Comercialização é maior gargalo para pequenos marceneiros

No II Encontro de Marceneiros do Acre, a comercialização foi um dos principais problemas apontados pelos profissionais. Mesmo com todo apoio garantido pelo programa Compras Governamentais, a dificuldade em tratar das complicadas relações de mercado fica evidente.
Industri1Governador Tião Viana e representantes das principais instituições do Estado estiveram presentes no evento
É uma situação natural para um público que aprendeu o ofício quase por hereditariedade. Frases do tipo: “não sei vender”; “isso é muito complicado”; “eu sou mesmo é um marceneiro”; “marcenaria é o que eu sei fazer” são comuns nas conversas informais.

São concepções de trabalho que demonstram a dificuldade de adaptação de muitos marceneiros às novas necessidades do mercado. De uns tempos para cá, “ser um bom marceneiro” é apenas uma parte do trabalho que garante o sustento do dia a dia.

Gestão de empresas; gestão de projetos; mercado; câmbio; mercado externo; qualificação são palavras cada vez mais comuns no gerenciamento. É uma nova dinâmica ainda complexa para muitos profissionais cujos empreendimentos empregam, em média, de três a quatro pessoas em bairros periféricos das cidades.

Entusiasmo
O clima entre os profissionais presentes ao II Encontro de Marceneiros do Acre, realizado em Cruzeiro do Sul na última sexta-feira, era de entusiasmo. Isso também era algo evidente. O consenso entre os marceneiros era de que “o tratamento policialesco dado pelo Governo é coisa do passado”.

Das lembranças emocionadas de prisões “por estar trabalhando sem licença” às avaliações sobre o impacto do papel do governo na reativação do mercado, o sentimento era de superação dos problemas mais graves que atravancavam o setor.

Uma declaração que simboliza essa ideia foi dada pela deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB/AC). “Se o pessoal do Ibama ou do Imac visse uma reunião tão grande de marceneiros como essa, todos que estão aqui seriam presos. Não ficaria um”, exagerou a parlamentar. “Hoje, a situação é bem diferente”.

“Nós tínhamos um cenário conflituoso”, avaliou o procurador de Justiça, Sammy Barbosa, representante do Ministério Público do Acre no evento. “Com essas medidas concretizadas, nós estamos construindo novas referências e novos modelos de atuação entre órgãos fiscalizadores, governo e setor produtivo”.

De fato, um ano após o primeiro encontro, realizado em Rio Branco, houve uma mudança estrutural no processo de trabalho dos marceneiros. A meta do governo é licenciar todas as pequenas marcena-rias do Acre até o fim de maio.

Não é pouca coisa. Atualmente, são 144 que receberam a licença por quatro anos. Faltam 252. Com um diferencial: sem nenhum custo para o empreendedor. O governo custeia todo gasto com a burocracia. Em um ano, técnicos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, do Comércio, da Indústria e dos Serviços Sustentáveis visitaram marcenarias em todo Acre na busca de legalizá-las.

“Eles não tiveram nem que sair do local de trabalho”, afirmou o secretário de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis, Edvaldo Magalhães.

“Temos a melhor matéria-prima, mas não temos a tecnologia”, afirma governador
Durante o encerramento do II Encontro de Marceneiros do Acre, o governador Tião Viana reconheceu que o Acre não desenvolveu tecnologia no setor de mobiliário. “Temos a melhor matéria-prima, mas não temos a tecnologia”, afirmou. “Por isso, a parceria com a Escola Politécnica da Itália é estratégica para nós”.

Dez jovens serão selecionados por técnicos do Senai e da Federação das Indústrias para realizarem intercâmbio na Escola Politécnica de Milão, de março a novembro do próximo ano. A Itália é uma referência mundial em desing, um dos gargalos dos produtos acreanos. No geral, ainda muito rústicos para os exigentes padrões do mercado de móveis.

No Acre, praticamente todas as marcenarias regionais podem ser classificadas como “pequenas”: não há nenhuma com 40 ou 50 colaboradores e uma linha de produção de larga escala. Com isso, crescem em importância os trabalhos de instituições como Senai, Fieac, Funtac, Ifac na qualificação nas mais diversas frentes de atuação.

