O que a Califórnia e esta parte da Amazônia têm em comum? Incêndios florestais e fumaça – Jornal A Gazeta

O que a Califórnia e esta parte da Amazônia têm em comum? Incêndios florestais e fumaça

Califórnia, o estado mais rico e diverso nos EUA, tem como suas cidades maiores San Francisco e Los Angeles, cujos nomes ilustram os legados hispânicos. Este estado incorpora Hollywood, Vale do Silício, Disneylândia e uma universidade mais conceituada do que a de Harvard. Se fosse um país, o PIB do estado ficaria no quinto lugar no mundo, com quase 40 milhões de residentes.
O estado de Califórnia fica muito distante, 6 mil quilômetros, desta parte da Amazônia que parece um outro mundo. Mas na verdade, ele tem sofrido algo que sofremos e que provavelmente vamos sofrer no futuro: incêndios florestais e fumaça, como foi tocado no artigo de 17 de julho de 2018 deste jornal.
O ano de 2018 foi o pior na história recente de Califórnia em termos de área de florestas queimadas, com mais de 700 mil hectares afetados.Florestas queimando geram fumaça. Em novembro, a cidade de San Francisco estava coberta de fumaça com valores múltiplas vezes acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como limite diário — 25 microgramas de material particulado fino por metro cúbico. A fumaça piorou a qualidade do ar e até foi necessário remarcar jogos tradicionais de futebol, fechar escolas e limitar atividades físicas.
Além do impacto imediato nas vias respiratórias, a fumaça pode modificar o sistema imunológico humano. Em outras palavras, um evento extremo de fumaça pode fazer uma pessoa ficar hipersensível para o resto da sua vida. Um outro estudo sugere que jovens expostos a estes níveis de fumaça podem ser afetados como adultos com redução na sua capacidade de respiração.
O Acre, por sua vez, tem somente 40% da área da Califórnia, com 16.4 milhões de hectares, porém, as áreas de floresta dos dois estados são parecidas, com 13 milhões de hectares de floresta na Califórnia.
Em 2005, o Acre sofreu incêndios em 350 mil hectares de floresta, segundo Dra. Sonaira Silva da Ufac, sem falar de queimadas em pastos e áreas agrícolas. A fumaça gerada foi extremamente densa. Dr. Alejandro Duarte, da Ufac, estimou valores acima de 400 microgramas de material particulado fino por metro cúbico em Rio Branco, ou seja, 16 vezes acima do valor diário estipulado pela OMS, valores parecidoscomoos da Califórniano ano passado.
Mas, os incêndios florestais e a fumaça não pararam no Acre em 2005. Em 2010, Dra. Silva e colegas estimaram que 120 mil hectares de florestas queimaram no estado e novamente em 2016, quase 30 mil hectares de florestas foram danificados por incêndios. E com estes incêndios veio a fumaça.
Obviamente existem diferenças entre as florestas temperadas da Califórnia e as florestas tropicais do Acre, mas têm biomassas por hectare semelhantes, ou seja,as quantidades de material para queimare produzir fumaça são parecidas. Fogo faz parte do ciclo natural de florestas na Califórnia, mas não na frequência que está acontecendo. Na situação natural das florestas da Amazônia, diferente do Cerrado, um incêndio penetrando a floresta era um evento raro. Isto já mudou e agora temos incêndios florestais ligados a secas severas em nossa parte da Amazônia.
O ciclo de água está se intensificando, não só nesta parte da Amazônia, mas também no mundo com secas mais fortes e chuvas mais fortes. Três secas severas na Amazônia (2005, 2010 e 2016) em 19 anos, acopladas com a crescente modificação da atmosfera e desmatamento continuado, indicam que seria prudente nos preparar para eventos extremos de seca. Além dos problemas de abastecimento de água, estas secas podem propiciar incêndios florestais de grandes proporções, semelhantes aos do Acre em 2005 e da Califórnia em 2018 ou maiores.
As secas vão vir, mas podemos pelo menos reduzir os incêndios florestais. Afinal é a mão humana que coloca ou apaga o fogo, seja na Califórnia ou na Amazônia. A escolha é nossa.

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