Estudo aponta alta desnutrição em crianças de Acrelândia e Assis Brasil

Nas últimas décadas foi observado um notável declínio na desnutrição em crianças brasileiras menores de 5 anos. Contudo, as desigualdades regionais persistem e a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS/Ministério da Saúde) de 2006 revelou que a Região Norte manteve o dobro da prevalência do déficit estatura e peso em relação à média brasileira. Essa situação sugere a vulnerabilidade das crianças da região às condições de pobreza, insegurança alimentar nos domicílios e precário acesso aos serviços de saúde. Diante desse contexto, pesquisadores da USP, UFAC e UFMG investigaram a prevalência da desnutrição em crianças menores de 5 anos e os fatores a ela associados nos municípios de Acrelândia e Assis Brasil, no Acre.

O estudo consistiu na avaliação de 667 crianças, sendo 49,3% do sexo masculino e 50,7% do sexo feminino. Por faixa etária, foram analisadas 246 crianças de 0 a 23 meses e 421 de 24 a 60 meses.

Os resultados indicaram que a prevalência de déficit de estatura para idade mostrou-se um importante problema de saúde pública e nutricional nos municípios estudados, com prevalência geral de 9,9%, um valor cerca de 40% superior ao observado no restante do Brasil, que é de 7%. Os fatores associados a esse déficit nas crianças avaliadas foram: pobreza, analfabetismo do pai ou padrasto, ausência da mãe biológica no domicílio, ter 2 ou mais irmãos menores e exposição ao esgoto a céu aberto no âmbito domiciliar.

Com relação ao déficit de peso para estatura, a prevalência geral foi de 4,1%, ou cerca de 108% superior ao índice nacional, que é de 1,98%. O único fator associado foi o baixo peso ao nascer. Contribui para essa situação o fato de que embora o aleitamento materno tenha sido iniciado para a maioria das crianças estudadas (97,5%), a prevalência exclusiva do aleitamento até o 6º mês foi de apenas 33,6%.

O estudo revelou que os estratos com menor renda familiar per capita tiveram maior prevalência de déficit de estatura para idade. Para os autores do estudo, a elevada proporção de pobreza no Acre pode ser considerada como o principal fator da alta prevalência de desnutrição nos municípios pesquisados.

Outros estudos realizados no Brasil já demonstraram que o incremento na escolaridade materna e aumento do poder aquisitivo entre as famílias mais pobres são responsáveis por mais de 21% do declínio da prevalência de déficit de estatura para idade no país.

A pesquisa realizada no Acre mostrou que a desnutrição infantil em Acrelândia e Assis Brasil está associada à presença de esgoto a céu aberto. Em 2000, foi estimado que apenas 34% dos domicílios no Acre estavam interligados à rede geral de abastecimento de água e 17,6% eram atendidos pela rede de esgotamento sanitário.

O estudo observou também que a ausência da mãe biológica no domicílio favorece a inadequação do estado nutricional da criança, pois as mães tendem a alocar mais recursos para a compra de alimentos que os pais.

Outro aspecto que contribui para a desnutrição é a existência de um maior número de irmãos menores, que elevam os gastos familiares e reduzem o tempo e os recursos alocados para o cuidado de cada criança.

O analfabetismo do pai ou padrasto também tem efeito negativo na nutrição das crianças porque influencia na realização de práticas adequadas de saúde e alimentação das crianças, e dificuldade na compreensão de informações orientadas pelos serviços de saúde ou veiculadas em outras instâncias.

A conclusão do estudo indica que a vulnerabilidade das crianças às iniquidades socioeconômicas e as características de famílias envolvidas na pesquisa apresentaram-se como importantes fatores associados à desnutrição infantil nos municípios de Acrelândia e Assis Brasil. (Evandro Ferreira / Blog Ambiente Acreano)

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