Para pensar em desenvolvimento na Amazônia precisamos falar de clima – Jornal A Gazeta

Para pensar em desenvolvimento na Amazônia precisamos falar de clima

Desde 2005 estamos sofrendo no Acre uma série de eventos extremos no clima, ou seja, secas severas e prolongadas, chuvas intensas, inundações e ondas de calor com custos e danos medidos em centenas de milhões de reais. Secas severas que antes eram do tipo “uma vez por século”, em 2005, 2010 e 2016, levaram a incêndios florestais em meio milhão de hectares, além de causar a perda de produção agrícola e pecuária e de criar problemas de abastecimento de água potável. Em 2010, os custos e danos associados ao fogo totalizaram 800 milhões de reais no estado.

Em 2012 e 2015, tivemos inundações recordes na bacia do Rio Acre. O impacto econômico só em Rio Branco, em 2015, foi estimado entre 200 e 600 milhões de reais. Em 2014, a BR-364 foi inundada em Rondônia reduzindo o transporte cargueiro a 90% ao Acre, impedindo que 800 milhões de reais circulassem no estado durante meses.

Além destes eventos, produtores rurais e povos tradicionais reclamam que o calor está intensificando no campo e está ficando mais difícil saber quando plantar por causa da variabilidade de chuvas.  Vários pesquisadores documentaram que as temperaturas na Amazônia estão aumentando e no sul da Amazônia o período seco está se prolongando nas últimas décadas.

Recentemente, pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa confirmaram que no sul da Amazônia o período chuvoso reduziu quase um mês nos últimos 15 anos.  A continuação desta tendência pode limitar a produtividade em lugares como Mato Grosso e Acre, reduzindo o potencial do agronegócio.

Tantos prejuízos associados a eventos extremos frequentes levantam a pergunta: esses prejuízos vão continuar se agravando com eventos extremos nas próximas décadas?  Sabemos que fatores naturais dominam, até a lua afeta El Niños, mas será que a influência humana no clima está modificando estes fatores de maneira significativa?

Na ciência, assuntos quentes são aqueles que atraem interesse de pesquisadores porque são assuntos onde a ciência pode avançar rápido, seja na medicina, na astrofísica ou no clima.  Um destes assuntos é a atribuição de eventos extremos para saber o que os influencia.  Exemplos dessa abordagem se encontram nos relatórios anuais de eventos extremos do Boletim da Sociedade Meteorológica Americana (BAMS), uma das revisitas científicas mais citadas no mundo em meteorologia e climatologia.

Desde 2012, o BAMS publica anualmente artigos numa edição especial que analisa se é possível ou não identificar a influência humana nos eventos extremos no mundo inteiro. Até agora só nestes relatórios do BAMS existem mais de 140 artigos escritos por centenas de cientistas analisando a possível atribuição da influência humana nos eventos extremos ao redor do mundo.

Uma das dificuldades para fazer atribuições é a falta de dados históricos em algumas regiões, como na Amazônia.  Para eventos extremos de 2011 e 2012, poucos deles no mundo poderiam ser definitivamente ligados a influência humana. Para os eventos dos anos 2016 e 2017, a história foi diferente: mais da metade dos artigos demonstraram ligações, seja na chance do evento acontecer ou na sua intensidade.  As mais fáceis atribuições envolvem ondas de calor na Ásia, Alaska e Austrália, afinal o mundo está esquentando, isso observado via medidas de satélites e de estações meteorológicas.

Nas outras revistas especializadas existem centenas de artigos semelhantes, afirmando que estamos já detectando a influência humana no clima e nos eventos extremos.  Para declarar o contrário é preciso mostrar que centenas de especialistas em meteorologia e climatologia não sabem analisar dados.

A floresta não produz água, mas é um excelente reciclador, tirando água que caiu como chuva e infiltrou no solo, liberando-a para a atmosfera, permitindo que ela caia em outras partes da Amazônia.  Existem estudos que mostram que este processo de evapotranspiração é chave para iniciar o período chuvoso no sul da Amazônia.

Mexer com a cobertura florestal significa mexer com o ciclo da água, não só local, mas também no nível regional.  Se as tendências já estão preocupantes, reforçando-as via desmatamento acelerado pode alterar as chuvas na Amazônia quando as temperaturas estão subindo e o período de seca está se prolongando, uma combinação ruim para agricultura, florestas e abastecimento de cidades.

A fragilidade da agricultura e da sociedade a eventos extremos de clima já foi demonstrada nos últimos 15 anos nesta parte da Amazônia; os danos e custos têm contribuído para um empobrecimento silencioso na região.   Vamos precisar desenvolver nossa capacidade de lidar com estes eventos para minimizar os seus impactos, especialmente porque a tendência é que os eventos fiquem mais fortes e mais frequentes.

Também temos que repensar a nossa economia regional. Afinal o maior recurso natural regional reside nos seres humanos.  Existem alternativas, como a Amazônia 4.0 e a bioeconomia circular, mas elas só vão vingar se cultivarmos este recurso natural, ou seja, a capacidade intelectual e social das pessoas.

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(*) Irving Foster Brown – Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente de Pós-Graduação e Pesquisador do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre.

 

 

 

 

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