Semeadores de florestas – Jornal A Gazeta

Semeadores de florestas

Entre tantos atributos das florestas do Acre, destaca-se um que merece comentários e atenção. Trata-se da importância dos macacos na manutenção das nossas florestas.
No Reino Animal os macacos são os parentes mais próximos dos humanos. Sabe-se que nós compartilhamos, em alguns casos, 99% dos nossos genes com os símios. Quem afirma esse parentesco é a genética, para horror dos criacionistas que se consideram descendentes de Adão e Eva. Nós humanos, junto com os macacos, pertencemos ao grupo dos Primatas. Darwin já havia inferido que os homens e os macacos tiveram uma origem primitiva comum. Esta briga é velha!
O Estado do Acre é considerado um “hot spot” para muitos grupos vegetais e animais. Com relação aos Primatas não humanos, o Acre ocupa um lugar de destaque. Um verdadeiro ‘Planeta dos Macacos’. Aqui são encontradas cerca de 22 das quase 130 espécies de macacos que ocorrem no Brasil.
Vamos nomear e qualificar os que nos parecem ser os mais conhecidos primatas da nossa terra. Alguns deles podem ser vistos no Mini-Zoológico do Parque Ambiental Chico Mendes, mantido pela Prefeitura Municipal de Rio Branco.
Talvez o guariba ou capelão (nome científico: Alouatta seniculus) represente bem o grupo. Os guaribas são conhecidos pelo seu “ronco” que saúda as alvoradas e o pôr-do-sol. O ronco dos guaribas, que pode ser ouvido até 5 km de distância, é produzido em uma caixa de ressonância na sua garganta e quem ouviu jamais esquece! Esta caixa de ressonância é recomendada pelas “rezadeiras” para ser utilizada como copo para beber água: quem bebe água no gogó do guariba não terá problemas de garganta.
Outra estrela dos primatas não humanos do Acre é o macaco aranha (n.c.: Ateles chamek). O aranha ou macaco preto é exímio em utilizar a cauda como um quinto membro enquanto se desloca pelos galhos das árvores. Ele é muito curioso e destemido e nas matas em que ainda ocorre costuma vir bem perto balançar galhos das árvores para ‘amedrontar’ e expulsar os invasores do seu território. Por isso é quase sempre o primeiro a ser eliminado pelo seu parente Primata humano. Sua presença na mata indica que a floresta foi pouco mexida, indicando que a caça no local é em geral abundante.
No grupo dos maiores, junto com o guariba e o aranha, está o macaco barrigudo (n.c.: Lagothrix lagothricha). O barrigudo é considerado preguiçoso e quando criado em casa, com os humanos, gosta muito de se embalar em uma rede.
Os guaribas, como de resto todos os outros macacos de grande e médio porte, são abatidos aos milhares em toda a Amazônia para suprir os humanos de proteína animal. Só escapam os que não valem um tiro! Uma iguaria da cozinha regional – olhe o IBAMA pessoal! – é a carne de macaco ao leite da castanha. Mas se for para levar em uma viagem, é preferível “moquiar” os bichos.
Apesar de todas as espécies de macacos serem especiais, existem os mais-mais. Entre os mais especiais e pouco conhecidos no Acre, está o macaco cara-de-sola (n.c.: Cacajao calvus), que no Acre ocorre apenas no Parque Nacional da Serra do Divisor, nas várzeas do Rio Moa e afluentes. O nome cara-de-sola deriva do fato de sua região facial, fronte e parte anterior do crânio ser desprovidas de pelos. Sua cauda é “cotó” (curta) e geralmente andam em grupos de até 50 animais.
Mais-mais também é o sagui-branco do Juruá (n.c.: Saguinus sp.). Pode-se imaginar a maravilha de um bando de macaquinhos brancos pulando na copa das árvores. Os soins brancos podem ser vistos ao longo do Juruá, nas margens de seus afluentes como o Tarauacá, Gregório e também no Muru e Envira. Poderiam ser considerados duendes da floresta.
Um dos macacos mais inteligentes e por isso muito utilizado em Laboratórios de Psicologia é o conhecido macaco-prego (n.c.: Cebus apella). Além de inteligente, se diz que ele é muito libidinoso e na presença de humanos do sexo feminino costumaria ficar com o pênis ereto. Para encerrar a história do macaco-prego, lembramos que no Acre são duas espécies de macaco-prego, o cairara (n.c.: Cebus albifrons) e o prego propriamente dito. Uma espécie que pode andar em bandos mistos com os macacos pregos e os cairaras é o macaco de cheiro (n.c.: Saimiri boliviensis).
Uma espécie que só ocorre no Acre e sul do Amazonas chama a atenção pelo seu bigodão branco: o bigodeiro. Por causa do bigode este macaquinho recebeu o nome científico de Saguinus imperator. Os Saguinus são vários, imperator só o bigodeiro.
Nas florestas do Acre vive também o segundo menor macaco do mundo, pesando cerca de 100 g. Este é o leãozinho ou leão-de-taboca (n.c.: Cebuella pygmaea). Dizem que algumas mulheres costumam esconder o leãozinho em sua cabeleira, ao mesmo tempo que recebe abrigo, o macaquinho vai limpando as lêndias e catando os piolhos.
A lista dos macacos do Acre é maior. Só para citar, entre outros, o zogue-zogue (Callicebus spp.), o parauacu (Phitecia spp.) e o macaco da noite (n.c.: Aothus nigriceps).
Em um Estado que em passado recente adotava o lema “Governo da Floresta”, além das plantas, os macacos também devem ser protegidos. Afinal os macacos são os plantadores de árvores. Primeiro se alimentam dos frutos e depois, andando pelas copas, semeiam a floresta, deixam cair ou defecam longe das árvores mães as sementes. Na floresta em pé os macacos devem estar presentes para perpetuar o ciclo natural.
Alguns dos macacos aqui citados podem ser observados, em grandes e iluminados recintos, no Parque Ambiental Chico Mendes. Dos maiores, o macaco-prego, o aranha e o preguiçoso barrigudo. Dos pequenos, o bigodeiro, o de cheiro e leãozinho.
Sugerimos uma visita ao Parque Chico Mendes para ver de perto, entre outros bichos, alguns dos macacos semeadores de nossas florestas.

Para saber mais: Bichos na Escola – Os primatas. 2008. De autoria de Calouro, A.M., Souza, L.A.M., Marciente, R., Cunha, A.O., Faustino, C.L. Publicado pela UFAC e Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Rio Branco.

 

*Alceu Ranzi é paleontologista e professor aposentado da Universidade Federal do Acre.
**Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC.

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