Ensino deficiente, mercado carente!

Em meio ao justificado otimismo com o ritmo de crescimento da economia brasileira, ecoa, em numerosos setores de atividade, o alerta de que estão faltando recursos humanos qualificados.

A carência inclui técnicos de produção, operações e manutenção, eletricistas, carpinteiros, secretárias, assistentes administrativos, operários, engenheiros, contadores, profissionais de finanças e de Tecnologia da Informação.

Observa-se, assim, que a falta abrange profissionais universitários, tecnólogos e técnicos, atingindo, principalmente, as áreas de produção, infra-estrutura e alta tecnologia. Não há dúvida de que esse gargalo é um dos fatores limitantes ao crescimento econômico. Bastou um bem-vindo fluxo mais consistente de expansão do PIB para que aflorasse um problema decorrente da deficiência do ensino. Um exemplo: conforme consta do Boletim da Educação no Brasil, da Fundação Lemann, na China e na Índia, que integram os “BRIC” ao lado da Rússia e de nosso país, formam-se, respectivamente, 400 mil e 300 mil engenheiros por ano.

No Censo do Ensino Superior do MEC, o último dado referente a 2008  informa que o Brasil formou, naquele ano, 47 mil engenheiros, nas diferentes áreas. No entanto, o grande desafio para graduarmos mais profissionais dessa área, bons técnicos e tecnólogos é melhorar a qualidade do Ensino Fundamental obrigatório de nove anos. Esse é o grande alicerce, sem o qual não formaremos mais engenheiros, nem teremos a mão-de-obra qualificada de que necessitamos. 

Infelizmente, o Brasil tem negligenciado a educação, que foi perdendo qualidade ao longo do século passado e deixando de ser universal. Paulatinamente, resolveu-se, a partir da década de 90, a questão da oferta de vagas, hoje suficiente para atender à demanda de novas matrículas.

Entretanto, ainda não há excelência na maioria das escolas públicas de educação básica e em numerosas faculdades, em especial particulares, conforme se pode constatar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), este para os cursos de nível supe-rior. Ademais, como se observa naquele mesmo boletim, “ainda há muitos alunos fora da escola, principalmente na Educação Infantil e no Ensino Médio, porque se perde muita gente no meio do caminho, o que resulta em uma população com baixo nível educacional e na falta de mão-de-obra”.  

É preciso encontrar soluções rápidas, considerando que os resultados de uma política pública eficaz para o ensino têm maturação de longo prazo. Hoje, com as recentes mudanças estabelecidas pelo governo, a criança ingressa no primeiro grau aos seis anos.

No total, permanece 12 anos no Ensino Fundamental e no Médio. Entretanto, ao completá-los, com 17 ou 18 anos de idade, ainda não tem uma profissão. Cursa, então, mais quatro, cinco ou seis anos de curso superior, dependendo da carreira escolhida, para, então, ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, se resolvesse hoje o problema da qualidade do ensino, o país teria os primeiros resultados positivos somente ao cabo de duas décadas.

Por outro lado, seria interessante a possibilidade de o estudante formado no segundo grau já ter uma profissão técnica, muitas vezes bem remunerada e capaz de propiciar boas carreiras, em especial se conciliadas com educação continuada.

Modelo bem-sucedido vem sendo adotado no Sesi-SP, cujos alunos do Ensino Médio podem fazer, simultaneamente, cursos do Senai-SP, aprendendo uma profissão. Estes estudantes têm condições de trabalhar em funções técnicas, suprindo a demanda de profissionais bem preparados nesse nível, enquanto cursam a universidade, da qual já sairão com maior bagagem e experiência.

A falta de recursos humanos qualificados, enfática neste momento de economia aquecida, exige que as grandes empresas mobilizem recursos significativos no treinamento e formação complementar de seus novos profissionais, suprindo, desse modo, a deficiência das políticas públicas da educação.

As pequenas e microempresas e até as médias, contudo, não têm os mesmos recursos e meios para promover qualificação profissional. Este problema limita seu crescimento, modernização e prospecção do mercado externo, pois o talento humano é um dos fatores mais decisivos para o sucesso dos empreendimentos e dos negócios.
 
*João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (EESC/USP), é vice-presidente da Fiesp, presidente do Grupo São Martinho e membro do Conselho Universitário da Universidade de São Paulo.

Assuntos desta notícia

Join the Conversation