Sapo da Amazônia lança jato venenoso sobre seus inimigos

“Não precisa se preocupar. Esse aí já ficou de manso com o tempo de cativeiro”, diz Carlos Jared, pesquisador do Instituto Butantan, segurando o sapo-cururu amarronzado.
O fotógrafo da Folha encarregado de clicar o bicho não parece lá muito convencido e prefere manter uma distância respeitosa.

É até uma atitude prudente quando o sujeito fica sabendo que o sapo em questão é capaz de esguichar veneno –mirando, ainda por cima– a uma distância de cerca de 2 metros.
Jared e seus colegas são os responsáveis por dar algum peso científico à lenda urbana (bem, está mais para lenda rural) de que cururus são capazes de acertar as fuças de um inimigo (caboclos inclusive) com jatos de veneno.

No caso da maioria dos cururus, isso continua sendo mentira –é preciso que um predador morda a criatura para que o veneno, armazenado em glândulas atrás dos olhos, caia na boca do agressor, podendo até matá-lo.

Mas o Rhaebo guttatus, espécie com ampla distribuição na Amazônia e conhecida desde o século 18, de fato é capaz da façanha.

Jared e seus colegas suspeitam que se trate de uma defesa contra predadores que usam a visão, como mamíferos, aves –e, talvez, gente.

Tudo indica que se trata da única espécie de sapo com esse mecanismo ativo de defesa, que dispara quando o bicho, normalmente discreto com sua coloração de folha seca, sente-se ameaçado.

O responsável por documentar o comportamento inusitado pela primeira vez foi Miguel Trefaut Rodrigues, herpetólogo (especialista em anfíbios e répteis) da USP.

Ele viu os esguichos no Acre, mas exemplares da espécie dão o mesmo show nas matas do longínquo Tocantins.

Antes de lançar os jatos, o bicho tenta intimidar o inimigo esticando as patas da frente, enchendo os pulmões de ar, abrindo e fechando a boca repetidas vezes, inclinando o corpo e mirando as glândulas na direção do agressor.

É a pressão do ombro do batráquio contra a cabeça que acaba abrindo os plugues que tapam as glândulas. O veneno deflagra um processo inflamatório, mas não é letal.

A pesquisa sobre o animal está na revista científica “Amphibia-Reptilia”. (Folha.com)

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