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Trinta anos contando a história do Acre

Silvio Martinello e Elson Martins se destacaram no jornalismo acreano com o extinto Varadouro, jornal de resistência que durou de 1977 até 1981...
Silvio Martinello e Elson Martins se destacaram no jornalismo acreano com o extinto Varadouro, jornal de resistência que durou de 1977 até 1981…

 

... os dois jornalistas levaram o mesmo conceito para o novo A GAZETA, em 1985, que denunciava as mazelas da sociedade acreana ignorada por muitos.
… os dois jornalistas levaram o mesmo conceito para o novo A GAZETA, em 1985, que denunciava as mazelas da sociedade acreana ignorada por muitos.

O jornal A GAZETA, primeiramente chamado de A GAZETA do Acre, foi idealizado em 1984 e ganhou vida em outubro de 1985. Silvio Martinello e Elson Martins foram os fundadores do jornal, que teve importantes participações na sua primeira década de jornalistas como Arquilau de Castro Melo, Marcos Afonso, Suede Chaves e Roberto Vaz. Desde o princípio até seus dias atuais, A GAZETA figura com uma proposta jornalística clara de retratar a realidade acreana com críticas e opiniões honestas e, acima de tudo, propositivas. Ou, como diria Elson Martins, “O jornal A GAZETA tem a melhor história de um jornalismo muito bem intencionado para o Acre”.



Resistir é preciso. Mas ser uma empresa jornalística também é. A história de A GAZETA nasceu do grupo de jornalistas que criaram um dos mais celebres jornais acreanos, o Varadouro. O jornal de resistência nasceu em 1977 e durou até dezembro de 1981, com 24 edições, editadas e idealizadas pelos jornalistas Elson Martins e Silvio Martinello, com vários colaboradores. Foi um jornal que surgiu no calor do conflito dos anos 70, entre grandes latifundiários de terras e fazendeiros no Acre contra pequenos extrativistas remanescentes da época dos seringais. Era um jornal de denúncias e de desabafo para as pessoas mais humildes e injustiçadas no Estado.

Em 1982, o projeto do Varadouro, o de luta em defesa dos oprimidos, das vozes amordaçadas dos povos da floresta (seringueiros, posseiros, extrativistas, índios e ribeirinhos) tinha acabado. Era também ano de eleição, e os jornalistas que participaram do primeiro jornal de resistência do Acre (em uma época em que resistir era algo bem arriscado) buscavam novas iniciativas.

Em 1983, o senador eleito, Mário Maia, fundou o jornal Folha do Acre. E foi pra lá que ‘os barbudinhos’ do Varadouro (Silvio Martinello e Elson Martins) foram chamados. E conseguiram fazer um bom jornal na Folha. Mas os dois eram idealistas. E não ficaram lá por muito tempo.

Na Folha do Acre, eles viram uma ideia de jornal enquanto ‘empresa jornalística’. Era isso que Martins e Martinello queriam. Sem saberem, estava em suas cabeças o conceito de A GAZETA. A proposta do jornal nasceu de um grupo de Porto Velho, o mesmo que dirigia O Guaporé em Rondônia. O plano era fazer A GAZETA do Acre em um Estado promissor, mas que ainda era carente de conteúdos jornalísticos.  Aliar a herança do Varadouro com uma visão empresarial.

O grupo rondoniense comprou o primeiro maquinário e tocou o projeto para frente. Entretanto, Elson Martins e Silvio Martinello contam que, pouco tempo depois, eles desistiram e queriam vender o jornal. Elson foi chamado para negociar com os rondonienses e acertaram que ele e Silvio iriam continuar com o jornal e pagariam o valor investido aos poucos, com os lucros de A GAZETA do Acre. “Concordamos”, respondeu Martins. Mas o acordo não deu certo.

Logo em seguida, Elson e Silvio recordam que o empresário Wilson Barbosa e o advogado João Branco teriam comprado o jornal do grupo de Porto Velho. “Eu ainda me lembro bem que chegamos no jornal um dia e lá na minha sala estava o João Branco, na minha cadeira e com os pés em cima da mesa. Ele tinha um jeito meio irônico. E quando eu perguntei o que estava acontecendo, ele me respondeu de uma forma meio debochada: ‘compramos o jornal”.

Para Elson Martins e Silvio Martinello foi feita a proposta de eles continuarem fazendo A GAZETA do Acre, só que sob a nova administração. Elson respondeu que ele, Silvio e o restante da equipe iriam pensar. “Na verdade, a gente decidiu sair mesmo. Queríamos só deixar o Suede Chaves lá, que estava sem emprego e necessitado, e iríamos tocar outros projetos. Antes deste episódio, nós, no Varadouro, tínhamos feito uma brincadeira com o Wilson, o denominando de ‘Poderoso Açougueiro’. Nós o respeitávamos muito. Foi só uma brincadeira. Só que, na época, ele pode não ter gostado”, lembrou Elson Martins.