Do acabamento do produto à gestão empresarial, os pequenos marceneiros precisam de apoio.
Industri2Marceneiros mostraram-se entusiamados com novo tipo de tratamento dado pelo Governo

Compras Governamentais
– O programa Compras Governamentais, essencialmente, não é uma novidade na gestão pública. Mas, para o setor das pequenas marcenarias, já concretizou outra mudança estruturante e que reforça a discussão a respeito do papel do Estado no processo de desenvolvimento econômico.

Na prática, as Compras Governamentais, integrada ao Programa de Fortalecimento do Setor Moveleiro do Acre, deram identidade à gestão de Tião Viana no que se refere à industrialização. “O cenário é de mudança” reconhece o coordenador da única marcenaria comunitária do Acre, José Cunha. O empreendimento é patrimônio da comunidade do bairro Bahia em Rio Branco.

“As compras do Governo já valorizavam os produtos locais”, pontua o secretário de Estado, Edvaldo Magalhães. “Mas, essas compras eram feitas de forma errada porque alimentavam uma concorrência desleal com o pequeno marceneiro, além de limitar muito a atuação delas”.

Como poucas marcenarias estavam habilitadas e legalizadas, era muito reduzida a participação dos pequenos empreendimentos em licitações. As empresas que ganhavam não tinham condições de, sozinhas, atender ao pedido e partiam para a contratação dos serviços de outras pequenas marcenarias por preços muito abaixo do mercado.

Sem clientes, os pequenos marceneiros aceitavam. E o ciclo consolidava a crise no setor. É especificamente nesse ponto que a busca por um preço mínimo evidencia a função do Estado em garantir sustentabilidade econômica à cadeia de produção.

Móveis Gazin não assegura compra
Havia uma expectativa de que a Móveis Gazin, uma grande empresa do segmento varejo, anunciasse parte da compra dos pequenos marceneiros. Alegando problemas na logística e sugerindo uma certa insegurança em relação à escala de produção, a negociação foi adiada.

A realização de um estudo de viabilidade de mercado foi a condicionante apresentada para a conclusão da comercialização. É um exemplo concreto da exigência do mercado e de como os pequenos marceneiros ainda não estão preparados para esse ambiente.

A móveis Gazin possui 150 lojas espalhadas em cinco estados do país, com compras centralizadas no Paraná. A direção da empresa demonstrou simpatia e acenou “com uma possibilidade real” de efetivar as compras. Mas, necessita de mais segurança para garantir o abastecimento da rede. O superintendente regional do Senai, César Dotto, se comprometeu a realizar o estudo.
Industri3Parque Industrial de Cruzeiro, orçado em R$ 10 milhões e inaugurado ontem, deve gerar 800 empregos diretos

Parque Industrial Florestal de Cruzeiro tem 15 galpões para pequenos marceneiros
O Governo do Acre inaugurou, ontem pela manhã, o Parque Industrial Florestal de Cruzeiro. O empreendimento possui 15 galpões. O décimo sexto galpão também será dedicado ao setor mobiliário, mas com outro padrão e que servirá de suporte para outras cadeias produtivas do mobiliário.

A referência será o prédio utilizado por um padre alemão que formou várias gerações de marceneiros: o Irmão Sheng.

O Parque Industrial Florestal de Cruzeiro está orçado em R$ 10 milhões (R$ 5,8 milhões em infraestrutura e R$ 4,2 na construção dos galpões). Outros 8 empreendimentos semelhantes serão construídos pelo Governo do Acre em regiões estratégicas. O empreendimento tem 19 hectares com geração direta de 800 empregos.

Estufa e serra portátil fazem parte dos instrumentos que estarão à disposição dos 45 marceneiros que vão trabalhar no local. O Parque Industrial Florestal é resultado de um longo processo iniciado ainda na gestão do ex-governador Jorge Viana. Na gestão de Binho Marques também houve investimentos. O projeto é concluído agora, na gestão de Tião Viana.

