Saúde do professor: um cuidado que precisa de prioridade – Jornal A Gazeta

Saúde do professor: um cuidado que precisa de prioridade

O sonho de ser profes sor começa cedo, na infância. Em uma brincadeira inocente, a criança pega seus ursinhos de pelúcia, mistura com os demais brinquedos e coloca-os sentadinhos, comportados, enfileirados como se fosse o ‘faz de contas’ de uma sala de aula. Daí começa a lecionar para os seus alunos inanimados e tudo se transforma em diversão. Nasce daí o nobre ofício de ensinar, que ela vai levar talvez para a vida inteira.

Eis que o sonho começa a pesar. A realidade do professor não é tão fácil como a brincadeira. Os ursos tornam-se meninos “respondões”, talvez na fase mais complicada de indisciplina de suas vidas, que incitam desordem e desrespeito na classe, além de contar tudo para ‘papais ursos’ intransigentes. Ah, e tudo isso aliado à pressão de prazos por planejamentos de aulas e entrega de notas de provas corrigidas. A rotina da sala de aula vai pesando para o professor, até que os problemas de saúde vão começando a aparecer. E muitos são irreversíveis.

De acordo com o setor de lotação da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Rio Branco possui atualmente aproximadamente 608 casos de professores afastados de sala de aula. E esse é só o cenário da Capital.
Pensando nesta realidade, a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) aprovou, e já foi sancionada pelo governador Tião Viana em 27 de abril deste ano, a Lei Ordinária n. 3.249/2015, de autoria do deputado Chagas Romão. A Lei institui a Semana da Saúde do Professor na rede estadual de ensino, como uma forma prática de prevenir doenças e para abrir os olhos da comunidade escolar sobre os riscos à saúde deste profissional.

A lei possui sete artigos. A campanha será implementada no período que abrange o dia 15 de outubro, Dia do Professor (art 1º). Terá por finalidade zelar pela saúde dos professores da rede estadual, através de palestras e exames médicos (art. 2º), sendo tais palestras ministradas por profissionais de renomada reputação (Art. 3º), escolhidos pela Secretaria de Saúde do Estado (Art.4º). Dentre os exames obrigatórios, os incisos do Art.5º lista de sangue, fonoaudiológicos e oftalmológicos, além de consultas com psicólogos, caso seja constatada tal necessidade.

De acordo com o deputado propositor, Chagas Romão (PMDB), a proposta da lei é criar uma preocupação constante com a saúde do professor, um profissional muito importante para a sociedade acreana e que necessita de cuidados mais urgentes. “O professor não tem tempo para se cuidar. Os que atuam no ensino integral, por exemplo, saem de casa às 7h30 da manhã e só voltam às 17h. É uma carga horária muito pesada. Que tempo ele tem de ir ao médico?”

Como a Lei foi sancionada em abril, a realização da semana deve ficar para 2018, já que o planejamento da SEE é realizado no início de cada ano. Contudo, segundo a coordenadora de Humanização do órgão, Ednilza Rocha, no próximo dia 27, os professores serão o público alvo do Circuito de Saúde, em alusão à Semana do Servidor. Durante o dia todo, os funcionários terão acesso à vacinação e atendimento médico na sede da secretaria.

Chagas Romão conta que a ideia em propor a lei foi amparar categoria, que sofre com muita pressão nas escolas

Problemas mais recorrentes provocados em sala de aula

A diretora da Escola estadual Leôncio de Carvalho, Rossylene Araújo, conta que os professores se sentem desamparados em relação à sua saúde. “Todo professor é doente. Aqui na escola o que eu mais vejo são professores com doença na coluna, por ficarem muito tempo em pé, e na garganta/cordas vocais, por terem que competir com o aluno para falar em sala de aula. E esses são os problemas físicos. O professor também sofre um alto nível de stress, que o leva à depressão, ao esgotamento mental e até aneurisma”.

A diretora acredita que, para esses casos mais recorrentes, os professores deveriam receber mais assistência, seja com maiores descontos em consultas e exames particulares (da parte do sindicato da categoria), ou seja, com acesso mais célere ao sistema público de saúde. A oferta de psicólogos e fisioterapeutas logo no começo dos problemas também ajudaria bastante.

“O desconto que dá o sindicato da categoria é muito pequeno. Deveria haver um plano de saúde específico para os professores, com valores mais acessíveis pelo menos nestas especializações de garganta e coluna. E, se formos para o sistema público, o sistema é devagar. As doenças dos professores avançam num ritmo muito maior. Em um posto de saúde, o tempo de espera para consulta chega a três meses, e para tirar e levar exames é mais dois, o que faz o exame muitas vezes ficar vencido. Chegar a um médico é um caminho difícil”, comentou.

