ARTIGO – Chica Bom

Caetano gravou No dia em que eu vim-me embora em 68, dez anos antes do dia em que eu fui-me embora de dentro de minha mãe. Eu me senti uma matuta de mim quando soube dessa música pela primeira vez. Era a festa de aniversário da Lalá, eu conversava com o pai de um amigo dela sobre sei lá o que. E eu sei exatamente sobre o que. Mas é que fazia tanto barulho – dentro e fora -, e aquele pai de amigo me dava uma agonia. Entre os salgadinhos e os oi tudo bem dos que passavam, me perguntou, assim quase num susto, porque eu, do interior, tinha mudado ainda novinha para a capital. Um susto. A pergunta nunca tinha me ocorrido. Não sei. Foi aí que ele falou de Caetano.

Ouvi a música e chorei quando contei a coisa toda para a minha analista. Agradeci com uma mensagem e mandei de volta Qasida, de Siba como se nada fosse. Ele nunca respondeu. Tenho grudado em mim o que senti com a falta de resposta, assim como segue aqui, fresquinha, a cena da primeira carona que peguei de casa para a cidade grande. Morar longe inaugurou em mim o saber-se possível, o saber-se sem resposta, e sem pergunta. Embora morar tenha sido, naquela época, verbo pouco usado. Eu estudava fora.

As caronas, a primeira e as muitas que seguiram, eram o ápice da inadequação de roteiro. Ou melho,r eram um roteiro que eu seguia apesar de não ter escrito. Eu queria ir por mim mesma, de ônibus. Três horas. Eu queria o todo. Ou moro aqui ou ali. Lembro de um dia, anos depois da primeira ida, em que me deixaram subir sozinha – com minha irmã, mas sem adultos – no ônibus da Itapemirim. Meu amor não vá embora, pela Itapemirim; amo essa música. E lá pelo meio do caminho, subiu o moço da coxinha e do refrigerante gritando: olha a cocinha e o lefiselante. Melhor coxinha da paróquia. Refrigerante, eu dispensava porque sempre passei mal na estrada. Eu ali, fazendo compras com o meu dinheiro, ouvindo legião no último volume. Tinha o meu próprio tempo.

Até hoje odeio caronas. Ando um tanto, pego um táxi, não vou, mas não me enfiem no carro de ninguém. Porque carona é assim, é sempre alguém a arranjar o esquema: fulano vai com sicrano, cabe mais um com sei lá quem. Não.

Uma vez, combinaram de que eu faria o trajeto com os sócios de meu pai. Um povo muito cerimonioso, com quem eu nunca tinha trocado palavra. Pararam no posto e perguntaram se eu queria um sorvete. Não precisa, obrigada. Imagina, pode escolher. Tanto faz. Compraram o lançamento das férias. Férias de meio de ano no nordeste, milho. E eu tenho horror a milho. Tomei o sorvete inteiro sem deixar pingar nem uma gotinha no carro chique. Faltava uma meia hora pra chegar quando eu vomitei o banco de couro de uma ponta a outra.

Tudo isso pra dizer que hoje, tocou na rádio do meu spotify a música de Caetano, e agora nem sei se foi ele quem escreveu, na voz de Elis Regina. Na hora da mala de couro forrada que fedia, cheirava mal, senti o enjoo da viagem que já não faço há anos. O exato mesmo enjoo. Incrível as memórias que guarda nosso corpo, não é? Fui no posto aqui da esquina e comprei um Chica Bom, só para me lembrar de que deixei o tanto faz para trás. Isso é em si, um percurso digno de nota. Boa semana, queridos, com viagens desejadas, com picolé e direito de vomitar o que for preciso.


(*) Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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