Pular para o conteúdo
Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

Reforma Política, uma inspiração para a história

“A história é um carro alegre, cheia de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue”. Essa frase de Chico Buarque de Holanda resume muito da percepção que tenho da história. Ela passa diante dos nossos olhos numa velocidade lancinante que faz com que, mesmo de muito perto, tenhamos dificuldade de entender que a partir dali, as coisas mudam.

Ontem, o Senado Federal, tão desmoralizado, assim como toda a classe política, votou e aprovou por 36 votos a 31uma emenda, do senador Jorge Viana, ao projeto de reforma política que estabelece o fim das doações de pessoas jurídicas a partidos e candidatos. Para alguns, pode ter sido mais uma votação que não dará em nada.Ou mesmo uma bobagem. Mas, observem a nuances e verão que ontem vimos a história sendo escrita.



A democracia brasileira ainda é jovem e cambaleante. Engana-se quem pensa que somos um país democrático e acerta quem percebe que, a duras penas, ainda estamos tentando construir uma democracia plena. Os nossos governos são, em seus melhores e piores momentos, retratos dessa construção. O país do futebol, do carnaval e da corrupção. Imagens entranhadas em frases que ouço desde criança. Lembro-me de muitas vezes dizer: mas como vocês vão votar num candidato que rouba? E, imediatamente, receber a resposta. Ele rouba, mas faz.

Esse é o Brasil do “Rouba, mas faz”,que lutou pelo voto direto, viu sua luta virar uma esperança, depois uma realidade, depois algo para se desconfiar e por último, mera mercadoria. E, se o voto é mercadoria, o candidato passou a fazer de tudo para comprá-lo, inclusive a se vender também. É, por isso, que a cada pleito eleitoral bilhões são gastos. Mega estruturas, programas de TV dignos de Hollywood e poucos embates de ideias. Afinal, quem pode pagar geralmente leva.

Toda a estrutura das campanhas, ou a maioria delas, vem de uma mesma fonte: da doação de empresas para os partidos e candidatos. Os casos de corrupção que surgem, independente de quem esteja no poder, sempre tem nesse tipo de doação seu eixo central. A compra de votos, de espaço, de governabilidade, enfim, de poder político e/ou financeiro.

Ontem, quarta-feira, dia 2 de setembro de 2015, na tribuna do Senado Federal o autor da emenda que proíbe a doação de empresas às candidaturas, senador Jorge Viana, falou o seguinte: “Empresa visa lucro, e a política não pode ser uma atividade do lucro”. Não foi nenhuma grande novidade isso que disse o senador. Pelo contrário, é até óbvio. Porém, o olhar surpreso de muitos senadores denunciava que o grito de basta, que veio também das ruas, tinha chegado à casa das leis. Era chegado o momento de se dar o próximo passo rumo a uma solução que ainda se encontra muito longe. A grande vitória é perceber que não estamos mais estagnados, começamos a nos mexer.

A maior contribuição que os senadores podem ter dado, ao proibir a doação de empresas para campanhas políticas, é a de contribuir para que se diminua o poder do dinheiro nas eleições. Quando um empresário banca uma candidatura, muito provavelmente, ele está fazendo um investimento que, na maioria dos casos, é recompensado durante o mandato. Proibindo a doação de empresas menos dinheiro vai entrar e menos compromissos inconfessados serão fechados. E podemos voltar a ter uma campanha no campo das ideias como deve ser. Ou, pelo menos, o mais perto possível disso.

A matéria sobre o fim do financiamento das empresas deve voltar para a Câmara dos Deputados e, já há quem diga, que “Lord” Cunha e companhia limitada não permitirão tamanha afronta. Diante desses comentários só se deve lamentar. Pois esse é o lado execrável da política que é capaz de transformar tudo apenas num jogo de interesses, ou numa luta partidária pelo poder. Acredito que existem algumas questões que devem sempre estar acima desse tipo de disputa. A política dos partidos é acéfala há um bom tempo. Poucos são os que conseguem dialogar diante dos vícios e da bitolação geral. E isso está em todos os lados, em todos os partidos. Por isso, muito embora eu acredite que será uma medida extremamente impopular, a Câmara não terá como retroceder. Certamente tenho medo de ver os “cunhas” nos fazerem dar um passo atrás.

O que nem todos os políticos percebem, e acredito que existem sim bons políticos, é que as coisas estão afunilando. Uma coisa que é muito bacana nos tempos que vivemos é que parece que estamos recuperando nossa capacidade de indignação e isso é fundamental. Talvez o combustível necessário para que sigamos em frente. Considero muito pior a inércia do que uma indignação que pode até estar deturpada, inocentemente ou não. E, nesse sentido, sou totalmente a favor das manifestações que tem ocorrido no Brasil. Todas elas. Menos as violentas.

Muita coisa mudou desde junho de 2013. Muita coisa já está sendo vista de outra forma. Ontem o Senado fez valer a vontade das ruas, dos bons políticos, de quem acredita nesse país e da população que sempre segue em frente, mesmo em tempos difíceis.

Não poderia fazer um texto político nos dias de hoje sem utilizar a palavra crise. Pois é! No meio de todas as crises (percebam que falei no plural) que estamos tendo no Brasil, assisti feliz nossa história sendo reescrita. E nem acho que estou super dimensionando a votação feita na última quarta-feira pelos senadores. Sei que ela não é definitiva e sei também que não é a solução pra tudo. Porém, é algo que, em tempos difíceis como esses em que estamos vivendo, pode ser extremamente poderoso: uma nova inspiração.

* Aarão Prado é jornalista.

error: Conteúdo protegido!!!