Tempo de menina-flor – Jornal A Gazeta

Tempo de menina-flor

Se eu pudesse viveria de novo ao menos um daqueles dias no quintal da minha avó, no Maranhão, onde minha família passava as férias.
Bem diferentes dos quintais de grama e canteiros do Sul, região onde eu vivia, os terreiros de lá tinham o chão de areia e eram varridos, como reza a tradição nordestina. Havia muitas árvores e animais, o que os tornava um reino para as crianças.

Os troncos da goiabeira eram o meu lugar preferido, com seus galhos lisinhos, perfeitos para a gente subir – eu e as minhas amigas. Mas goiaba, que é bom, em julho nem pensar! Que tudo tem seu tempo.

No fundão, as bananeiras, já no limite com a rua de trás. Que aura de mistério tinha aquele lugar! A gente ia até lá e voltava logo, com medo, vai saber de quê? E tudo era parte da magia da infância. Que já adentrava a meninice.

Pois uma tarde meu irmão veio para o quintal com os companheiros, que eram amigos das meninas também. A gente ficou contente de se reunir, conversou e deu risada junto.

De repente, deparei com um deles, o que eu achava mais bonito, olhando-me atenta e suavemente, como se estivesse me descobrindo. Era um olhar tão doce, satisfeito e afetuoso que me fez sentir muito especial. Retribuí com um sorriso um pouco desconcertado.

Mas o brilho da sua expressão me cativou. Ainda hoje na memória, seu encanto vem me espreitar e sua pureza me arranca lágrimas. É, certamente, um dos momentos mais estimados da minha vida.

Depois disso, a gente nunca mais se olhou como antes. E agora entendo que foi naquela tarde que eu comecei a ser mulher.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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