MAGISTRADO E CRONISTA, UMA FLAUTA EM SURDINA

 
“Flauta em surdina” foi o inspirado título dado ao volume de crônicas de Homero Mafra.  A publicação póstuma dos textos, o resgate dessa obra literária tão importante deve-se ao esforço do jornalista Pedro Teixeira.  A partir das crônicas publicadas no jornal “A Ordem”, semanário editado na cidade de São José do Calçado, município de grande tradição cultural localizado no sul do Estado do Espírito Santo, Pedro Teixeira construiu um livro.  Como o próprio pesquisador registra, os tipos da gráfica do jornal “A Ordem” estavam muito usados e às vezes foi preciso “desvendar” o sentido das frases truncadas.

Publicar crônicas tão magistrais, num jornal do interior, só realça a grandeza humana e a humildade de Homero Mafra.  Ainda mais: publicar crônicas, num jornal como “A Ordem”, onde a garra e a arte do tipógrafo Jair Mello supria as deficiências e omissões da oficina do jornal…

Penso que as crônicas reunidas no livro “Flauta em surdina” têm o toque do universal, na perspectiva do local.  É como alguém que da Pedra do Jaspe ou das alturas dos Pontões, – acidentes geográficos que dão uma fisionomia surpreendentemente bela ao município de São José do Calçado, – visse todas as estrelas do mundo, numa noite clara de Verão.

Estamos diante, não de um cronista de São José do Calçado ou do Estado do Espírito Santo, mas de um cronista do Brasil.  Tivessem essas crônicas sido publicadas num jornal de circulação nacional e Homero Mafra figuraria entre os vultos maiores da crônica, em nosso país.

Sua capacidade de identificação com o povo, com os mais simples, com os mais sofridos, a sinceridade de sua dor diante da dor alheia, sua profunda solidariedade humana fazem de Homero um São Francisco de Assis da literatura.

E o mais belo, e o que justifica essa comparação entre a obra humana de Homero Mafra e a obra humana do santo de Assis – é que Homero refletiu nos seus textos os mais profundos sentimentos de vida.

Como se parece com Francisco, que conversava com os passarinhos, este Homero que compreendia tão profundamente a relação entre as crianças e os papagaios multicoloridos que elas soltavam, nas tardes quentes, para voar, com a própria alma, pelos céus da cidade.

O humanismo das crônicas também sempre esteve presente nas sentenças do magistrado. Algum dia, alguém deverá fazer com as decisões de Homero Mafra o trabalho de pesquisa que Pedro Teixeira fez com as crônicas.

Homero frequentava, com a mesma simplicidade, os jogos de futebol do “Torneio do Trabalhador”, em Calçado, a feira e os feirantes da rua Constante Sodré, em Vitória, as rodas políticas e sociais.  Em ambientes tão diferentes, o que ele buscava, no fundo, era compreender o enigma humano.

As novas gerações não o conheceram.  E é este o grande mérito deste “objeto” que se chama “livro”.  O livro revive o que se passou, restaura a memória, eterniza pessoas e coisas.

Belo serviço prestaram à cultura todos os responsáveis pela edição de “Flauta em surdina”.

É uma obra que, para quem conheceu Homero Mafra, proporciona um reencontro emocionante.  E para tantos que não o conheceram, esses jovens que estão a entrar na universidade, “Flauta em surdina” revela um escritor, um humanista, uma pessoa que sofreu, mas que, sofrendo, engrandeceu-se como “gente”.

Ele não se dizia um “crente”.  Mas não recusou o convite do Bispo D. Luís Gonzaga Fernandes para ajudar a refletir sobre o projeto de instituição, em Vitória, da Comissão “Justiça e Paz”.  Nem calou sua voz e sua autoridade moral para defender um dos membros dessa Comissão que veio a responder a processo no Tribunal de Justiça pelo fato de integrá-la mesmo sendo magistrado. Parece que se aplica a Homero uma passagem do próprio Evangelho.  Não é quem diz “Senhor, Senhor”, que entrará no Reino dos Céus, mas quem pratica a Justiça e serve ao Amor.

Homero Mafra foi um símbolo de juiz, um exemplo de ser humano, uma dessas pessoas que mantém em nós a esperança de que um mundo melhor um dia virá.
 
*João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e Professor Pesquisador da Faculdade Estácio de Sá de Vila. Autor de Escritos de um jurista marginal (Livraria do Advogado, Porto Alegre).

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