Polo Moveleiro de Xapuri é lembrado em encontro
O Polo Moveleiro de Xapuri foi lembrado como um exemplo da inadequação do poder público para gerenciar políticas de incentivo à economia florestal. Um dos idealizadores do empreendimento, o economista e presidente do Tribunal de Contas do Acre, Ronald Polanco, justificou o fracasso do projeto.

“A demora na liberação das licenças dos planos de manejo foi crucial”, afirmou Polanco. “Recentemente, eu fiz um levantamento e constatei que de 1995 a 2007 foi liberado apenas um plano de manejo por ano”.
Para o presidente do TCE e um dos mais qualificados entusiastas da Economia Florestal na região, essa situação demonstra que as próprias instituições públicas precisam se “preparar melhor” para atender à demanda do setor florestal.

O Polo Moveleiro de Xapuri também foi apontado pela gestão do então governador Jorge Viana como um modelo de desenho de gestão que unia a participação da iniciativa privada (com a presença da griffe Ethel Carmona), do poder público (Governo do Acre) e da participação comunitária (pequenos marceneiros, alguns com qualificação também na Itália e com orientação de marceneiros italianos).

A demora na liberação do plano de manejo foi tamanha, lembra Polanco, que a empresária teve que se socorrer ao insumo de Rondônia para manter a linha de produção e atender aos pedidos.

ENTREVISTA

Secretário fala em criação de um ‘Selo Acre’ e minimiza valor de certificação

Em entrevista ao jornalista Nelson Liano, da Rádio Juruá FM, o secretário de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis, Edvaldo Magalhães, questiona o valor dado pelo mercado aos produtos certificados e sugere a criação de uma certificação com padrões acreanos.
Industri4Edvaldo Magalhães: “devemos ter a certificação Acre”

Passado um ano depois do primeiro encontro de marceneiros, qual o gargalo que ainda não foi resolvido?
Nas diversas frentes que eu considero prioritárias, há duas que eu considero as mais importantes. A primeira delas é a do licenciamento da atividade: nós fizemos um pacto para licenciarmos todas as marcenarias do Estado do Acre. Antes desse programa de governo, o proprietário tinha que dar 50 mil viagens na sede do órgão licenciador e gastar pelo menos mil e oitocentos reais com taxas e recebia, depois de mais de um ano de tentativa, uma licença que valia apenas por um ano. Visitamos todas as marcenarias em todos os município e montamos o processo de cada uma. O marceneiro não precisou sair de casa. Nós atingimos cerca de setenta por cento dos processos. Metade já foi entregue. Faltam trinta por cento. Até o fim do mês de maio atingiremos os cem por cento.

O maior problema do marceneiro foi matéria-prima. O que tem sido feito para resolver?
Você foi direto ao ponto. A vida de muito marceneiros foi muito atribulada em função dessa questão da matéria-prima. Como explicar que uma pequena marcenaria consume por ano cerca de 10 metros cúbicos de madeira deve se submeter a uma multa exarcebada porque aquela madeira não tinha documento de origem. E não tinha o documento de origem sabe por que? Porque o colono de onde se extraiu a madeira estava com o processo de manejo emperrado e resolveu vender antes de sair a licença! Essa situação nós resolvemos enfrentá-la de frente sem dar rodeio na conversa. Chamamos o Sindicato das Indústrias Madeireiras do Acre e os empresários que têm os maiores planos de manejo e fizemos um pacto. Eles estavam vendendo o metro cúbico da madeira de lei para os marceneiros de seiscentos a setecentos reais. Quando, na verdade, o marceneiro comprava madeira ilegal de quatrocentos reais. Fizemos um pacto e mudamos isso. Foi tabelado em 400 reais o preço do metro cúbico da madeira cerrada.

