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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

A linguagem dos jovens

A linguagem é o veículo mais fantástico para expressão, comunicação e manifestação cultural de um povo. E, nesse campo da linguagem, fenômeno curioso a ser observado, na atualidade, é o uso de gírias e expressões populares, nascidas em meio aos jovens, que estão sempre a imprimir dinamicidade, velocidade, criatividade e animação à língua. A essas novas palavras são criadas para situações momentâneas, são as gírias. Muita gente sente repulsa por elas, todavia essas expressões estão impregnadas no dia-a-dia da juventude, numa demonstração da dinamicidade cultural da língua portuguesa.

O uso da gíria, até pouco tempo atrás, era uma linguagem dos malandros e marginais, mas, com a ajuda dos meios de comunicação, que abrandou sua negatividade, e a tolerância na educação escolar, hoje o uso da gíria já é comum até na classe média alta, que sempre prezou pelo padrão culto.

Em meio aos gramáticos, o que vem ser a gíria? Evanildo Bechara, na edição revista e ampliada da sua Moderna Gramática Portuguesa, (1999:351), cita a gíria como uma forma de renovação lexical, através de um empréstimo feito por uma comunidade lingüística a outra comunidade, dentro da mesma língua histórica. Dino Preti (1999) diz que a gíria provém do dinamismo por que passa a sociedade moderna, da velocidade das mudanças e do abandono das tradições. Para ele há três fatores defi-nidores das características da gíria: dinamismo, mudança, renovação.

Neste artigo, entende-se a gíria como uma palavra nova que surge no uso comunitário. Ela poderá incorporar-se ao léxico da língua ou ser um modismo passageiro. Pois esse léxico ou vocabulário é o componente da língua que mais facilmente retrata as mudanças e variações lingüísticas, considerando ter como função nomear e designar fatos, processos, objetos, pessoas. Reflete, necessariamente, as transformações sociais.E como o léxico de uma língua pertence a uma classe aberta de palavras, há sempre a incorporação de novos itens lexicais.

Em nosso país existe uma vasta forma de se falar o português. Cada região possui seus dialetos. Devido ao nível de escolaridade surgiu a gíria. Normalmente uma pessoa que teve acesso à educação formal fala o português correto, já às pessoas menos favorecidas usam gírias para se expressar. A gíria é um fenômeno da linguagem que não se identifica seu significado através do seu sentido literal. Desse modo, uma gíria não pode ser traduzida em outra língua.

O mal encontrado no uso das gírias, é que as pessoas a adotam como linguagem diária e passam a desprezar o nosso vocabulário oficial, chegando mesmo a esquecê-lo ou a não dominá-lo.

Todavia, todo falante deve prezar o bom uso de sua língua materna, pois ela divide os falantes dentro das classes sociais. E, nessa divisão, há formas de prestígio, eleitas para os vencedores dos empregos públicos, dos cargos mais importantes na vida social. Falar e escrever bem são exigências do mundo moderno e, nesse mundo, os jovens ocupam o maior espaço.

Alguns exemplos de gírias:

* Dar um rolé: passear, sair.
* Gostosa: mulher bonita, sensual.
* Porrada: soco, murro.
* Pipoco: tiro.
* Mocréia: mulher feia.
* Bater um fio: dar um telefonema.
* Antenado: ligado, atento.
* Azaração: paquera, namoro.
* Baranga: mulher feia.
* Boiola: homossexual.
* Mala: pessoa chata.
* Mauricinho: rapaz bem vestido, filhinho de papai.
* Pagar mico: passar vexame.
* Patricinha: menina bem vestida.
* Ficar:namoro de um encontro apenas.
* Mano: forma de tratamento.
* Bagulho: pessoa feia.

A gíria dos jovens é uma espécie de cola social, que está presente no cotidiano da vida de uma sociedade, em seus diversos setores: escola, família, trabalho, lazer, igreja, dentre outros. Agora, usá-la, adequadamente, exige do usuário o domínio das diversas variedades lingüísticas, de modo que para cada situação use um registro adequado, sabendo distinguir o uso oral do uso escrito.

Diz-se, finalmente, que a língua é rica por apresentar variedades lingüísticas, por dar aos falantes o poder de criação, liberdade. Essa é a beleza de uma língua que não preciso ficar estanque, presa às regras, pois o seu papel é vital às relações humanas. Tudo depende da língua para ser divulgado em informações – através dos meios de comunicação de massa – para construir um sistema literário e cultural, para desenvolver tecno-logias, enfim, para perpetuar feitos humanos. A gíria é um recurso a apontar as variações da estrutura social e as variações da estrutura lingüística, tão necessárias ao processo comunicativo e, portanto, aceitáveis desde que empregada adequadamente.

DICAS DE GRAMÁTICA

VENDA À PRAZO ou VENDA A PRAZO?
– VENDA A PRAZO, pois não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

VAI ASSISTIR O JOGO HOJE ou VAI ASSISTIR AO JOGO HOJE?
 – VAI ASSISTIR AO JOGO HOJE. Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

O INGRESSO É GRATUÍTO?
– Não! O INGRESSO É GRATUITO. A pronúncia correta é gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma: flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.

Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Membro Fundador da Academia dos Poetas Acreano; Pesquisadora Sênior da CAPES.