Outro importante aliado na sala de aula para desgastar menos o professor, além de somar para a qualidade das aulas, são os recursos tecnológicos. O professor dando aula com microfone, por exemplo, exige menos da sua voz. Mas, a diretora Rossylene diz que, para a demanda atual de turmas atendidas pelo professor, tais recursos são insuficientes. É preciso investir mais neles. Na Leôncio de Carvalho são 1.748 alunos, distribuídos de manhã, tarde e noite. A escola possui 4 multimídias (equipamentos para projetar aulas igual ao datashow, só que já vêm com o teclado). O ideal seria a escola ter de 10 a 14.

A questão previdenciária também pesa. Atualmente, desconsiderando a nova reforma, o professor precisa ter 25 anos em sala de aula e idade mínima de 50 anos para se aposentar. O problema é que, com 15 anos de serviço, o professor já está exausto, com rendimento em classe menor do que o habitual, alto stress e baixo domínio nas turmas.

Uma educação doente é uma educação sem voz

Ao lado do quadro, uma professora tenta explicar o conteúdo aos mais de 30 adolescentes aglomerados em uma sala de aula. A voz dela praticamente desaparece em meio ao barulho emitido pelas vozes de alguns estudantes que, por falta de interesse, interrompem-na sem parar. No teto, ventiladores trabalham para manter o local arejado, mas sem sucesso. Todos ali estão suados e fatigados. Contudo, a docente detém o conhecimento e não abre mão de repassá-lo aos jovens que ela acredita serem o futuro.

A realidade da sala de aula, para alguns profissionais, pode levar a doenças, que, se tratadas preventivamente, poderiam ser evitadas.

Mas, esse não foi o caso da professora Maria José da Silva Alves Quintela, 39 anos, e dos quais 15 deles foram lecionando Geografia para jovens da educação pública. Ela teve a voz parcialmente danificada devido ao uso constante e ao esforço na escola.

“Comecei a sentir dificuldades há quatro anos. Sentia que a voz falhava quando eu estava falando, até ficar afônica. Certo dia, após dar aula, peguei um ônibus e quando cheguei em casa e fui falar com os meus familiares, a voz não saiu. Esse foi o primeiro susto”, relata.

Maria José pensava que aquilo era apenas reflexo do cansaço causado pelas longas jornadas de trabalho. “No ano letivo seguinte, voltei a piorar. Então, decidi procurar o médico. Ele falou que eu estava com as cordas vocais bem machucadas, com nódulos nos cabos vocais. Ele me indicou a fonoterapia. Mas, isso só foi possível porque eu tenho plano de saúde. Não procurei o sistema público de saúde. Tenho uma colega que está enfrentando um problema semelhante na voz, e que até agora não conseguiu agendar a fonoterapia pelo sistema público”.

Apesar do tratamento, Maria José não mostrava melhoras, mas isso se explicou depois que a fonoaudióloga descobriu que ela continuava trabalhando. A professora não havia se afastado antes, pois levaria falta ou teria que repor as aulas depois.

O médico da professora lhe concedeu um laudo de afastamento imediato da escola, para que pudesse dar continuidade ao tratamento. Com o papel em mãos, ela procurou a Junta Médica, onde alega ter encontrado apenas hostilidade e falta de empatia. “Ela pegou o laudo, leu e depois olhou no fundo dos meus olhos e disse: isso não é problema para que você fique sem trabalhar. Eu então perguntei, quase sem voz, se ela acreditava que eu tinha condição de trabalhar daquele jeito. Ela me respondeu: minha filha, aqui eu sou o Estado”.

Ainda assim, a médica decidiu afastá-la por 30 dias. Sem apresentar melhoras, Maria José permaneceu fora de sala de aula por três meses. Depois precisou voltar para o trabalho, onde lecionou por mais um ano.
Uma nova crise levou Maria José a ficar completamente sem voz. Foi daí que a professora ficou em disfunção, ou seja, foi realocada a outro cargo dentro da escola.

“De volta à Junta Médica, a doutora que me atendeu disse que eu devia ficar em disfunção por definitivo, pois, se eu continuasse em sala de aula usando a minha voz, esse problema poderia continuar, inclusive, tornando-se algo mais grave, como um câncer. Mas, até chegar nisso, foi uma situação traumática pelo atendimento que recebi.”
Há quase dois anos, ela atua no laboratório de ciências e de informática da Escola Estadual Leôncio de Carvalho. “Até hoje, quando encontro meus alunos do 6º e do 7º ano nos corredores, eles brincam dizendo que acabaram comigo. Na verdade, em sala de aula, você tem que competir com a voz dos alunos. Eu queria passar o conhecimento, mas o barulho, geralmente, é excessivo. Sinto falta do carinho dos alunos. Claro que têm alguns agressivos com você. Mas, em contrapartida, têm aqueles carinhosos, que chegam para você com chocolate, com cartinhas. Esses momentos são gratificantes”.

