O valor de um tacacá – Jornal A Gazeta

O valor de um tacacá

Não é todo mundo que entende o hábito acreano de sentar-se na praça para tomar um tacacá a despeito do calor escaldante de nossa terra. Há também quem estranhe as iguarias – entre as quais o quibe de macaxeira e a baixaria, uma mistura harmoniosa de pão de milho, ovos fritos e carne moída, salpicada de cheiro verde – que comemos no café da manhã, em casa ou nas barraquinhas dos mercados do Bosque e do Novo Mercado velho.
Por isso, quando tenho oportunidade de explicar a quem vem de fora, faço questão de dizer que essas comidas estão intrinsicamente ligada à cultura do acreano. Um povo alegre, destemido, solidário e simples, que leva à mesa a rica contribuição recebida das populações indígenas, nordestina, árabe.
Gostamos de estender redes para descansar ou pensar na vida. De manter as portas abertas aos amigos, a quem sempre recebemos com um café feito na hora. O café, aliás, é outro elemento que diz muito do acreano. Aqui, é comum servirmos ele adoçado e mesmo nas cidades, onde teoricamente a pressa e a praticidade imperam, café que se preze é coado no pano. Um ritual que além de garantir outro sabor à bebida, nos fala do tempo. Não àquele dos carros velozes e sim o dos seringais, cuja tranquilidade dá a homens e mulheres o espaço necessário para estarem conectados com a vida que os rodeia: as árvores, os bichos, as águas e a lida cotidiana.
O acreano fala arrastado, anda sem pressa, e, dizem as más línguas, é enjoado – eu, por exemplo, insisto em escrever “acreano” ao invés de “acriano”, como reza o Novo Acordo Ortográfico. Uma escolha que, devo confessar, é feita com o coração.
Em um mundo cada vez mais tecnológico e globalizado, penso que é fundamental olhar e defender essa cultura local. Ver não como atraso, mas como um trunfo o tempo que destinamos às conversas, ao tacacá na praça, ao café coado no pano, às redes que atamos para pensar na vida ou descansar. Pois os hábitos e as heranças culturais que carregamos ajudam a explicar quem somos, e para onde queremos ir ou não.

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