Passou a usar óculos escuros – Jornal A Gazeta

Passou a usar óculos escuros

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

O velho menino pobre e amarfanhado em canelas cinzentas de friagem já estava um tanto além da quadragésima volta ao redor do sol. Houvera, sim, como um desbravador mongol das estepes asiáticas, feito o cavalo arredio pisar sobre corações entorpecidos e lacrimejantes, como se estes fossem de pedra.

Veio, então, aquela época em que o caudilho doido por rabos de saias passou a fazer os seus atos de contrição de joelhos ao redor da cama infestada de pecados os mais vis possíveis.

Alguns o disseram em certa idade. Outros o acharam amadurecido. As contas a serem acertadas com o passado eram muitas e o papelucho do serviço de proteção ao crédito vindo do céu tinha, lá embaixo, uma assinatura incrível. Deus.

E o nosso herói pós-moderno passou a colocar na balança todas as suas estripulias, entre escapadelas e tiros pela culatra, apesar das muitas obras de boa qualidade, dentre as quais livros bem urdidos, árvores desgalhadas e uma meia dúzia de filhos bonitos, saudáveis e inteligentes.

Daí, há uns poucos dias daquele tempo marcado, alguém houvera dito dele ser um cara meramente antipático. Estava mais novo, agora. Trinta e tantos anos. A resposta veio em crônica poética linda e leve, como não poderia deixar de ser.

Acostumara-se a um fator. Sempre o taxaram arrogante, apesar da humildade, da timidez e do pouco carisma estampados na cara, essas, sim, as bases para o sucesso pela vida afora, acrescidas do poder de concentração.

Uma amiga o viu em diálogo com um vendedor de coco na praia.

– Pô! Nunca pensei que um doutor conversasse com um homem tão simples como este.

Outra moça assim falou:

– Sempre lhe tive enquanto um homem bastante antipático e, só agora, mais de trinta anos depois, descubro que por tanto tempo estive estupidamente enganada.

– É assim mesmo. Isso sempre acontece comigo. – Foi o que o velho menino magro ponderou.

A disciplina nos estudos e no trabalho veio dos tempos de colégio, quando se sentia obrigado a suplantar um irmão que, simplesmente, é, ainda hoje, o melhor aluno de todos os tempos. Seria preciso?

Mas o resultado de todo esse afinco findou por render boas notas e, depois, a aprovação em concursos públicos, o que lhe proporcionou uma vida digna ao lado dos irmãos e dos pais. Já não havia a pindaíba. A cabeça não mais estava melada de cimento, como na época em que o serviço era brabo.

Dias de glória daí em diante. Duraram até quase o início do fim da vida as eras das roupas elegantes. Passou a usar óculos escuros, então, não com a finalidade de esconder-se das ilusões da rala beleza, mas porque tinha rosácea, este, um problema que diminui o nível de proteção da pele contra os raios solares.

Os perfumes eram importados em estilo ferrari. Os músculos passaram a ser bem moldados em casas de ginástica a pesos leves, médios e pesados. Em suma, dos trinta pra trás, a vida foi-se modificando e a saúde andava em um compasso entre os cuidados básicos e a boemia.

Músculos tesos, então, passaram a exigir que a massa encefálica acompanhasse a sua protuberância. Foi aí, então, que obteve as honrarias e os títulos nas academias que lhe ensinaram a arte de entreter o tempo num constante ato de filosofar. Havia, é claro, já um amplo domínio das letras, ao lado de uma destreza retórica meio subtil, meio arraigada. O resultado foi a elaboração de acanhados versos em boa rima e parco ritmo que renderam o aplauso de alguns mais sensíveis.

E o tempo foi passando célere. De homem maduro, o velho menino magro se fez de meia idade e, logo depois, foi passando de jovem astuto a pós-adolescente.

Em síntese, ficava a cada dia mais novo e mais compenetrado diante da uma realidade: todo esse seu trajeto tinha sido mal apreciado. Olhos invejosos viam com muitas restrições o fato de um sujeito com a maior cara de pobre, de repente, passar a dar opiniões acerca dos atos dos poderosos da sua época, através de textos mal acabados escritos em jornais da província. Sim, a sua aldeia agora era composta por ricos anteriores que se tornaram pobres material e espiritualmente. Eles não viram que o sol nasce para todos, mas a sombra é para poucos. O magricela tornara-se uma dessas ratazanas do deserto que sabem muito bem dizer a que vieram, com tanta certeza, que espantam os transeuntes que não entendem o significado do progresso à custa de esforço próprio.

Agora ele já não estava na puberdade. Era uma criança.

O pai do menino arranhado e magro tinha outros quatro varões. Era um caboclo possante de largas costas e volumosos braços destes que cumprimentam a todos com muita fineza, inclusive, as crianças do lugarejo enfiado nos ermos dos sopés dos Andes. A mãe, moça fina e educada, filha de sertanejos, herdou da terra seca nordestina o gosto por aprender do muito um pouco e ensinar quase um tudo – principalmente respeito! – às crias suas nascidas na hileia verde.

Era esta, agora, a sua mais fútil infância, quando o diálogo era travado com os livros e com alguns poucos passantes das ruas, becos e caminhos íngremes da vidinha pacata. Sim, aquela era uma época em que a beleza da mata ofuscava o brilho do menino agora meio magro, meio cafuzo, na soleira da porta, nas salas do colégio ou sobre o lombo de animal veloz.

Mas havia, na rua das carambolas, certa florzinha, mais dada que maxixe em pé de cerca, por quem os sinos dobravam e a pálida poesia escorria por entre os dedos da alma abestalhada. A ninfeta casadoira não era lá essas coisas em termos comportamentais, lógico. Mesmo assim, um dia o menininho em fraldas escreveu cordel elementar a ela dedicado. Ela nunca o leu.

A prosa poética era mais ou menos assim…

Rezava a velha lenda, que por debaixo daquela tenda, apesar da pouca renda, muito iria acontecer. A santinha do pau oco quase não sai do sufoco, mesmo escapando por pouco, até que um dia casou. A mãe vivia de fazer promessa, e de esperar quase não cessa, para que chovesse homem à beça na horta da sua Flor. A menina afoita e arisca não era uma boa bisca e o que pegasse a sua isca viria a se arrepender. Comportamento inadequado, chulo o palavreado, se alguém olhasse de lado, poderia lhe ofender. E o tempo se fez urgente na cabeça de toda a gente e naquela batata quente Barnabé botou a mão. A moçoila antes dengosa logo se fez carinhosa, vindo a ficar toda prosa e o futuro aconteceu. Os dois criaram raízes, foram-se embora as crises e hoje são muito felizes conforme Deus prometeu.

Um dia, então, ele morreu de tão novo. Fora vítima de um quebranto.

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*Escritor. Membro da Academia Acreana de Letras, Cadeira 27. Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE e DOIS RAIOS DE SOL E MEIO PALMO DE LUA, romances, disponíveis pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro e na plataforma do Clube de Autores.

 

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