DEU NA REVISTA ÉPOCA: Castanha-do-Brasil aumenta renda de produtor acreano e mantém floresta em pé

Milhares de sacos de castanhas são entregues à usina da Cooperacre em Brasiléia, sob o olhar atento de Felícia Maria Nogueira Leite, engenheira agrônoma (Foto: Haroldo Castro Época)
Milhares de sacos de castanhas são entregues à usina da Cooperacre em Brasiléia, sob o olhar atento de Felícia Maria Nogueira Leite, engenheira agrônoma (Foto: Haroldo Castro/ Época)

Torrada ou in natura, misturada na granola ou em doces, usada no preparo de bolo e biscoitos, para fazer leite ou em receitas de arroz, a castanha-do-brasil é um fruto da Amazônia de alto teor nutritivo e saboroso de dar muita água na boca. A castanheira é uma rainha da floresta: pode atingir 50 metros de altura, uma das mais altas da Amazônia. Suas sementes, encontradas em ‘ouriços’ que podem pesar dois quilos, são ricas em fibras e selênio.

Nutricionistas dizem que um punhado dessas castanhas no café da manhã ajuda a retardar o envelhecimento, a fortalecer o sistema imunológico e a evitar doenças como o câncer. Difícil é parar de comê-la. Não é à toa que a castanha-do-brasil, também conhecida como castanha-do-pará, tornou-se um dos principais produtos da Amazônia consumidos no Brasil e no mundo.

Ainda que no exterior o fruto seja conhecido como Brazil Nut, seu principal exportador não é o Brasil, mas a Colômbia. As taxas elevadas de desmatamento no Brasil – resultado do crescimento econômico desordenado, causado principalmente pelas madeireiras, pela pecuária e pelas plantações de soja – atingem também as nossas castanheiras. Hoje, a Bertholletia excelsia faz parte da lista de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente e está protegida por lei.

Ao viajar pela Amazônia para documentar os principais produtos não-madeireiros para o projeto Florestabilidade, as castanheiras estavam no topo da lista de prioridades. Passei diversos dias no Acre acompanhando o trabalho de algumas famílias de extrativistas que fazem parte da Cooperacre, central que une 25 cooperativas e associações espalhadas em mais de 10 municípios do Estado, formada por quase duas mil famílias nas regiões do Alto Acre, Baixo Acre e Purus.

O trabalho da extração da castanha é árduo. A safra de castanha dura cerca de sete meses. Nessa época, os extrativistas passam grande parte do tempo dentro da floresta efetuando a coleta.

A castanha cai do pé naturalmente e a coleta deve acontecer com certa rapidez para evitar que o contato com a umidade do mato comprometa a qualidade da semente. Com a ajuda da “mão de onça”, um bastão feito para agarrar os ouriços da castanha sem precisar se curvar até o chão, cada trabalhador consegue encher diariamente 60 cestos de ouriços.

Depois de abrir o ouriço e limpar as sementes no local de coleta, é preciso levar as de boa qualidade à cooperativa. O transporte da floresta até a sede pode ser feito em lombo de animal e levar alguns dias. Algumas comunidades preferem carregar os frutos em canoas, mesmo se correm o risco de que as embarcações também e despejem as castanhas no rio.

Para mudar essa realidade, uma das soluções da Cooperacre foi tentar aperfeiçoar toda a cadeia de produção da castanha e criar uma certificação. Para isso, localizaram as castanheiras mais produtivas, cadastraram as famílias que trabalham com o produto, selecionaram as melhores práticas de coleta, armazenamento e embalagem e rastrearam toda a produção da castanha. Com isso, a Cooperacre triplicou sua capacidade de compra em poucos anos.

Grande parte da produção da região de Brasileia chega na Usina de Beneficiamento de Castanha da Cooperacre. Usando uma tecnologia de ponta, a centrifugadora consegue abrir a castanha sem que seu fruto seja quebrado. O processo garante uma alta porcentagem de sementes perfeitas, prezadas pelo consumidor no Brasil e no mundo. A seleção manual antes da embalagem à vácuo também é rigorosa.

Com um bom manejo sustentável e um constante treinamento dos extrativistas, a produção de castanha-do-brasil não só tem crescido em qualidade e quantidade, mas também vem permitindo que as famílias dos castanheiros tenham uma melhor qualidade de vida. Não resta dúvida que a floresta em pé tem muito mais valor do que destruída! (Haroldo Castro e Giselle Paulino / Revista Época)

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