Viva o Zé Pereira, viva o Carnaval! – Jornal A Gazeta

Viva o Zé Pereira, viva o Carnaval!

Quem vai ao ar perde o lugar. Quem vem ao vento perde o assento. Mas ele apenas houvera ido ao mictório. Só. Estava trôpego, é fato, mas tratável, carinhoso e com o coração de aluguel cheinho de paixão até o gargalo. Certo é que perdeu um dos seus grandes amores pelas esquinas e nesgas desta vida, ou ela se escondeu dele debaixo da mesa do uísque. Também, pudera. A treta fora arranjada ali mesmo, no meio do Carnaval. Daí foi que veio um arlequim com jeitão de travesti e levou a colombina com cara de mamãe-eu-quero-mamar. Ninguém pode dar bobeira. Piranhas e traíras são compradas, pela hora da vida, ali mesmo, no mercado branco de Ouagadougou. É dos cacetes.
Então, lá na freguesia amada e encantada, onde ele nasceu e se criou, nos sopés dos Andes, cinco ou seis semanas antes da festa de Momo, organizavam-se os tais ranchos carnavalescos nos domingos à tarde. Tudo era um grande furdunço ao som do Zé Pereira, dentre outras centenas de marchinhas. Até porque lá não era Macondo e ninguém viveu cem anos de solidão, numa alusão ao Gabriel.
Os caras começavam os preparativos etílicos já depois do almoço, ou antes até. Enchiam as pipas e a cara de cachaça com limão. A maioria dos festeiros era formada por homens que carnavalizavam pelo meio da rua, enquanto as mocinhas e mães de família, com as suas crianças, seguiam o cortejo pelas calçadas. Uns poucos participavam do rancho em roupas comuns, ou apenas de calção. A maioria usava máscaras feitas a partir de formas de barro e com caras de bichos, e roupões, com a intenção de não se fazerem reconhecer pelos demais. Eram todos uns pândegos.
Cabaças retiradas das árvores e postas ao sol durante as semanas anteriores eram pintadas e, também, transformadas em máscaras. A alegria e a molecagem eram a tônica do folguedo. Todos se esbaldavam no estilo foi numa casca de banana que eu pisei, pisei, escorreguei, mas não caí, quando a turma lá de trás gritou…
Uma das irmãs mais velhas de nome Regina, pois, pegou as mãos dos dois moleques e foi ver o rancho, já à tardinha. O garoto anotador só observava e, de vez em quando, balançava, cuidadosamente, um pandeirinho de plástico duro e quebradiço que lhe dera o pai. Foi quando ele viu os três mosqueteiros bêbados, ou os três patetas no Carnaval. Uma graça.
Seguiam lado a lado, na maior pagodeira. De repente, o movimento do cortejo os obrigou a ficar quase em fila. Foi aí que o Clóvis, que ia no meio, teve a infeliz ideia de pegar na bunda do Emílio, que odiava esse tipo de brincadeira. Este se virou e enviou um potente murro no rumo de trás. Foi quando o Clóvis se abaixou e quem se apresentou foi a cara do Manoel Sodré. O menino observador riu tanto que se mijou. Mas tudo continuou dentro da maior normalidade.
Todos ali eram muito amigos uns dos outros, a não ser no dia em que um português correu atrás do primo, também de Portugal, com uma vassoura para fazer saneamento em dívida em litígio antigo no meio do Carnaval. Mais galhofa. Mais risos. Eles, nas suas atitudes e nos seus sotaques, eram muito engraçados, como também eram pilhéricos e sisudos os muitos turcos ali residentes.
Havia um moço que atendia pelo pomposo nome de Trepa Moleque. Pense num cara morto de gaiato. Ele ia fazendo macaquices na frente dos músicos da bandinha municipal treinada e afiada, mui especialmente, para a série de eventos anuais que terminavam na quarta-feira de cinzas pela manhã.
Um dia, o Zé, recentemente chegado do seringal, foi ver o rancho e se arrependeu. Um sacana mais velho, negrão, de nome Canela, amarrado pela cintura, usava uma máscara de macaco perfeita, fazia todas as macaquices e percebeu que o menino seringueiro estava com medo. Em acordo com Chico Pepé, que lhe segurava a corda, de repente, o macaco gigante se soltou e correu atrás do Zé. Este meteu o pé na carreira e quase chega em Brasileia. Nunca se viu cabra mais assustado.
Já adolescente metido a esperto e bacana, o menino das observações fartas se meteu no meio do Carnaval. As quatro noites requeriam planejamento e ensaios. O bloco era formado por uns quarenta romanos, e romanas, com louros na cabeça e roupas de lençol branco presas ao ombro por broches dourados comprados em Cobija. Um luxo.
Acontece que a animação exigia um tal esquenta, na base da caipirinha, ou batidas de maracujá, bem antes do baile. Então, a jaca já se tornava democrática e todo mundo enfiava o pé era de com força. Mas isso não era para os fracos.
Neófito nessas incursões, a estreia foi um grande tropeço no batente da porta do banheiro, que lhe fez bater com a cabeça na parede. Confiado não se sabe em quem, ele ingeriu marias e clarices, além dos teores etílicos. Para completar, nem eram vinte e duas e ele já estava lavando o peritônio com uma latinha de cerveja que lhe dera o augusto dono da casa onde ocorria a preleção bafônica. Dois ou três soluços compassados e ele partiu sem freios no rumo do dáblio cê. O juízo rodava feito o carrossel dos infernos. Enfiaram-no, solenemente, debaixo de um chuveiro acima de esforçado, onde ele ficou sentado no chão, prostrado, por uns quinze minutos, talvez. Na saída do sacrifício, veio o bom homem e ofereceu-lhe umas duas cheiradas numa feliz latinha de almoníaco. Alvíssaras! Estava quase curado.
Mas a jaca tornara-se ainda mais democrática. Depois da cura abençoada, o novato ficou com a maior cara de bundão. Agora, todos se acotovelavam à procura de uma solução para problema tão grave. Estavam ligeiramente aflitos, posto que todos bêbados.
Foi aí que o homem dos dedos emendados salvou a pátria dos cachorros:
– Tome um copinho duplo dessa batida de maracujá.
Dito e feito. A alegria sumida deu as caras outra vez. O paraíso estava recuperado e nada estava perdido, enquanto havia a esperança de estar a velhinha viva na barriga do lobo. Ora, pois-pois!
À meia-noite, a horda romana adentrou o salão de baile do bilhar clube. Tudo paulado. Ainda haviam uns bacanas que cheiravam a tal de lança perfume, um artefato argentino comprado aos bolivianos. Era já a última noite de folia e bebedeira. E quase que não se acaba mais. Um Deus nos acuda!
O cara ainda hoje perde a quilha facilmente. Ele encarou a ninfeta, piscou, sentiu a alma diáfana da danadinha, e já estava novamente apaixonado. Ela olhou de soslaio e tentou até sorrir, e sorriu bastante. A musa com cara de mamãe-quero-ser-pura agarrou a mão do anotador de bebedeira e sumiu com ele do meio da rua onde se dava a despedida do Carnaval. Foram pra Veneza.
Era chegado um tempo de longa espera. Em quarenta dias e quarenta noites, enfim, viria o sábado de aleluia e a bagaceira também não seria amena.
Tudo são coisas do meu querido rincão amazônico. São tradições que, infelizmente, não se aguentam e morrem por culpa de ninguém, talvez.

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