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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

Viagem das palavras no mundo que fala português

 No texto de hoje, trago aos leitores exemplos de palavras que viajam pelos países da lusofonia, em especial Angola, Portugal e Brasil e ganham, em cada país, um significado diferente.  Essa mudança de sentido é conhecida por ‘variação diatópica’ da língua. Essa variação pode ser lexical ou fonética. Aqui, os exemplos são de variação lexical.

Bicha – em Angola designa o homossexual. Em Portugal diz-se “paneleiro” e no Brasil é “bicha, veado, baitola”.

Barona – em Angola  significa  “garota bonita”. No Brasil se diz “gata, mina, avião”. Em Portugal “menina bonita, rapariga”. No Brasil, “rapariga” é uma palavra pejorativa.

Chana – em Angola  significa “savana”, ou seja, designa uma vegetação. No Brasil, em algumas regiões, é uma gíria para designar a genitália feminina.

Contratado  – eufemismo que substituiu o termo escravo, no trabalho compelido a que os africanos nativos estavam sujeitos nas roças e fazendas, durante a época colonial do Estado Novo (regime Salazarista) português. No Brasil, chegou o “escravo”.

Comboio mala – designação do comboio (trem) que transportava as malas do correio. Permaneceu em Portugal “comboio” e no Brasil  “trem”.

Semba – palavra que significa “umbigada”. O ” semba”, dança praticada em Luanda, deu origem ao samba brasileiro. Em vários momentos da dança os pares trocavam umbigadas. Trazida para o Brasil, por escravos oriundos de Angola, modificou-se e mudou de nome.

Kizomba ou “Quizomba”- palavra que foi usada no tema de carnaval da escola de samba Unidos de Vila Isabel, no Rio de Janeiro em 1988, é um tipo de música e dança angolana. Usa-se, no Brasil, a palavra “Quizumba”, designativa de confusão.

Quilombo – palavra originária do quibundo, dialeto africano, para designar “capital, povoação”.  No Brasil ganhou a significação de “refúgio para escravos fugidos”.

Tukeia ou tuqueia – Peixe lacustre das anharas (savanas) do leste da Angola.

Sanzala  –  palavra de origem angolana, com variação de “senzala”, que significa cidade, aldeia africana. No Brasil, passou a designar o galpão onde dormiam os escravos.

Pirão ou funji – comida tradicional angolana.  É uma espécie de papa, preparada com  fubá ou farinha e, com este sentido, é palavra também empregada no Brasil. Aqui criou-se o ditado “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, significando que, em épocas de dificuldades, busca-se primeiro satisfazer a si próprio e depois aos outros.

Moleque – palavra originária do quimbundo “mu’leke” = menino. No Brasil, assumiu, no correr do tempo, inúmeros significados, carinhosos ou pejorativos, conforme o emprego. Pode ser uma forma de tratar qualquer menino, independente da cor da pele ser branca ou negra, não necessariamente pejorativa. Pode, ainda, significar um indivíduo brincalhão, engraçado. Ou, ainda, se esbravejada contra um adulto, em tom de discussão, “Seu moleque!”, estará significando um indivíduo sem palavra, um canalha, um cafajeste.

 Os exemplos apenas ilustram a viagem das palavras de uma região para outra, dentro de uma mesma língua. É tema curioso, fascinante, que merece estudo acurado para mostrar  que as palavras são fotografias da vida do homem no espaço físico-social.

DICAS DE GRAMÁTICA

Como usar  as palavras pequenez e pequinês?
 – Use-as assim: com “Z” quando oriunda de pequeno, para significar qualidade de pequeno, embora  seja utilizada, também, no sentido de baixeza, mesquinhez, coisa frequente por essas bandas; grafa-se com “S” quando proveniente de Pequim, capital da China.

Uma outra dica:
 Palavras terminadas em  – EZ são derivadas de adjetivos, como em: pálido – palidez; malvado – malvadeza. As terminadas em -ES são derivadas de substantivos: montanha – montanhês; corte – cortês.

É asneira usar um antes de mil?
 – Das grossas! Quem usa um ( ou hum, o que é bem pior) antes de mil comete bobagem: um é singular; mil é plural. Assim, quem usa um mil está misturando as estações; ou seja, está cometendo a mesma bobagem de quem vai ao shopes. Nunca use um mil ou hum mil nem mesmo em cheques.

Quer dizer que  a forma hum não se usa em hipótese nenhuma?
 – Em hipótese nenhuma! Trata-se de ortografia do tempo da Onça. Todavia, muita gente emite notas fiscais com hum: hum milhão e trezentos e quarenta mil reais, hum bilhão e quinhentos mil reais. São pessoas que apreciam o arcaísmo.

* Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Membro Fundador da Academia dos Poetas Acreano; Pesquisadora Sênior da CAPES.