Morena clara alta cabelos iluminados – Jornal A Gazeta

Morena clara alta cabelos iluminados

A cidade regurgitava àquela hora da tarde. Carros sacolejavam sobre a rua de pedra lascada. Buzinas, freadas, apitos. Um homem gritava a plenos pulmões comprando e vendendo ouro a preço de banana. Policial soturno olhava para a multidão com zelo fingido. O bonde estava quase a derramar pessoas pelos trilhos afora. A multidão formigava. A maioria ia, ou vinha, e a outra parte vinha, ou ia, desordenadamente, como se ninguém soubesse a que ponto se destinava.
O homem elegante de bigodinhos cofiados perseguira e alcançara a moça bela, mais ou menos, à altura do cinema velho, na rua do passeio, centro da cidade. Estava suado. Passava o lenço na testa. Estatura média, tinha cabelos pretos tingidos da melhor forma possível e por quem conhecia o ofício. Um tanto alinhado, trajava camisa e calças brancas sustentadas por suspensórios pretos com detalhes dourados. Os sapatos, também pretos, presumivelmente, seriam vulcabrás. Ofegava sob o peso de alguns janeiros que dormiam sobre as costas ainda rijas.
Viera ele de Portugal com um casal de tios para tentar a vida no ramo dos têxteis. Habituados e com vasta experiência nos negócios, aqui prosperaram com relativa facilidade. O sobrinho deixara os pais, ambos em alta idade, na santa terrinha a tomar de conta de um vinhedo, à época, ainda bem produtivo.
– Boas tardes, distinta dama! – Foi assim, formalmente, que ele a cumprimentou pela primeira vez.
– Olá, como está o senhor? Muito boa tarde!
Moça morena clara, alta, vistosa, cabelos iluminados, roupas da moda, sapatos em saltinho anabela, estudava o curso pedagógico no liceu da rua das caramboleiras. Os pais haviam nascido ali e eram proprietários de uma papelaria muito conhecida entre todos os residentes na zona central e adjacências.
Os românticos diriam tratar-se de amor à primeira vista. Os realistas falariam de união por conveniência, posto que ambos vinham de linhagens de muitas posses. Certo é que as famílias foram apresentadas uma à outra e, em duas semanas, o gajo já alisava bancos na casa da beldade da rua da quitanda. Estavam de namoro, felizmente.
Depois de um longo período de adaptações gerais e um noivado duradouro e pautado na moral e nos bons costumes, veio o casamento quase a cair de maduro, em fins dos anos sessenta.
Eles iam e vinham da escola para a igreja matriz e para o trabalho e para as suas residências, sempre de braços dados com a felicidade. Alguns diziam ser aquele o casal mais feliz das redondezas.
– Olha que coisa para dar certo. O portuga rico alvejou e acertou o coração da filha de uma verdadeira fortuna.
Planejavam filhos para dali a uns cinco anos. Teriam paciência até lá. Passaram a viver uma resignação que a mãe natureza e o destino logo desprezaram. Em poucos meses de casado, o portuga de quarenta e muitos anos foi vítima de um colapso cardíaco que o levou para o além, para o desespero das duas famílias.
A notícia drástica chegou em Portugal e também encaminhou a mãe aos céus. Em uma semana, o velho português morreu de tristeza em meio aos vinhais do Alentejo.
Eis que de repente a bela rapariga ficou viúva. Contavam os bens de cá e os de lá, além do que lhe assegurava a herança em termos financeiros. Da noite para o dia, percebera-se milionária.
Era aquele um tempo de muitas facilidades. Mas não havia tanto com o que ou com quem gastar. Certo é que faria investimentos maciços na parte da herança em Portugal. O que coube a ela, aqui, da parte do falecido, foi transformado em aplicações financeiras. Os bens relativos à família brasileira já estavam aos cuidados do irmão único e mais velho.
A moça era recatada, realmente, como a superior maioria das do seu tempo. Por suposto, não tinha em vista nenhum candidato a substituir o portuga desaparecido.
Passados três meses das ocorrências trágicas, aqui e n’além mar, a viúva bela houve por bem vender o que tinha e se foi para Portugal, onde dispunha, ainda, de um sobrado enquanto parte da herança do marido morto. Gostou dos ares lisboetas e ali fixou residência, na Vila de Eiras, a poucos quilômetros da Universidade de Setúbal.
Lá, fez estudos avançados em belas artes e um curso de formação de ministrantes na Universidade, onde foi também professora por dez ou mais anos.
Ainda nos primeiros dias enquanto acadêmica, com mais de quarenta voltas, veio a tomar conhecimento da existência do tal Adãozinho, estudante brasileiro de odontologia, de vinte e três anos, com quem engatou romance casual.
Ao par de tudo isto, ela alugara desde algum tempo o terceiro andar do sobrado a um certo professor Juliano Amoedo, de Física, com mais de sessenta de idade, que há décadas juntara-se a uma estudante de Biologia, de vinte e um anos à época, de nome Elvira, com quem tivera três filhos.
Está escrito no livro dos livros alguma coisa segundo a qual o preconceito estragou muita gente que se acha de boa índole, e as más impressões relativas aos outros ainda colocam muitos, às vezes inocentes, atrás das grades.
A professora e o aluno logo passaram a viver juntos tal e qual marido e esposa. Depois de alguma investigação própria dos intrigantes, pessoas um tanto senis misturaram os assuntos próprios do casal com alguns dogmas ultrapassados da igreja onde um padre centenário ditava os bons e os maus costumes.
Em uma ocasião, eles, juntos, foram impedidos de assistir à Missa dominical. Depois, algumas senhoras passaram a negar cumprimento à professora. Na quitanda, havia os que cuspiam à passagem de quaisquer dos dois. Atiraram cascas de banana à passagem do carro que conduzia o casal. Foram repudiados em um restaurante popular. Muitas outras experiências ruins foram vivenciadas.
As atitudes provincianas – ditas medievais – das pessoas da vila esqueciam a diferença de idade entre o casal do andar de cima, este formado por um professor e uma aluna. O preconceito explícito afirmava que as mulheres, pelo menos naqueles cafundós, não podiam, como ainda não podem, ter comportamento igual ao dos homens. Que estes podem tudo e aquelas nada podem ou podem muito pouco.
O Adãozinho foi quem primeiro cedeu. Arrumou as malas e zarpou de volta à terra natal. O preconceito é filho da ignorância. Já nos disse o senhor Hazlitt.
Ela cansara das atitudes discriminatórios muito próprias da província atarracada e sentia muitas saudades do seu apelidado amor menino. Escreveu, então, ao pai, que morava no Brasil. Em um mês, negociou todos os bens.
Era manhãzinha e Lisboa estava debaixo de uma névoa intensa. Mesmo assim, ela partiu para nunca mais retornar. À uma única amiga que a levara ao aeroporto, fez saudação rápida, abraçou-a e se despediu sumariamente, sem perda de tempo.
Em verdade, é preciso deixar claro que poucos são aqueles que dizem adeus à toa. Ela locupletara-se das razões as mais justificadas possíveis. Por Deus!

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