Elson lembra que quando saíram o jornal durou uma semana, com textos ‘tijolão’ (textos longos e monótonos, sem objetividade). Em seguida, Martins conta que Wilson Barbosa entrou em contato com ele e com o amigo Silvio Martinello, pedindo para eles voltarem e afirmando que tinha comprado o jornal para eles escreverem. Elson diz que fez apenas uma exigência: “eu disse: Tudo bem, mas você tem que tirar o João Branco lá de dentro”, brincou o sorridente Martins (só que o tom de brincadeira é hoje em dia. Lá em 1984, foi sério!).

(Fotos: Arquivo A GAZETA)

Apostar na grande reportagem: o segredo do sucesso de A GAZETA

Na primeira edição, em outubro de 1985, o jornal ainda se chamava A GAZETA do Acre. (Foto: Arquivo Jornal A GAZETA)
Na primeira edição, em outubro de 1985, o jornal ainda se chamava A GAZETA do Acre. (Foto: Arquivo Jornal A GAZETA)

A primeira edição do jornal A GAZETA do Acre foi em 15 de outubro de 1985. A número ‘zero’. Mostrava bem a proposta do jornal. “O segredo do sucesso do Varadouro, e que levamos para A GAZETA do Acre, foi investir na grande reportagem. Apostar no jornalismo investigativo, que até então não existia no Estado. As pessoas aqui não sabiam o que era seringueiro, o que era índio direito. Não sabiam o drama que eles viviam. E nós é que começamos a levantar para toda a sociedade estes problemas sociais. Os próprios acreanos se admiraram com tal realidade. Este foi o grande diferencial que A GAZETA trouxe, e que é válida para o jornal até hoje”.

Com estas premissas jornalísticas, A GAZETA do Acre teve prosperidade. Mudou-se para o prédio no bairro Cerâmica e passou a ter uma máquina de impressão melhor. Era um prédio espaçoso, que permitiu muitos avanços ao jornal. Avanços técnicos, empresariais e de reportagem.

“Nós seguimos com a mesma linha de resistência que tinha O Varadouro. Era um jornal bom, com uma linha editorial bem definida. Por isso, dominou rápido o mercado acreano. Acho que foi o tempo em que um jornal impresso mais vendeu no Estado. Vendíamos 3.500 jornais por dia. Nos dias de grandes acontecimentos, era o dobro. Até costumávamos a dizer que era um jornal que se pagava, tinha receita só das vendas e dos pequenos anúncios”, frisou Elson Martins.

Entre alguns adventos de A GAZETA do Acre, Elson e Silvio contam que foi o pioneiro a trazer um modelo de diagramação (arte de organizar elementos gráficos, por exemplo, textos, ilustrações, legendas, títulos e fotos, em um espaço limitado) para um jornal impresso. Também fizeram um jornal com impressão plana, 3 linotipos e com a primeira ‘Tituleira’ eletrônica.

O prédio do jornal se mudou para um prédio menor, mas bem compacto na Quintino Bocaiúva. Na campanha de 1986, quando Flaviano se elegeu governador, Elson foi ajudar o marketing dele por acreditar em Flaviano como um jovem técnico que não havia sido contaminado pela política local. Ainda assim, ele destaca que A GAZETA do Acre se manteve mais distante da campanha e do governo. Em 1988, Elson Martins saiu do jornal devido a incompatibilidades políticas. Ele foi chamado para ser diretor da TV Aldeia e reestruturou a emissora, que à época estava sucateada, até que em 1991 se mudou para o Amapá, para novos desafios jornalísticos.

Os demais sócios-parceiros do jornal também foram deixando A GAZETA do Acre por se engajar em caminhos políticos, para os estudos em outras áreas e até para abrir novos empreendimentos jornalísticos. Silvio Martinello, porém, não deixou o projeto.

E no dia 15 de março de 1998, A GAZETA, já com o nome atual, foi o primeiro jornal a também ser impresso com cores. O jornal tinha três unidades em preto e branco na máquina. Uma máquina de fabricação francesa que coincidentemente é da marca Gazette. Através de consultoria com uma empresa de São Paulo, foi comprada uma quarta unidade na França para inserir as cores. “Foram alguns dias até acertar na impressão, mas quando conseguimos, as cores deram um grande salto de qualidade e valorizaram muito a publicidade no jornal.”, lembrou Silvio.

