iniciante.

Hoje, a família primeira ainda me dá asas aos sentimentos. É emocionante pensar nas dificuldades passadas e sentidas no decorrer de uma viagem do sertão do Ceará até o Acre, em busca do pouso seguro e nunca encontrado, feito o pote de ouro.

Os ancestrais guerreiros foram heróis que ajudaram a conquistar esses ermos em tempos de Galvez e Plácido. Os pais e os avós são lembrados e têm as suas memórias guardadas, sim, porque este poeta insano e bobo é ainda cronista que traz a história no quengo e faz remendos em vista da memória fotográfica que, com algum exagero, ainda chega aos anos cinquenta, pratrasmente.

Ah, os filhos! Eles também ainda me emocionam e não o deixarão jamais. Também me causa algum sentimento ver a fímbria da sócia no empreendimento de fazer crianças. Ela é fera. Parte dela o zelo pelos bens conquistados com esforço. É tarefa que lhe cabe ainda ver preço a preço e a data de vencimento e a consistência e a qualidade de um rol de cem produtos no supermercado todos os meses.

Às vezes, como em algumas madrugadas semanais, quando fico a rabiscar garatujas nessa máquina de fazer doido  –  o computador  –  bate-me uma boa saudade dos irmãos que ainda estão por aqui para me ajudar a contar as nossas histórias desde a origem nas terras dos xapuris. Tenho, a essas horas silenciosas que nos propicia o sol escondido por trás da Terra, ainda anseios por ouvir relatos encantados dos dois que se foram em busca de outros mundos e de outras glórias superiores às nossas de terráqueos urbanos fúteis e pecaminosos.

Outro dia, vi um menino ainda quase menino. Ele ganha a vida esmurrando os outros dentro de um tal octógono e fazendo-os desmaiar, se possível. Dizia o rapazola ao repórter que matara a unha um leão por dia, comera o pão que o diabo amassou, dormira no chão duro e suado de uma academia de pugilistas, morava de favor num cubículo cedido por um amigo quase irmão, foi alvo de muitos favores, mas sempre lutou bravamente para, quem sabe, um dia…, um dia… comprar uma casa bacana para a sua mãe, em Manaus… É o Zé Aldo bom de porrada. Emociona muito porque tudo parece comigo. É medida grande para o meu encantamento humano ver um menino pobre que vence pensando em ajudar os pais.

Lembro depois os que não são bem sucedidos, aqueles que não venceram como gostariam, como aquele que queria ser igual ao Pelé, ou aquele que se comparava ao Zico. Estes não têm sequer a oportunidade de contar as suas historinhas de vida acabrunhada… Dá pena.

Um dia, já em idade bem madura, escrevi sobre as razões da emoção. Desfiei um rol delas. Talvez até esteja aqui repetindo algumas. Em verdade vos digo que, naquele tempo, eu ainda era pleno de sentimentos e escalava todo o time do Fluminense do Rio. Sabia-o de cor.

E agora, José Cláudio? Numa paráfrase ao Drummond, as luzes não se apagaram e, ao contrário, estão bem acesas, mas as emoções se tornam rarefeitas, desde alguns anos. Muito daquilo que me emocionava já não me emociona. Fiquei, parece-me, um tanto áspero com o passar dos tempos e, como as velhas árvores, tenho morrido a partir dos galhos mais altos.

É assim que acontece quando a razão começa a tomar o lugar da emoção. O raciocínio pode tornar-se lento, mas fica muito mais eficaz, com certeza. Já não se acredita em gnomos. O sol é um astro apenas com autossuficiência em eletricidade. A lua já não é a namorada dos sonhos, mas o satélite da Terra que jorra uma luz fria e serve para alimentar os sonhos de conquista dos americanos.

Tudo é muito claro. Escuros são apenas alguns pensamentos de muitos que sonham com o dia da batalha final entre um coração fantasioso que jamais deixará de pulsar e o outro que para de bater e deixa a matéria a decompor-se e a desaparecer para todo o sempre.

Tenho uns amigos que choram e têm insônia quando o Fluminense deixa de ganhar. Eu, de minha parte, já não sofro destes males escabrosos. Tenho filhos para criar. Eles todos querem ser engenheiros e os meus camaradas tricolores querem que eu seja ainda um fanático pelo futebol. Já não o sou. Já não suporto sê-lo, apesar de nutrir as simpatias por este clube tantas vezes campeão.

Tento explicar que já não tenho idade espiritual para fanatizar as minhas parcas emoções. Alguns menos inteligentes desaprovam as minhas atitudes racionais por não verem que a idade me fez pensar mais claramente, que alguma leitura de livros aos milhares me fez ver que é de pão, sim, que o homem vive, e não das migalhas que caem das mesas dos mais apaixonados.

Na verdade, o Fluminense já é um entusiasmo tênue. Estive lá, na primeira quinzena do janeiro último. Fotografei o irmão apaixonado na sala de troféus e no bar. Voltei muitos anos na minha história de torcedor antes fanático. Mas já não sou o mesmo.  Já não respiro o império dos sentidos. Já não me tocam as paixões avassaladoras da primeira idade, embora o tilintar de copos, à noite, ainda me deixe um tanto perplexo ante a visão da vida noturna que se renova a cada bom trovador que ouço na Lapa ou no Paço, em Vila Isabel ou no Point do Pato.

Mais um chope à nossa saúde! Viver é bom demais. Ser feliz é melhor ainda…

*Autor de Janelas do tempo, livro de crônicas; e O inverno dos anjos do sol poente, romance de viagem cujo foco maior é o Acre dos anos 40 e 50, a ser lançado em junho próximo. Cronista do jornal A Gazeta, de Rio Branco, Acre:  www.claudioxapuri.blog.uol.com.br

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