Por quais trilhas aqui chegastes – Jornal A Gazeta

Por quais trilhas aqui chegastes

Já se haviam passado doze milhões de anos do início da grande marcha. Aqueles homens e mulheres de olhos oblíquos tiritavam de frio. O deslocamento, vagaroso e intermitente, atingiu, pois, a parte mais a leste da região caucasiana e das estepes siberianas. Eles buscavam chegar cada vez mais longe rumo a um oriente qualquer. Mesmo que alguns fossem se estabelecendo e abandonando a grande marcha, a cada período, a turba andarilha alcançava um novo ponto de chegada e de consequente partida. Um dia, enfim, viram um mar cinza, espesso e congelado.

O vento cortante assobiava e corria livre pela planície. Com a mesma velocidade, subia e descia as montanhas cinza azuladas e voava rasteiro acima do mar encrespado e sem beleza alguma. Apesar de sabedores das adversidades do ambiente, mais de quinhentas famílias por ali mesmo armaram tendas e passaram a domesticar e a criar ovelhas da neve. Daí, então, nasceram milhares crianças com o decorrer dos séculos. Foram estes os antecessores dos nativos mais tarde denominados chukchis.

Depois de cruzarem o rio Anadyr, a partir da península de Kamchatka, expedições de todo tamanho se aventuraram mar adentro e não tardou nem cem anos e já fizeram, enfim, a travessia para o continente hoje chamado americano.

O menino e anjo aqui conhecido como Zé das Arreatas via e tomava nota de tudo. Estava atento desde milênios. Era espírito insondável, mas cheio de sabedoria. Uma verve satírica tomava conta das suas anotações.

Então, começava o povoamento das américas. Os ricos já se sobressaíam, como se tornou óbvio pelas eras que se seguiram e ainda hoje demarcam a experiência humana na Terra. A soberba e a ambição começaram a se propagar. Poderosos se tornaram donos de uma terra que não era deles. Era dádiva da Criação.

É dessa época, pois, um relato segundo o qual um homem muito rico, de nome Wallychacktas, sisudo e desligado feito um camelo, encontrou um servo seu bastante pobre, de nome Lopodorus e, muito garbosamente, já foi tascando pergunta insólita:

– Ó, meu bom Lopodorus, estás muito magro, mas eu não me importo com isso, já que trabalhas só pela comida. Quero mesmo é saber como é que vai a sua prole. – Disse o homem rico conhecedor dos segredos da língua nativa cheia de traquejos. – Ao que o pobre empregado respondeu laconicamente:

– Ó, meu dono e senhor Wallychacktas. Louvado sejais. Folgo muito em ouvir o seu interesse em querer saber alguma coisa sobre esta humilde pessoa. Devo lhe dizer que a minha prole é pequenininha menor que um polegar, mas funciona bem e todo ano há berro de menino novo lá em casa. Eu e a véia já fizemos vinte e cinco filhos. Somos ricos de filhos. É uma coleção que dá água na boca de qualquer tabaréu.

De outra feita, era verão pleno e a temperatura andava aí pela casa dos dez graus abaixo de zero. Eis que o amo encontrou o pobre serviçal na confluência de dois campos de feno, nos territórios dos métis e dos inuítes, os povos mais antigos que habitaram a região do atual Canadá. A ceifa houvera sido prodigiosa, tempos bons eram aqueles em que nada faltava para os mais abonados, mas aos despossuídos, como sempre, sobrava esforço, suor e sangue derramado muitas vezes sem nenhuma razão porque, como sempre, a superior maioria dos soldados, no campo de batalha, luta sem nenhuma razão que os leve a exatamente compreender as guerras que empreendem, como no caso do país vizinho, onde a grande mídia manipula geral e diz quais caminhos os homens comuns devem trilhar, cegamente, feito o gado que vai para o abatedouro sem saber porque seguir por aquelas vias de fato que lhe significam o fim de tudo.

