Seringal Albrácia – Jornal A Gazeta

Seringal Albrácia

 A poeira é quase areia, de manhãzinha, nos caminhos e varadouros do campo e da mata. Pés descalços pisam-na e a sentem friinha. Há orvalho nas sororocas e mata-cavalos e cipós de fogo. A caminhada é ainda lenta e preguiçosa. Tenho treze anos, sou criado na cidade e, em vista da falta de hábito, ainda estou um tanto sonolento. O roçado não é tão longe. Eu e minha tia levamos uma enxada e um terçado, cada um. O primo de doze anos vai à frente portando uma espingarda calibre 28. Há tatu, paca, cotia, mutum, cancão e muitas imbiaras. A intenção é que nós, os menores, revezemos a enxada que vou levando.
De cima de um morrete, avisto a plantação. Aos meus olhos é gigantesca, e muito sozinha. Há mandioca de fartura. Há bastante cana caiana, algumas ainda pendoando. Há velhos pés de milho sobre os quais o feijão amadureceu. Há tocos e troncos de árvores mortas, enegrecidas pelo fogo do roçado, sobre os quais o feijão gurgutuba já está seco e em ramas emboladas, pronto para ser batido. É julho no seringal.
A grande roça de macaxeira deve ser conservada limpa a enxada, por obra das mãos grossas de minha tia, irmã de minha mãe, uma índia grande, bonita e de cabelos longos e brilhantes em banha de porco perfumada. O feijão deve ser levado para a barraca, mas só a partir de amanhã, terça. Na sexta, cortaremos e transportaremos cana no lombo do Fogoso, um burro bastante dócil, quase preguiçoso e, no sábado, faremos uma grande moagem para a produção de rapadura, mel, alfinim e açúcar gramixó… Bom é lembrar que a bóia, o pão nosso do almoço e da janta, fica por conta de Maria José, minha prima de sete anos apenas… Espírito e coração de valentes!
É terça de manhãzinha e o caminho orvalhado é o mesmo. São seis e meia e já estamos colocando a rama do feijão seco sobre uma velha lona. Às nove, de posse de cacetes de maçaranduba, passamos a bater na trouxa amarrada onde os feijões se soltam das vagens. A russara dá coceira no corpo inteiro do aprendiz da vida dura. É isso o dia todo; também na quarta e na quinta. Acabamos, enfim. Agora, tudo fica por conta da tia índia que, habilmente, sacode o gurgutuba no ar, a partir de uma peneira grande, com a finalidade de livrar-se dos restos de folhas e gravetos.
É sexta e a faina dobra porque, a partir das cinco da manhã, já é hora de ir para o roçado cortar a cana, cedinho, para pegar menos russara.  É muita cana. O burro Fogoso dá umas vinte viagens, cada uma, carregando umas cem ou mais. A tia foi cortar uma estrada de seringa e nós, meninos, de tarde, vamos colher o látex com o qual será feita uma bola de jogar e uns sapatos de seringa caprichados. O tio está azeitando as moendas e limpando o vasilhame a ser utilizado na moagem, inclusive o tacho.
Dormirão na Morada Nova  –  nome da colocação  –  o Aprígio, o Arigó, o filho do seu Salvador e um peruano conhecido por Valvito. Chegaram já era tardinha para botar força na engenhoca.
Às três da manhã, faz um frio da peste, no dizer do tio Perneta. Porongas e lamparinas iluminam a madrugada. Os quatro homens se abraçam com a engenhoca; e haja força. Eu, o primo Ireno e o menino do seu Salvador ficamos pegando o bagaço para devolvê-lo à minha tia, esta, encarregada de, mais uma vez, enfiá-lo nas moendas gritantes. Às dez, a parte mais pesada está concluída. É hora do fogo no tacho. É a vez de a minha avó mostrar todo o engenho e a arte nordestinos para dar o ponto na garapa que vira mel. E é abelha pra todo lado! Agora mesmo uma me pega pelos beiços que logo ficam por acolá. Doeu que só o cão!
Domingo não é dia de trabalho. É dia de divertimento. Por isto, a pedida é pescar no igarapé Miguel Doido. Fomos de manhãzinha… Comemos traíras fritas fresquíssimas com feijão e arroz. Dos deuses! Conversamos potoca, chupamos laranja e li folhetos de cordel para o grupo sentado na beira da barraca. (Só eu sabia ler.) Agora, colocamos arreios em dois potros, para os mais novos. O tio monta uma égua quase dourada de nome Lalinha. Na primeira arrancada rumo à porteira, de repente, eis que a minha montaria estancou e eu fui cuspido indo ter com as fuças numa toceira de capim santo. Fiquei todo ralado. É pra aprender, diria o meu pai.
