Escrito nos muros – Jornal A Gazeta

Escrito nos muros

Facção, até uns tempos atrás, era um problema associado às grandes cidades. Rio Branco não era lugar disso. Não mesmo! Pelo menos foi o que ouvimos das autoridades.
Sei que o Acre nunca foi perfeito, imune ao crime, mas que também passava longe de ser esse tumulto que vemos atualmente, com disputas entre facções e mortes aos montes.
Cresci rodeada de brincadeiras e diversão nos finais de semana com os primos, geralmente, no sítio dos meus avós maternos, no bairro Santa Maria. Na minha infância, a paisagem lá era bem diferente. Os olhos se enchiam de verde, campo, pasto, bois, cavalos, fruteiras, açudes e árvores gigantes e velhas. Hoje, parte disso, em toda a região, foi dividida em lotes, casas, apartamentos, tudo com cara de cidade mesmo.
Na adolescência me mudei para um desses ramais com os meus pais e passamos a morar em uma chácara. Um lugarzinho muito acolhedor e que, definitivamente, queria para mim pro resto da vida.
Hoje, já não sei se é isso o que desejo. De uns tempos para cá, a violência parece se aproximar cada vez mais do cantinho que eu considerava uma fortaleza.
Após uma visita à minha família naquele bairro, utilizei o ramal Castanheira como acesso à rodovia e me deparei com muros pichados. Já cheguei a relatar isso antes, mas as coisas estão ainda piores. Para onde se olha é possível visualizar os símbolos do Comando Vermelho (CV) e do Bonde dos 13 (B13). Parece uma disputa para saber quem picha mais casas.
Placas dos quebra-molas, muros, comércios, cercas, postes, tudo pichado com as iniciais CV ou B13. A demarcação de território lembra muito um comportamento animal.
Os jovens das escolas do bairro Santa Maria estão sendo assediados para o mundo do crime. Os mais vulneráveis entram nisso e depois não conseguem sair.
E não há como falar apenas que é falta de acesso à educação, porque isso eles têm. Sempre há vagas nas escolas e os professores e funcionários vivem se matando de trabalhar para dar o melhor aos jovens.
Não. O problema é mais complexo. Isso se revela quando o crime se torna atraente para esses meninos e meninas envolvidos com o tráfico de drogas. Eles acreditam que o crime compensa. E como não pensar isso quando criminosos não passam se quer meses ou dias presos? “A polícia prende e a Justiça solta”, pensam.
Procuram-se brechas na legislação (que sempre os dá) para liberar os presos capturados com muito esforço pela polícia. Isso porque não há vagas suficientes nos presídios. O sistema não é eficiente e precisa ser reformulado.
Até que uma solução surja, resta-nos pedir proteção divina e esperar que mais nenhuma vida inocente seja tirada no meio dessa guerra entre facções.

“Resta-nos pedir proteção divina e esperar que mais nenhuma vida inocente seja tirada no meio dessa guerra entre facções”

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