Nós resistiremos! – Jornal A Gazeta

Nós resistiremos!

Estima-se que pelo menos 12 casos de feminicídios – crime de ódio baseado no gênero, amplamente definido como o assassinato de mulheres – tenham ocorrido na primeira semana de 2019, no Brasil, segundo levantamento do site UOL. São brasileiras que tiveram suas vidas interrompidas por agressores “gente boa” soltos por aí.

O levantamento considera os casos de maior repercussão, reportados pela imprensa, que ganharam destaque pelo excesso de violência praticada contra as vítimas. Ou seja, o número de assassinato de mulheres nos primeiros dias de 2019 deve ser ainda maior.

E mesmo com um dado tão alarmante, tendo em vista que o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH), sempre somos questionadas e revitimizadas: “por que não denunciou antes?”, “mentirosa”, “oportunista”, “ela gosta de apanhar”. Há sempre uma desculpa ridícula e inadmissível para amenizar a culpa do agressor e distorcer o papel da vítima na história.

É importante salientar que a vítima nunca tem culpa, NUNCA! É redundante afirmar isso, mas, infelizmente, num país em que a maioria das pessoas acha que as mulheres merecem ser estupradas (Datafolha) é necessário reafirmar direitos todos os dias.

Quanto à denúncia, saiba que não é tão simples como supõem as análises rasas e machistas que reverberam mundo a fora. Não é fácil denunciar e, principalmente, admitir que homem amado seja o próprio algoz. Sim, em alguns casos, a mulher ama o agressor. Como isso é possível?  Ora, se muitos o consideram amigo do peito, marido exemplar, pai de família, gente boníssima, então por que a vítima, fragilizada e abalada emocionalmente, também não nutriria sentimentos?

Dói na alma perceber-se violada por quem se tem apreço! E só quem vive sabe o tamanho desse buraco que se abre no peito. Fora isso, as mulheres em relacionamentos abusivos sofrem ameaças, são desacreditadas socialmente (geralmente, chamadas de “loucas”), elas têm medo!

O psicológico em frangalhos se soma à pressão da sociedade, da igreja, da família. E apesar de termos umas das leis mais completas no combate à violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha ainda encontra dificuldades em sua aplicabilidade. Muitas mulheres em medida protetiva são assassinadas, mesmo o cara estando proibido legalmente de se aproximar delas.

Como bem disse Simone de Beauvoir, “nunca se esqueça de que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

E apesar de não serem encorajadas socialmente, muitas mulheres encontram forças para denunciar. Outras deixam pra lá, vão deixando a situação para depois na expectativa de que ele mude, deixando…Atéque um dia elas entram para a estatística e se tornam vítimas de feminicídio.

Há aquelas que reúnem forças para romper o relacionamento, mas temem em fazer a denúncia. Em algumas situações, o agressor deixa a vítima “em paz” e passa a atormentar a vida e outra mulher.

Tão logo foi divulgado o nome do novo acreano a participar do reality global, Big Brother Brasil (BBB19), passaram a circular nas redes sociais inúmeras denúncias de agressão sofridas pelas ex-namoradas do participante. Casos de assédio também reverberam, segundo ex-alunas, ele se aproveitava da situação de professor para assediar as alunas menores de 18 anos.

A denúncia é grave e deve ser apurada. Segundo informações, a produção do programa já investiga o caso para tomar as medidas cabíveis. Entretanto, não há boletim de ocorrência e, claro, a palavra das mulheres, que expuseram sua intimidade, caiu em descrédito.

Não é de estranhar que duvidem das vítimas no caso envolvendo o BBB acreano. Recentemente, uma juíza negou pedido de prisão ao piloto filmado agredindo a namorada. Segundo a magistrada, “por mais que a infração seja repugnante, os elementos apresentados (vídeo) são “insuficientes” para a prisão”.

Portanto, não é surpresa que as ex do BBB sejam alvo de críticas. Essa é formula natural da sociedade machista: criminalizar as vítimas. O que me orgulha são elas, as mulheres que tiveram coragem de mostrar a cara, falar, denunciar e expor as feridas. Elas sim são o ponto fora da curva!

Parabéns, meninas! Vocês são heroínas!

Nós resistiremos!

Juntas somos mais forte!

Maria Meirelles é jornalista e feminista.
E-mail: [email protected]

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