Vozes da Amazônia são ouvidas na preparação do Sínodo – Jornal A Gazeta

Vozes da Amazônia são ouvidas na preparação do Sínodo

No dia 15 de outubro de 2017, o Papa Francisco anunciou a realização de um Sínodo Especial dos Bispos da Pan-Amazônia, território que compõe a região além da bacia dos rios. Realizar-se-á em outubro de 2019 em Roma, cujo tema é: “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Mas o que é o Sínodo? A palavra “sínodo” vem de duas palavras gregas: syn, que significa “juntos”, e hodos, que significa “estrada ou caminho”. Logo, o Sínodo dos Bispos pode ser definido como uma reunião do episcopado da Igreja Católica com o Papa para discutir algum assunto em especial, auxiliando o Santo Padre no governo da Igreja.

O Sínodo dos Bispos foi instituído pelo Papa Paulo VI com o Motu próprio Apostolica sollicitudo, de 15 de setembro de 1965.

Mediante o Sínodo da Amazônia, lembramos nosso pai São Francisco de Assis para este momento de nossa Igreja na Amazônia: sabemos que São Francisco é o Patrono da Ecologia. Que ele é o Santo inspirador de muitas ou quase todas as pessoas que se envolvem em trabalhos, em movimentos que se dedicam aos cuidados e à conscientização da necessidade de tratar bem as criaturas, no sentido de tornar a vida mais saudável e possível no planeta. Mas, por que São Francisco é considerado o protetor das criaturas?  Será que no tempo em que ele viveu havia problemas ecológicos como estes que nos deparamos hoje?

Vejamos: no tempo de São Francisco, não se questionava sobre a Ecologia. Hoje, sim, este tema é bastante discutido, dialogado e estudado. O nosso querido São Francisco não precisou passar pelos trabalhos de despoluir rios, denunciar indústrias causadoras de poluição, e tantas outras formas de degradar a natureza.

São Francisco, pela sua experiência, pelo seu “relacionamento fraterno e harmônico com todas as criaturas, e mais ainda com os homens, porque reconhece com alegria que todos são frutos e sinais do único amor de Deus…, aceita e retribui o serviço fraterno das criaturas, evitando a tentação egoística de apropriar-se delas e instrumentalizá-las” (Dicionário Franciscano pg. 833).

Neste sentido, São Francisco colocou as bases, as fundamentações para o cuidado com a Ecologia. E, mesmo que não estejamos vendo as criaturas que são nossas irmãs sendo destruídas, este Santo será sempre uma inspiração para nos relacionarmos bem com elas.

Já trazendo para as reflexões do Sínodo especial, partindo de um território específico, pretendemos superar o âmbito estritamente eclesial para não dizer eclesiástica, e também amazônico, por serem relevantes para a Igreja universal e para o futuro do planeta. “Considero (a Amazônia) relevante para o caminho atual e futuro, não só da Igreja no Brasil, mas também de toda a estrutura social”. Disse o Papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude – JMJ 2013 no Rio.

Se na Encíclica Laudato Sí’, o Papa Francisco considera que as mudanças climáticas, a pobreza e o aumento das desigualdades sociais são desafios para todo o planeta, “também para a Igreja universal é de vital importância escutar os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia, como primeiros interlocutores deste Sínodo. Por causa disso, precisamos de convivência mais próxima. Queremos saber como imaginam um “futuro tranquilo” e o “bem viver” para as futuras gerações”. (Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, DOCUMENTO PREPARATÓRIO, 2018, Preâmbulo, p.6.).

O Documento Preparatório para o Sínodo da Amazônia, segue a metodologia, hoje tradicional e assumida nas esferas eclesiais, do “ver, julgar e agir”. Perpassa no Documento o desejo de romper com as estruturas que maltratam e destroem a vida e com os projetos e mentalidades de neocolonização. Como Igreja, é preciso fortalecer o protagonismo dos próprios povos por meio de uma espiritualidade que valoriza a gratuidade da criação e compreende a vida social como diálogo e encontro. “A Amazônia é um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja”. (DOCUMENTO PREPARATÓRIO, Preâmbulo, p. 5).

Momento de Ver – O crescimento sem discernimento das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras danificou a diversidade biológica, poluiu as águas, empobreceu as populações originárias. Ainda existem resquícios da exploração colonial que enfraqueceu as estruturas sociais e culturais dessas populações. Hoje, vítimas de um novo colonialismo, sofrem processos semelhantes que ameaçam a sobrevivência dos territórios e de seus ocupantes com sua sabedoria no trato com o seu meio de vida.

Momento de Julgar – “Um conteúdo inevitavelmente social” (Evangelii Gaudium – EG, 177) inerente à missão evangelizadora, é particularmente relevante nos territórios amazônicos, visto a articulação entre vida humana, social e cultural e os ecossistemas. A ecologia integral não é mera articulação entre o social e o ambiental. É condição necessária mas insuficiente, se falta a promoção de uma harmonia que pede uma conversão pessoal, social e ecológica (cf. Laudato Si – LS, 210).

Momento de Agir – Desenha-se uma agenda, um consenso em torno dos direitos fundamentais que inclui um desenvolvimento integral respeitando as identidades e o meio de vida dos povos.

Enfim, através deste sínodo temos a importante oportunidade para inovar a nossa Igreja presente na Amazônia, sem esquecer do pilar da Igreja Católica: Tradição, Magistério e Palavra de Deus. Agradecemos também a todos os missionários, bispos e padres, religiosos e religiosas que deram e dão a vida pelos nossos povos, defendendo nossas vidas e nossas culturas, sendo martirizados dando o sangue para banhar as terras amazônicas.

Lembramos ainda da Oração do Cântico das Criaturas, composto por São Francisco de Assis enfermo e perto da morte: Altíssimo, onipotente, bom Senhor. Teus são o louvor, a glória, a honra. E toda a benção. Louvado Sejas meu Senhor por Irmão Sol, pela Irmã Lua e as estrelas, pelo Irmão Vento, pela Irmã Água… Louvai e bendizei a meu Senhor; E dai-lhe graças; E servi-o com grande humildade… Paz e Bem.

Frei Paulo Roberto, Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – OFM Cap.

Pároco da Paróquia de Bom Jesus do Abunã em Plácido de Castro – Acre.

Assistente Espiritual do Núcleo em Formação da Fraternidade da Ordem Franciscana Secular – OFS, encontro todo 3º domingo do mês, na Paróquia Santa Inês, às 7h.

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