Então, o dono da colheita e dos demais seres das redondezas, ao ver a esposa do empregado tomar chegada, disse:

– Percebo que a sua mulher, meu bom homem, já está grávida do vigésimo sexto filho. Sei que todos são fortes e trabalhadores, com raras exceções. Vejo que os rapazes e as moças de mais idade também já têm os seus rebentos, o que dá um novo alento ao meu exército de escravos dóceis e saudáveis. Porém percebo que tens um bom número de filhos e deves refrear os seus ímpetos, sossegar o facho, congelar a libido e parar por aqui. Você fala que gosta muito do esporte e diz que não sabe como parar de fazer menino. Mas eu lhe digo que há saída bem interessante. Minha comadre, por favor, não seja besta e preste muita atenção: quando a senhora vê que o seu bom marido já está revirando os olhos, basta escorregar rápido, dar um passa fora e sair de debaixo dele. Pronto.

Ao que ela respondeu:

– Ora, meu amo e senhor. O certo é que o bode não desceu, a regra de novo falhou e eu estou buchuda mais uma vez. E olhe que não tem escapatória, não. Quando esse homem danado está revirando os olhos, eu já estou é cega, desmaiada, lascada, sem fôlego e a goela seca de tanto prazer, oxente!

***

Relatos rocambolescos à parte, importa é que a marcha ia prosseguindo. Séculos e mais séculos. Alguns dos caravaneiros dos milênios sem fim ficaram no Alaska. Outros subiram as montanhas canadenses e descobriram, do outro lado, um pouco mais ao sul, as florestas mais geladas da face da terra.

E a jornada milenar é eterna, porque a cada dia um novo interesse transmite incentivo, a ambição se revigora e move o humano em busca de mais aventuras que signifiquem lucros materiais. Daí foi que a anaconda, serpente gigantesca da Amazônia, foi se vingando aos poucos e, a cada bote que dava, comia de dez ou mais dos mais oportunistas.

Mas a terra era inóspita. Nenhum homem havia, antes, ali colocado os pés. E o rumo sul era agora o destino. Chegariam em poucos séculos às montanhas que ainda hoje se estendem desde o Canadá à Patagônia.

A partir do Alaska e Canadá, estava iniciado o povoamento das américas. Os primeiros habitantes, depois chamados índios, viveriam no seu habitat natural por vários milênios, mas, um dia, tudo seria diferente, porque aqueles que hoje se dizem donos da terra foram saqueando, matando e roubando sem dó nem piedade.

Então, o anjo, aqui denominado Zé das Arreatas, quando de um dos seus périplos pela terra, já estabelecido à beira de um rio caudaloso, nos sopés dos Andes, em sonho legendário, olhou para dois nativos da sua mesma etnia e tribo, e perguntou:

– Argandoña e Chacktas… Por quais trilhas aqui chegastes?

Ao que um dos irmãos respondeu:

– Também sou um anjo que, como tu, vem das primeiras eras da civilização. Enfrentei os grandes animais. Vi irmãos serem triturados por dinossauros e répteis voadores. Enfrentei mastodontes e gorilas apenas com um machadinho de pedra lascada à mão. Sou de um tempo em que todos tinham a pele azeitada e os olhos não eram tão oblíquos, ou amendoados. Só depois que atravessamos o mar no rumo do Iêmen foi que passaram a ser constituídos os sete povos que habitaram a terra dali em diante. Metade dos irmãos tomou o rumo leste e a outra metade tomou o rumo oeste. Foi logo depois da grande travessia que, pela primeira vez, eu vim ao mundo em missão especial. A tarefa era ajudar a povoar o planeta em órbita já há alguns milhões de anos.

Em verdade, ainda hoje assim caminha a humanidade, em busca de novas fronteiras onde as suas ambições possam ser cada vez mais e mais alimentadas.

Pra onde ides?

Oh, céus!

 

*CLÁUDIO MOTA-PORFIRO

Assuntos desta notícia