Rosalina

Postado em 27/11/2015 14:20:25

Nessa quarta-feira o Lhé me lembrou que o dia 25 de novembro marca o triste assassinato da professora Rosalina da Silveira. Em homenagem ao Lhé e à própria professora, que foi mais uma vítima inocente da violência e insanidade dos homens, reproduzo abaixo o extrato de um longo texto em que contei essa história. Uma história que nunca foi esquecida por Rio Branco, apesar de ter acontecido em 1941.

Pouca gente lembra, mas, em 1937, a penitenciária de Rio Branco foi construída no Centro da cidade (onde fica a atual Prefeitura de Rio Branco). Atrás da penitenciária ficava o pátio onde os presos todos os dias tomavam banho de sol. Como se esse pátio era cercado por alambrado de arame, Lázaro podia ver quando aquela bela professorinha saía de casa para ir dar aula no grupo escolar Sete de Setembro (onde hoje fica o Palácio das Secretarias). Aquele homem tão violento e temido pelos outros presos se via tomado por uma estranha ternura sempre que via a professora.

A jovem professora Rosalina era mesmo encantadora e dona de uma simpatia que contagiava a todos os que estivessem próximos dela. Ninguém conseguia ficar triste diante daquele sorriso que parecia acender o dia. Era bom estar perto daquela menina simples e humilde que apenas começava a tomar ares de mulher.

Lázaro nunca se iludiu ou cultivou a esperança de um dia poder dizer pra Rosalina tudo que se passava dentro dele. Mas, quando recebeu a visita do jornalista Praxedes, o único amigo que lhe visitava na prisão, contou sobre sua paixão pela professora. Praxedes ouviu aquela confissão entre atordoado e incrédulo.

Mesmo tentando chamar Lázaro à realidade mostrando-lhe que Rosalina nunca poderia lhe corresponder, Praxedes foi de certa forma contagiado por aquela fervorosa paixão e vislumbrou a possibilidade de ver seu amigo voltar a vida. E, num momento de absoluta insensatez, prometeu a Lázaro que escreveria uma carta para Rosalina em seu nome. Foi como se Praxedes tivesse descoberto, também ele, um motivo para esperar cada novo dia. Procurou se informar sobre Rosalina, seus hábitos, seus gostos e preferências.

Ao sentar para cumprir sua promessa o jornalista viu frases cheias de amor e apaixonada poesia se sucederam rápidas pelas folhas de papel. Num sobressalto, Praxedes viu que ele também estava sucumbindo à força de um amor impossível e pôs-se a chorar. A imagem de Rosalina não saía de seus olhos e lhe perturbaram a alma. Sentiu o peso de sua própria solidão, de sua vida perdida entre ruas sujas e manchetes de jornal. Suas lágrimas molharam o papel da carta que ele escrevia por Lázaro. Depois de mostrar a carta para Lázaro, Praxedes a guardou com carinho e mentiu pro seu amigo dizendo que a enviara.

Conforme se passaram os dias sem chegar resposta de Rosalina, Lázaro entristecia e se apagava cada vez mais. O jornalista começou a ficar preocupado com o que Lázaro poderia fazer. Talvez até decidisse por fim à própria vida diante de tamanha desilusão. Foi quando Praxedes cometeu seu segundo e pior erro. Decidiu responder em nome de Rosalina a carta que na verdade nunca entregou. Assim, rapidamente se passaram as semanas enquanto aqueles dois homens apaixonados mandavam e recebiam cartas de uma Rosalina que só existia em sua imaginação…

Indiferente a isso tudo, Rosalina tocava sua vida como qualquer outra moça de sua idade: Ainda mais porque os anos 40 se revelaram como tempos muito movimentados. A II Grande Guerra estourou na Europa. A borracha subiu de preço rapidamente e trouxe uma súbita prosperidade, como há muito não se via.

Não demorou muito para que, finalmente, o coração de Rosalina balançasse por um homem que se enamorou dela tão profundamente que logo lhe propôs casamento. Quando Praxedes soube da notícia do eminente casamento se desesperou. Até aqui o acaso lhe beneficiara e havia conseguido manter sua farsa de falsas cartas trocadas. Decidiu, então, escrever sua última carta falsamente assinada por Rosalina. Nela contou para Lázaro que um súbito amor havia arrebatado seu coração e, por isso, não mais poderia mais trocar correspondências com ele.

Lázaro ficou transtornado ao ler a carta de despedida daquela que, ele imaginava, havia se tornado a razão de sua vida. Gritou que a mataria e que ela nunca iria pertencer a outro homem. Praxedes, assustado, tentou acalmar a fúria cega de Lázaro e temeu pelo pior. Mas era tarde, o mal estava feito.

Porém, o destino foi ingrato e no dia seguinte à malfadada falsa carta de despedida da professorinha, Lázaro foi posto, junto com outros presos, para roçar o capim da rua onde Rosalina morava. Lázaro estava tão cego pelo ódio que quase não percebeu quando ela saiu da casa de sua mãe para ir a escola, como fazia todos os dias. Ao vê-la tão serena depois de ter escrito aquelas monstruosidades na carta do dia anterior, Lázaro sentiu seu ódio aumentar a um ponto insuportável e apertou com força o cabo do terçado com que capinava a rua.

Os outros presos que trabalhavam junto com Lázaro sentiram um peso pairando no ar. Ao sair de casa Rosalina também sentiu que havia alguma coisa errada e olhando pra frente viu aquele homem desconhecido vindo em sua direção. Rosalina ainda tentou perguntar aquele homem o que estava acontecendo, mas não conseguiu sequer articular a frase que lhe escapava dos lábios. Só teve tempo de ver o brilho da lâmina do terçado que cortou violentamente o ar para se cravar em seu coração.

A sombra que emanava dos olhos do homem mergulhado em raiva e rancor tomou conta do corpo de Rosalina. E ela caiu inerte no chão. Imediatamente os outros presos pularam sobre Lázaro e impediram-no de se matar.

Desde então o túmulo da professora Rosalina da Silveira se tornou o mais visitado do Cemitério São João Batista e muitas são as pessoas que, todos os anos, lhe fazem promessas e dizem ter alcançado, através dela, as graças pedidas.

* Marcos Vinicius Neves

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