No tocante a conteúdos, A GAZETA do Acre, inicialmente, deu continuidade à linha do Varadouro, retratando as injustiças sociais do Estado, e acompanhando a migração dos povos da floresta para as periferias de Rio Branco. Com o passar da década de 80, os fatos foram mudando. No final dos anos 80, A GAZETA fez a cobertura do assassinato de Chico Mendes e insistiu no caso até a prisão e condenação dos acusados (Darly Alves). A GAZETA serviu até como fonte para muitas reportagens nacionais e internacionais sobre o caso de Chico Mendes na época.

Nos anos 1990 e 2000, em todos os grandes acontecimentos importantes para o Acre (incêndio do prédio da Assembleia Legislativa, a morte do então governador Edmundo Pinto, a prisão de Hildebrando Pascoal, a queda do avião da Rico, bastidores da minissérie ‘Amazônia’, posses de vários governadores e prefeitos, eleições municipais e majoritárias), A GAZETA esteve lá, noticiando.

O jornal já tem 8.793 edições publicadas (contando com a de hoje). Ganhou vários prêmios de jornalismo e empresariais locais (Chalub Leite, do Ministério Público do Acre, IBBP, Destaques do Ano, etc) e nacionais (5 vezes finalista e 1 vez vencedor do prêmio Esso, uma das maiores premiações de jornalismo do país; 5 vezes finalista e 1 vez vencedor no prêmio Embratel; além do Prêmio Mérito Lojista). Todos frutos de uma história de 30 anos no Acre, mantendo sempre a mesma linha jornalística que deram sucesso À GAZETA: a aposta na grande reportagem.

Máquina de cores chegando ao antigo prédio do  jornal, ao lado da velha sede do Juventus, em 1998. (Foto: Arquivo A GAZETA)
Máquina de cores chegando ao antigo prédio do
jornal, ao lado da velha sede do Juventus, em 1998. (Foto: Arquivo A GAZETA)
A GAZETA já tem 8.793 edições publicadas, que hoje são feitas por esta equipe. (Foto: Victor Augusto/ Acervo A GAZETA)
A GAZETA já tem 8.793 edições publicadas, que hoje são feitas por esta equipe. (Foto: Victor Augusto/ Acervo A GAZETA)

“Consegui ser um juiz melhor, penso eu, porque fui jornalista de A GAZETA”, afirma Arquilau Melo

Arquilau recorda a sua passagem pelo jornal. (Foto: Arquivo pessoal)
Arquilau recorda a sua passagem pelo jornal. (Foto: Arquivo pessoal)

BRENNA AMÂNCIO

Conhecido pelo trabalho que exerceu no Judiciário acreano, o desembargador aposentado Arquilau de Castro Melo, 62, foi um dos primeiros repórteres de A GAZETA. No período em que escreveu para o jornal, participou de coberturas marcantes na história do Estado.

Sobre a experiência de uma redação, Arquilau se lembra do trabalho jornalístico com nostalgia. “Era um desafio e também muito gratificante. A GAZETA foi fundamental, porque mostrou a cidade. Pela primeira vez, o cidadão começou a absolver que nós tínhamos florestas, tínhamos índios. Antes, índio não era notícia no Acre e com A GAZETA passou a ser. Foi dado voz a estes movimentos sociais. Eles eram excluídos. Então, a população tomou conhecimento da existência dessas situações”, recorda.

Aquela era uma época em que a cidade estava em constante expansão. Muitos bairros surgiram, como o Cidade Nova, Bahia, João Eduardo. Os novos moradores urbanos eram, na verdade, seringueiros expulsos de suas terras. “Não era nada planejado. O povo invadia após serem expulsos dos seringais. A GAZETA teve o papel importante de mostrar isso: denunciar as atrocidades”.

Enquanto repórter, Arquilau Melo também lembra de ter ouvido muitas promessas feitas por autoridades na época. Nada muito diferente dos dias atuais. “Com a inauguração do Distrito Industrial, esperava-se que o Acre fosse se destacar no ramo. Muitas promessas eram feitas, coisas que nunca aconteceram”.

Arquilau sempre dominou muito bem a escrita. Tinha textos ‘jorrando na ponta dos dedos’. Seu estímulo diário era sair da redação em busca de notícia para retornar com uma manchete boa. “Eu, como profissional e também como pessoa, cresci e aprendi muito com o jornal”, destaca.

Enquanto escrevia matérias, Arquilau Melo também advogava no Acre. Depois saiu do ramo jornalístico para cumprir a missão de ser juiz. “Ser repórter foi importante para mim, porque eu estava habituado a ouvir as duas partes. Isso me fez bem no Judiciário. Algumas pessoas falam que eu obtive sucesso, isso se deve também à paciência para ouvir antes de julgar as pessoas. No jornalismo eu aprendi isso. Consegui ser um juiz melhor, penso eu, porque fui jornalista de A GAZETA”, declara.

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