O mercado, principalmente o mercado externo, faz muita restrição à origem da madeira. Se não houver certificação esse móvel tem valor menor. O móvel do Acre é feito com madeira certificada?
Todo nosso mobiliário produzido no Acre é de madeira que tem origem porque é fruto de plano de manejo. A madeira certificada tem em dois lugares do Acre: em Xapuri, no Seringal Cachoeira e na Floresta Estadual do Antimary. Temos que acabar com uma certa ilusão em relação à certificação. Hoje, a certificação ainda não abre mercado. Ela não é competitiva. Não dá ganho para o proprietário da madeira certificada e também para quem faz o móvel. Estive na Itália agora e visitei uma das maiores indústrias que utiliza madeira certificada. O proprietário disse que, da Amazônia, ele só compra madeira certificada, mas não paga um real a mais pela madeira manejada porque tem um nicho de mercado que só se interessa por essa madeira com certificação.

O que deveria ser destacado no processo de certificação não são as condições de trabalho e o retorno inclusive financeiro para as comunidades?
Isso vai ser a nossa pauta no próximo ano sobre a certificação. Sabe qual é a marca que nós devemos ter? Devemos ter a ‘certificação Acre’. Nós temos que criar a nossa marca.

O gargalo em relação ao acesso à madeira legalizada é responsabilidade da inicia-tiva privada?
A iniciativa privada deu um passo. A grande indústria madeireira ficou com o foco para os grandes negócios. Ela não queria parar uma linha de produção para atender aos pequenos. Para fazer isso, cobrava mais. Fizemos um pacto e o preço baixou. Quando tivemos a primeira grande encomenda feita pelo poder público de quase cinco milhões de reais, através da Secretaria de Estado de Educação, esses grande pro-prietários de serrarias foram salvos pelos marceneiros para poder pagar décimo terceiro de fim de ano. Já tem empresa montando uma nova estrutura só para atender ao  pequeno marceneiro.

Quando o acreano vai voltar a comprar móveis de madeira? Ainda é muito caro e estamos nos acostumando ao MDF.
Isso é terrível. Estamos criando as condições para que isso seja resolvido logo. Este ano mesmo nós já vamos ter uma mudança de comportamento. Como nós vamos baratear? Só quando tivermos escala de produção. Os nossos polos moveleiros são para isso.


 

VALE DO JURUÁ

Falta de escala na produção leva Governo a excluir sementes caboclas de feijão

ITAAN ARRUDA
Ainda neste mês, o governador Tião Viana entrega quatro toneladas de semente de feijão da espécie carioquinha e quatro mil toneladas de calcário para correção da acidez no solo. A medida deve beneficiar os agricultores do Vale do Juruá.
Industri6Adel Ferreira Abdalantunt: consumidor estranha produto ensacado na cooperativa

Internamente, a entrega dessa espécie causa um certo desconforto nos técnicos do Governo. A espécie carioquinha não guarda nenhuma relação com a cultura do povo do Juruá. Os quatro mil quilos da semente foram comprados do Mato Grosso. Mais um motivo para o desconforto.

Técnicos agrícolas apoiam o argumento de que “o produtor do Juruá defende a semente cabocla há mais de cem anos”. A “defesa”, na verdade é consequência do isolamento geográfico a que a semente cabocla ficou submetida. Eles afirmam que a comercialização de uma semente que não tem a ver com a cultura do produtor local se deve à falta de produção de sementes em escalas.

Esse problema poderia ser resolvido com a atuação de instituições como a Embrapa, Ufac, Ifac, Funtac. A existência de um banco de sementes que desse segurança e garantisse a produção em larga escala de sementes possibilitaria a sustentabilidade da produção do feijão do Juruá, de reconhecida qualidade.

Mas, as pesquisas direcionadas, se existem, não estao sendo aplicadas junto aos agricultores da região. Sem sementes caboclas, o arranjo improvisado do Governo foi comprar direto do Mato Grosso.
Atualmente, são 13 espécies de feijão plantadas na região, sobretudo no município de Marechal Thaumaturgo. Os agricultores da região desenvolveram a técnica de plantio de feijão na praia que mantém o mercado abastecido durante boa parte do ano.

