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De braços dados e camas compartilhadas

A Gazeta do Acre por A Gazeta do Acre
05/08/2017 - 19:32
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O pega-pega seguia qual vento de estiagem, em rapidez sôfrega e vertiginosa. Deslanchara de vez feito água de morro abaixo e fogo de ladeira acima. Há bem menos de um mês se haviam conhecido e já estava feito o enlace, o ajuntamento de corpos em labaredas vorazes. Foram morar juntinhos e molhados de suor num apartamento mínimo da rua das caramboleiras, em bairro contíguo ao meu, de descida, rumando para o morro das ilusões contrafeitas.

O livre pensador viu tudo acontecer de longe e quase de perto. É que os encontros flamejantes ocorriam ao pé das janelas do sobrado de quatro águas e dois andares, onde ainda hoje vive ele. Coisas de arrepiar aconteceram ali nas últimas duas semanas. Pegação das brabas. Do alto, as luzes apagadas dos aposentos permitiam a ele ver quase tudo, às vezes, ou de quando em vez, assim que se permitia fumar uma cigarrilha e pegar o ventinho noturno que vinha do mar calmo de verão.

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Mesmo as sombras da árvore na calçada deixavam os enamorados ocultos para os transeuntes da boca da noite, menos para o velho lobo do mar. Depois, eles se iam, de escapadela e furtivos, rumo a um coqueiral ligado à praia. Aí, então… Deus sabe lá o que acontecia, se é que Ele não fechava os olhos ante tanta cupidez e libido em níveis altíssimos.

Tarde da noite, depois de também a amante do livre pensador ter sucumbido nos braços de Orfeu, quando ela seguia já por estradas de sonhos e roncos noturnos estrondosos, à meia noite, o pensador meditava e tomava anotações acerca de ocorrências marcadamente humanas tais como as relativas ao casal em estado de êxtase primário, seus conhecidos desde alguns anos.

Um dia, manhãzinha, o velho lobo do mar de Hemingway perguntou à Christie, sua namorada em pernoite:

– O casal dos encontros noturnos ao pé da caramboleira está cada vez mais em labaredas. O que deverá acontecer a eles nos próximos dias?

– Ora, é claro que, como eu, também todas elas querem sempre casar e ser felizes até que a morte as separe do seu amor maior, como é o caso da Dorothy, uma mocinha habitante das nuvens para quem qualquer calhorda bom de bico já se torna um Romeu só dela em potencial.

De fato, a vida é mesmo assim. Prestando atenção ao moço conhecido desde a mais tenra infância, transeunte cativo da calçada ao lado da vivenda, pode o livre pensador concluir, revelando imprudência sem tamanho aos ouvidos da sua ex quase Cris:
– Enquanto elas querem casar de véu e grinalda, numa capela elegante pintada de branco e adornada por imagens de anjos e vitrôs coloridos de santos do céu, eles querem, sim, acasalar, principalmente o Anthony, um rapazola cheio de tesão e de família pouco dada a formalidades, posto que o pai é o manda-chuva de um cabaré não tão distante daqui… Ora essa! Filho de peixe, peixinho é. – E arrematou:

– Tenho uma amiga, em Palm Springs, que casou com um homossexual resoluto… O importante era ter um marido.

Tony, para as íntimas, apenas quis continuar tocando a mesma vidinha à toa e mansa dos verdes anos anteriores, na farra, na praia, na pagodeira, no amor a esmo fosse lá com quem quer que fosse, e sem ocupação definida.

Os velhos costumes teimavam em não o abandonar e, nem passou muito tempo, já se enrabichara por uma cabrocha de pele morenaça, ancas largas, cintura de pilão, seios fartos e mais de metro e oitenta. De quinta a domingo era dela o playground, o melhor dos pertences e um dos mimos com o que brincava do nascer ao pôr do sol. Segunda, manhãzinha, era que ia dar a assistência técnica especializada, estilo telefunken, à dita titular. Ademais, entrou para uma jogatina que, dia sim e dia também, o deixava sem um tostão furado que suprisse as necessidades do prometido mar de felicidade… Coitada da Dorothy!

– Você veio em casa ver o que daqui pode levar além das suas trochas, ou vai sossegar o facho de vez?

– Deixe-me dormir sossegado. Não me perturbe. Faça-me um rosbife amanteigado. Preciso repor as energias gastas no meu trabalho estafante. Ainda lembra? Sou porteiro de bordel! – Era essa a mesma ladainha sacana do irremediável mandrião.

