LINHA DE CUMEEIRA

   Tenho uma antiga foto que mostra a família nuclear de meu pai, Aloísio de Almeida Vasconcelos, no florido jardim da Casa Grande da Mata Verde.
   A Mata Verde sempre será o “sonho dourado” dos descendentes de Elias Brandão Vilela, “Senhor de Engenho, em assomos de fé caridade e trabalho”, pois lá passaram os mais felizes dias de sua infância, foram educados de acordo com os preceitos da doutrina do “Meigo Nazareno”, aprenderam que as forças oriundas dos sentimentos negativos jamais serão capazes de romper os eternos elos da união e da paz e os maiores ícones da família beberam da fonte que jorrava valentia cívica e amor a Pátria.

   A foto fez explodir em minha memória, os belíssimos versos da poesia “Meus oito anos” e como já me sinto “mais para a pá do coveiro do que para o bico da cegonha”, não houve como impedir que as lágrimas incinerassem minha face.

    Fez-me, também, lembrar que a formação moral, religiosa e intelectual das gerações anteriores, que viveram no “universo dos engenhos de açúcar”, dependia do comportamento da Linha de Cumeeira da casa, isto é, da patriarcal figura do Senhor de Engenho.

   Senhor de Engenho que, no caso de meus ancestrais, trabalhou e prosperou sem que fosse necessária a ganância, a violência e a presença da nefasta e repugnante senzala: marca registrada do preconceito, da brutalidade e da falta de humanismo.

   Ao longo dos séculos vários personagens de nossa linhagem oscilaram entre simples chefe de família e amados, respeitados e conceituados políticos, seja a nível local ou nacional. Eram amados devido a sua simpatia e benevolência para com o povo; respeitados, porque possuidores de conduta ilibada e conceituados por sua bravura indômita na luta em prol da liberdade.

Infelizmente a inexorável passagem do tempo e acontecimentos inesperados fez com que muitos partissem para o Universo da Criação antes do previsível.
   Consoante a tradição, quando isto ocorria dizia-se: “quebrou a Linha de Cumeeira”. É ela que segura todo o telhado da casa. Quando quebra, tudo vem abaixo e drásticas são as conseqüências causadas pela negra e detestável acefalia.

   Nos raríssimos casos onde há o processo de renascimento, das cinzas surge à fênix, o que era continua a ser e o presente não fica órfão.

 Portanto, quem escuta as vozes do passado, as vozes da Mata Verde, não enche uma lata com vorazes cupins para corroer a Linha de Cumeeira de sua própria casa ou se arma com um serrote para derrubá-la, pelo contrário, trabalha para mantê-la onde está.

 

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS
Professor da UFAL
20.10.2010

 

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