Pai de 13 filhos, de 68 anos, prova que não há idade para aprender a ler

José da Silva realiza o sonho de estudar com a EJA. (Foto: Odair Leal/ A AGAZETA)
José da Silva realiza o sonho de estudar com a EJA. (Foto: Odair Leal/ A AGAZETA)

José da Silva Nascimento tem seu nome no certificado da Aula Inaugural do Programa Quero Ler com a caligrafia impecável, letras redondas e de fácil leitura. Aquela figura grisalha, com óculos e muito sorridente com certeza tinha história que valia a pena conhecer.

“Iniciei meus estudos agora, mas eu tinha a quarta-série”, explica. Sua turma possui 44 alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Estadual Zuleide Pereira de Sousa, localizada AC-40, Vila Acre. Ele é o aluno mais velho da turma. “Tem exemplo de pessoas com 70 anos se formando, então tive essa atitude. Acho que estou no caminho certo. Por mais que eu não chegue lá, estou caminhando”, reflete.

Quando terminou a quarta-série, ele tinha 20 anos de idade e hoje está com 68 anos. Ou seja, ele voltou a estudar 48 anos depois. Uma decisão que partiu do incentivo da sua filha Cosma, que também é aluna do EJA. “Ela tá mais avançada que eu, mas ela disse pra eu ir estudar, que aí fazia companhia a ela”, conta.

Tem 13 filhos e seu casamento completou as Bodas de Ouro. Todavia, foram muitas dificuldades que o impediram de frequentar a escola. Seu José foi seringueiro e trabalhou em colocações próximas ao Rio Tejo até 1993, quando a borracha “acabou preço”, segundo suas palavras.

Então tentou a vida na cidade, em Cruzeiro do Sul. Após três anos, ele viu que não tinha alcançado boas condições de sustento, então foi trabalhar para um fazendeiro. Com o passar do tempo e chegando a idade dos filhos, fez um esforço maior e voltou a Cruzeiro para que eles pudessem ter estudo. “Todos meus filhos estudaram”, diz com orgulho e para isso começou a trabalhar de pedreiro, profissão que exerce até hoje.

Três dos seus filhos estão em Rio Branco e depois de algumas viagens à Capital veio morar aqui também. Sua esposa teve um derrame, então não possui boas condições físicas para acompanhar o desafio do esposo. A escola fica próximo da casa dele, no ramal Santa Helena.

“Senti falta do estudo toda a vida. Não tive oportunidade. Nunca tive o suficiente para ter um emprego. E aprendi na vida, a vida sofrida”, avalia. E aquele mesmo sorriso de quando começou a conversa também estava presente neste momento.

No entanto, como é evangélico da Igreja Adventista dos Últimos Dias, ele afirma: “Posso não conseguir emprego mais, mas melhor que ter uma faculdade é poder estudar a Bíblia. Porque tudo que a Bíblia diz, ela confirma”, testifica.

José tem pela frente mais dois anos de aprendizado, quando será possível reencontrá-lo com um novo certificado em mãos.

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