É Domingo novamente. É bom chegar ao barracão do Albrácia aí pelas oito para uma pescaria no rio Acre ou no igarapé Morro Branco, porque os adultos ainda não estão bêbados. Depois, a cachaça corre farta e, lá pelas cinco quase seis, passou por mim um pai trambecando, com um garotinho de uns dois anos num jamaxi, uns três outros meninos ou meninas, a pé em suas roupinhas quase andrajosas, e a ainda jovem mãe atrás da turminha tão triste. E pensar que o pai, naquele estado, está acostumado a atravessar as famigeradas pontes, no escuro, e as crianças também, inclusive, o que vai dormindo no jamaxi. Se morre, não sabe nem porque já está no céu e já tem asas. Ó Deus de misericórdia!
Num desses domingos, o menino do comboieiro Guilherme, de uns onze anos, campeava o gado e viu um seringueiro bêbado querendo atravessar o igarapé Morro Branco. O homem disse-lhe que jogasse a corda amarrada na chincha do burro; ele se amarrou pela cintura e saltou no igarapé em repiquete, pela última vez, o burro empacou, não saiu do lugar e o Zé Vaz morreu afogado deixando a mulher e oito filhos. Ó céus!
O parapeito é quase uma instituição seringueira. De tardezinha, aos domingos, é praxe ficar ali planejando não-sei-o-quê. Eles sonham em “derribar” a casa de palha e fazer uma nova, coberta de zinco, o sonho de qualquer morador da mata.
Fato é que, depois, a madeira foi comprada e serrada, o zinco também. E tudo ficou aguardando o verão, época em que seria tornado realidade o grande sonho. Mas veio o infausto. O menino mais novo, de criação, acendeu um cotôco de vela por sobre uma barata cascuda. Esta, num piscar de olhos, subiu pelo barrote da casa velha, foi pela parede de paxiúba e, enfim, alcançou a palha seca. Pegou fogo a madeira. O zinco derreteu. O sonho ruiu. Fazer o quê! Findaram por comprar uma casa “na rua”, em Xapuri.
No aceiro do campo, perto da cerca, há uma cajazeira enorme, onde os meus tios depositam quase sempre um copo de cachaça em honra do caboclinho da mata, uma entidade dita espiritual em que a seringueirada toda acredita, apesar dos milagres de São Sebastião, o guerreiro que, lá de cima, nos livra da onça, da cobra ou da queda de uma ponte qualquer, estas, sempre feitas de um só troco de bacaba ou patoá ou jitó ou manitê. São tantas, principalmente no inverno.
Atividade difícil também é cortar cavaco para o defumador. O instrumento é o machado sobre o qual também tenho alguma habilidade; mas o corte na árvore já derrubada deve ser milimetricamente calculado, a olho, de forma a que o cavaco saia perfeito para os fins que lhe cabem. Há uma certa árvore cujo lenho faz mais fumaça que as outras na hora da coagulação do látex. Vai-se pela floresta adentro até encontrar o bendito pé de breu rosa.
Todo o relato acima data de três ou mais décadas de vida de uma família que, como tantas, sonhou que sonhou, mas realizou quase nada ou muito pouco. Os igarapés, os varadouros, o verde, os roçados e aquela gente concreta, hoje, já não são os mesmos. Viraram defuntos que já não sonham mais, com raras exceções. O próprio barracão do Albrácia ruiu há uns trinta anos.
Antes tão rijo e sonhador, Raimundo Nonato, o velho tio cearense, de Morada Nova, ficou cego devido a fumaça do defumador que lhe envenenou os olhos. Depois, emagreceu, arqueou pra frente, arranjou uma bengala e, enfim, morreu, na Rua Major Salinas, em Xapuri.  Com a velhinha, minha tia, um ano depois, aconteceu o mesmo.
São vidas de pessoas humílimas que também contribuíram com o seu esforço e o seu sangue para a honra e para a glória desta terra de caudilhos.

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