Com doença degenerativa, professora dá adeus à sala de aula

 

Profa Claudete Amorim diz sentir falta da sala de aula; mas ela sabe que a sua saúde não vai permitir um retorno

Francisca Claudete da Silva Cabral Amorim, de 41 anos, é professora de português desde 1998. Assim como Maria José, ela também apresentou problemas de saúde devido à rotina escolar. Há um ano, a docente está em disfunção após ter sido diagnosticada com degeneração discal. A doença foi um ponto final na sua paixão pela sala de aula.
Claudete encontrou inspiração para ser professora dentro de casa, ainda pequena. Todos os irmãos escolheram essa profissão, e com ela não foi diferente.

Para melhorar a remuneração, a professora já chegou a dar 10 horas de aula em um só dia, além de trabalhar em cursinho pré-vestibular à noite. Eram horas em pé e, claro, em algum momento o corpo iria pedir mais atenção.
“Como sou professora de língua portuguesa, sempre andei com muitos livros. A gente tem que estar corrigindo redação o tempo todo. Em tudo trabalhamos com prazos e o professor, além das horas em sala de aula, ainda leva serviço para casa. Em 2013, descobri que estava com hérnia de disco porque eu estava com muitas turmas para dar conta de organizar diário de classe, corrigir provas e redações, além de somar as notas. Então eu fiquei dois dias seguidos só fazendo isso. Eu levantava apenas para fazer minha refeição e voltava. No terceiro dia nesse ritmo, quando fui levantar, não consegui. O médico teve de ir à minha casa e identificou o problema”, relata.

Com o aumento dos problemas na coluna, Claudete precisou ser afastada da sala de aula. Há um ano, ela atua na coordenação pedagógica da mesma escola onde lecionava.
“Essa é uma profissão onde se adoece muito e outro tem que cobrir aquele horário em sala de aula. Mas, logo esse outro professor adoece também. É massacrante. Na maioria das profissões, quando acaba o expediente, a pessoa vai pra casa e descansa. O professor não pode. Ele vai para casa com provas e trabalhos para corrigir e aulas para planejar.”
Claudete critica a falta de acompanhamento à forma como o professor executa o seu serviço. Ela acredita que as escolas precisam de profissionais como fonoaudiólogo e psicólogo para atender os docentes.
“Nós, professores de língua portuguesa, tínhamos quatro turmas antes. Após algumas mudanças, agora nós temos que dar conta de cinco turmas por turno. Com o tanto de professores que têm, cada um pegando uma turma a mais é uma economia para o Estado. Mas será que é uma economia mesmo? Esse professor com cinco turmas, será que ele não vai adoecer mais rápido? Não só fisicamente, como no meu caso, mas mentalmente.”

Ciente de que não poderá mais voltar para a sala de aula, Claudete revela sentir falta, apesar de todas as dificuldades enfrentadas. “Claro que agora, na coordenação, eu não preciso mais corrigir provas. Contudo, o aluno pode não perceber, mas a gente está o tempo todo aprendendo com eles”.

Secretaria de Educação afirma que acompanha todos os casos

 

A coordenadora de Humanização da SEE, Ednilza Rocha, afirma que o acompanhamento da saúde do professor é feito mediante diagnóstico. Contudo, isso só acontece quando a situação chega até o setor. É o caso de pessoas com problemas psiquiátricos, que são encaminhadas ao Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac).

A SEE possui o projeto Qualidade de Vida do Servidor, que é coordenado pela Humanização. Dentro desse plano, a secretaria realiza duas vezes por ano o Circuito de Saúde, para alcançar os professores e servidores. “Sempre que somos procurados, marcamos consultas clínicas, psiquiátrica, psicológica, tratamentos terapêuticos com massagens, por exemplo. Alguns trabalhos são em rede, ou seja, encaminhamos para a saúde ou parceiras como a Uninorte, Faao, Sesc Saúde, Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (Urap) Augusto Hidalgo de Lima e etc. Mas são as escolas que nos procuram ou solicitam na SEE. Os servidores também dispõem desse serviço coordenado pela Humanização. Hoje atendemos muitos professores e servidores na sala de psicologia, tanto nas escolas como na SEE. São todos acompanhados por psicólogos, pois dispomos de um consultório na sala multifuncional, com psicólogos, pedagogos e educador físico”.

Questionada sobre o fato de os professores terem pouco conhecimento e acesso a esses serviços, Ednilza garante que o trabalho desenvolvido pela Humanização é de ampla divulgação. “Os gestores sabem que existe a Coordenação de Humanização. Ela pertence à Diretoria de Inovação. Atendemos os casos quando somos solicitados, pois muitas vezes não possuímos as informações para dar assistência necessária. Se nos procuram, aí sim procuro acompanhar os professores naquilo que se faz necessário. O secretário de Educação, Marco Brandão, também se preocupa com qualidade de vida dos servidores. Quando chega alguma demanda nessas situações, ele pede para encaminhar para a nossa coordenação”, explica.

Profa Maria José conta que se ainda estivesse dando aulas, correria o risco de pegar até um câncer na garganta

608 é o número aproximado de casos de professores afastados de sala de aula devido a problemas
de saúde, somente em Rio Branco.

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