A pressa em relação ao plantio do feijão tem motivo: a entre safra do plantio do coco. Atualmente, o Vale do Juruá tem previsto 590 hectares dedicados ao coco (em 2012, o Governo do Acre quer plantar 40 mil mudas de coco). Enquanto a safra não vem, a área pode ser produtiva e rentável com a plantação de uma leguminosa. Com isso, o solo vai sendo nitrogenado e garante incremento na renda do pequeno produtor.

“Depois, nós pretendemos fornecer sementes para plantio do milho também”, afirmou a gerente regional da Secretaria de Estado de Agropecuária, Ireni Uchôa. A Seap aplica a política de apoio ao pequeno agricultor do Juruá em parceria com a Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof).

Em uma colheita mecanizada, chega-se a usar 35 quilos de sementes para cada 1,5 hectare. Na colheita manual, são necessários 17 quilos de sementes para cada hectare.

Falta de escala: problemas na comercialização
Dois dos três maiores supermercados de Cruzeiro do Sul e também no Mercado do Agricultor já não existe mais o feijão ensacado pela central de cooperativas Coopersonho, de Marechal Thaumaturgo. Tantos os gerentes de atendimento quanto os feirantes afirmam que compram “do marreteiro”.

A ausência do feijão empacotado nos mercados e feiras faz parte de uma estratégia do governo que sabe da rejeição do consumidor em relação ao produto empacotado industrialmente. A venda do feijão ensacado na Coopersonho é realizada fora do Juruá.

Para agregar valor e estruturar a cadeia produtiva do feijão (e também da farinha), a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis fez um convênio de R$ 755 mil para montar a indústria de empacotamento de grãos que fica na Cageacre.

A ideia era preparar a central para ter condições de participar das chamadas públicas e poder comercializar o feijão e a farinha com a Secretaria de Estado de Educação, o maior cliente do pequeno produtor no Acre.
Com 38 anos vendendo feijão na Feira do Agricultor, Adel Ferreira Abdalantunt é categórico. “O consumidor que compra aqui quer que nós mesmos ensaquemos”, assegura. “O feijão que já vem ensacado ele estranha. Acha que é de outra região do país”.

OPINIÃO

Risco Bolívia

ITAAN ARRUDA
A restatização da empresa espanhola TDE faz parte de mais um triste capítulo da história capenga do capitalismo sulamericano. E ajuda a consolidar um consenso: o alto risco de se investir na região. A expropriação da empresa faz parte de uma estratégia que mistura interesses políticos do presidente Evo Morales e tentativa de reverter a impopularidade crescente.

A TDE administrava 73% das linhas de distribuição de energia no país. O desenho, por si, já demonstra também outro problema: o quase monopólio da empresa. Mas, o ritual de quebra de contratos é o que assusta possíveis investidores. Mais de 99,9% do capital da empresa pertencia à empresa espanhola Red Electrica Española.

A estatização de uma empresa como estratégia de reeleição dá um tom perigoso à solidez dos investimentos. A quebra de contratos traz, sempre, instabilidade para o setor empresarial. E, paradoxalmente, se a empresa vai mal, a classe trabalhadora, consequentemente, agoniza.

O governo argumenta que investiu US$ 220 milhões na geração de energia e defende que a empresa espanhola não chegou a investir nem US$ 81 milhões desde 2002. A Rede Electrica Española possui investimentos também na Argentina e Brasil.

É bem verdade que o arroubo de reestatização do presidente Evo Morales guarda coerência com o discurso. Morales sempre teve essa postura em nome de uma suposta defesa do interesse público. Quem investe US$ 1 dólar no país, já deve saber do risco.

E o pior é que essa postura que ainda encanta muitos pensadores de esquerda ganha adeptos na região. A última novidade veio da Argentina com a reestatização da empresa petrolífera YPF.
O Brasil faz a sua leitura do capitalismo tupiniquim. Capengando ou não em um “capitalismo de baixo risco”, ao menos vai seguindo o cumprimento dos contratos. Já é um avanço. Uma ilha rodeada de um espírito envelhecido por velhas convicções.

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