Você tem fome de quê? – Jornal A Gazeta

Você tem fome de quê?

Este texto surgiu dos escombros de uma parte significativa de nossa memória, aquela que queimou no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Quando labaredas destroem o acervo de uma instituição que guarda a memória, o patrimônio e/ou representações de nossa cultura, nós, brasileiros e brasileiras, morremos um pouco também.

Também morremos um pouco todas as vezes que o acesso à cultura é negado aos jovens, crianças, adultos e idosos, principalmente àqueles que moram nas periferias. E digo isso porque, para mim, é difícil imaginar qualidade de vida, justiça social e equidade sem o incentivo e a garantia do acesso democrático à cultura. É possível que alguns vejam com ceticismo a afirmação que acabo de fazer. Ou, pior, que considerem ingenuidade de minha parte falar da importância da cultura para alcançar a justiça social. Mas já vivi o suficiente para ver, na prática, a força transformadora que o apoio às artes e à cultura pode gerar na vida de uma comunidade, de uma família, de uma criança, de um jovem.

Quando fui prefeito de Rio Branco me emocionei todas as vezes que tive a oportunidade de assistir as apresentações do Clube de Talento, um projeto que implantei na época, e que levou, a bairros periféricos de nossa cidade, aulas gratuitas de música (violão e percussão), teatro, dança, pintura, capoeira, xadrez e informática para crianças e adolescentes, de 7 a 17 anos.

Quantos talentos foram descobertos apenas com esta iniciativa! Eu lembro algumas histórias, entre as quais a de Kelly, que chegou ao projeto sem saber quase nada de Xadrez, e, em 2006, aos 12 anos, venceu os jogos escolares nesta categoria e representou nosso estado em nível nacional, ficando na vigésima posição. E o Antônio, um ex-aluno do Clube do Talento que acabou virando professor de percussão do projeto, ensinando, a outras crianças e jovens, as maravilhas da música.

O projeto Ciranda da Leitura, também implantado quando estive à frente da Prefeitura de Rio Branco, é outro exemplo do quanto o mundo se alarga quando apostamos e damos oportunidade de acesso à cultura. Com ele, alunos e alunas das escolas da rede municipal descobriram o prazer da leitura e viram os personagens de suas histórias favoritas ganharem corpo em apresentações que uniam técnicas circenses e teatrais – só em 2006, foram realizadas 20 mil apresentações do Ciranda da Leitura! Nesse mesmo período, desenvolvemos, no Centro de Multimeios, outros três projetos pelos quais sinto grande carinho: a Mala de Leitura, o Música Viva e a Brinquedoteca, todos voltados para crianças do Ensino Fundamental I.

À frente da prefeitura de Rio Branco, tive ainda a alegria de ver ser criado e implantado o Sistema Municipal de Cultura (Lei nº 1.676/2007) e a Lei Municipal de Patrimônio Cultural (nº Lei 1.677/2007). Pude apoiar também a articulação da Rede Acreana de Cultura, formada por diversas instituições, como a Fundação Garibaldi Brasil (FGB), Fundação Elias Mansour (FEM), Ministério da Cultura/AC, IPHAN/AC, SEBRAE, SESC, SESI, Licenciatura em Música/UFAC, Centro de Multimeios/SEME e Sistema Estadual de Comunicação. Isso sem falar nas três Conferências Municipais de Cultura (2007/2009/2011); na reativação do Memorial Raimundo Irineu Serra (2009); na transformação do Parque Urbano Capitão Ciríaco em Museu a céu aberto (2009); e na criação de novos espaços culturais, como a Casa de Cultura Dona Neném Sombra, no bairro Quinze, e o Centro de Tradições Populares – Quadrilhódomo.

Como deputado federal, não arredo um palmo da crença de que a cultura é fundamental. Por isso, continuo apoiando iniciativas que promovam as artes e a ocupação de espaços públicos, como o Cacimbão da Capoeira, com atividades de música, teatro, dança, leitura e o que mais encher a alma de nossa cidade, fazendo-a transbordar de alegria e esperança. Porque uma cidade, um estado, um país que não valoriza sua cultura e memória são lugares inóspitos. Como terra seca, onde não brotam flores nem frutos.

Acho que foi no final dos anos 1980, se não me falha a memória, que os Titãs lançaram “Comida”, música cuja letra era uma crítica à sociedade e ao cenário político da época. Hoje, passados mais de trinta anos, percebo, não sem tristeza e apreensão, que nós, brasileiros e brasileiras, enfrentamos novamente um momento onde é preciso gritar a plenos pulmões: “A gente não quer só comida/A gente quer comida/Diversão e arte”.

*Raimundo Angelim é economista, professor da Universidade Federal do Acre e deputado federal pelo Estado do Acre.

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