Boa menina era a Doty. Ela trouxera da mãe e da família a preocupação com a casa, com o futuro dos filhos e com a manutenção do casamento mais fajuto do condado. Não desistiria a qualquer preço. O seu homem haveria de ter remédio. Afinal, ela o escolhera para passar o resto dos seus ainda verdes dias ao lado dele. Desse no osso e a faca no pescoço, ela suportaria tudo em nome da célula familiar.

O primeiro aniversário do malfadado casamento coincidiu com o Dia de Ação de Graças. E lá se foi ela, finalmente, bem colada ao maridinho, casta e pura e meiga e bela, agradecer por estar vivendo aquela relativa felicidade que só cabia na sua própria cabeça.

Na festa organizada pelos maiorais da redondeza, ele entrou e não desgrudou os olhos da ninfetinha de ancas largas e balouçantes, seios túrgidos e perturbadores, por quatro ou cinco minutos, ao que a Doty fingiu não perceber. Coisa de homem, segundo a própria.

Enquanto isso, no mesmo evento, ainda na entrada, em trinta segundos, ela vislumbrou e plasmou no seu agádê interno trinta modelitos de vestidos das damas que por ali estavam. Coisas de mulher, é o que me parece.

Como o futuro a Deus pertence, eles encangaram um filho atrás do outro feito imbiricica. Em síntese, fizeram quatro em três anos. Todas, crianças arredias e sonolentas fabricadas às segundas-feiras sempre pela parte da tarde, depois que ele descansara do ócio infatigável, se é que assim se pode dizer. Coisa de preá.

Houve-se por bem avaliar que a libido falou mais alto, antes, porque agora a tesão acabou, da parte dele, e não da parte dela, porque a maioria das mulheres está sempre pronta para começar tudo de novo em nome da unidade da porra da família. Ela permanecia incólume e altiva, mesmo apanhando e acompanhada de um biltre que a tornava mais diminuída a cada vez que acasalavam.

Eu, cá de minha parte, sem nada ter a ver com isso, diria como o velho poeta segundo quem, quando a cabeça não pensa, o corpo é que padece. Tome-lhe!

Homem de bom proceder, o livre pensador, já com ares de candidato a amante da ainda bela Doty, chegou à conclusão segundo a qual mulher casa só pra dizer que tem marido. Grandes coisas! Na maioria das vezes a libido quase apaga já na décima semana, porque há um novo rabo de saia no meio da relação. Depois o fogo vira brasa e essa agora é cinza. Danou-se!

– Ah, se arrependimento matasse! – Foi o que disse a moça.

Um dia, então, a Doty se apercebeu da situação calamitosa que era viver – ela e os filhos – sempre sob a tutela dos pais. Sofreu mais ainda e, sentada à beira da calçada do sobrado, à tardinha, confidenciou coisas conhecidas da metade do Alabama. Em síntese, já choramingando, disse ela:

– Em verdade, meu bom livre pensador, casar jamais será o melhor remédio, em nenhum dos casos. – E prosseguiu:

– Tudo poderia ser diferente. Eu teria dado prosseguimento aos meus estudos, estaria formada, conseguiria um bom emprego e teria filhos bem mais tarde, quando a razão e as conveniências autorizassem. Também teria conhecido alguém melhor preparado, inclusive, em termos intelectuais e viveria da melhor forma possível desde que bem melhor que hoje, certamente.

No Purgatório, Dante escreveu uma tirada segundo a qual a razão vos é dada para discernir o bem do mal. Matou a pau!

Foi aí que o tal livre pensador entrou na história, posto ser um homem maduro e bem ponderado em suas mais de cinquenta voltas o que, segundo ela, cairia muito bem nas atuais circunstâncias, dado que apenas a filhinha mais nova, de oito meses, ficaria em sua companhia. Os outros – todos meninos – já estavam sob a tutela dos avós maternos e em segurança.

Eis que, também de uma hora para a outra, o velho homem de Hemingway já estava de braços dados e a cama repartida com a jovem e bela Doty, de apenas vinte e algumas primaveras que, agora, vivendo a felicidade talvez plena, tornara-se uma garota sorridente caminhando sobre as pedrinhas de diamante com as quais a sua rua passou a ser ladrilhada.

Lá ainda vivem, agora, com mais um filhinho, hoje com dez anos, encomendado às expensas da virilidade e dos cofres abarrotados do nosso heroico e equilibrado e compreensivo e bom e livre pensador.

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO, Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail [email protected] >

 

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